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Projeto investe contra a inacessibilidade de informações geradas pela produção científica brasileira

Entre 15% e 20% dos trabalhos científicos elaborados no Brasil são publicados em periódicos internacionais, indexados em várias bases de dados no exterior, inclusive na mais importante delas, a do Institute of Scientific Information (ISI), dos Estados Unidos. Tais bases de dados também indexam um pequeno número de periódicos nacionais e o Citation Index do ISI, por exemplo, atualmente cobre sete deles (de um universo total que se aproxima de 400 publicações).

Esses dados indicam que parte significativa da produção científica brasileira mais relevante acaba encontrando abrigo nos periódicos internacionais, tornando-se acessível e integrando o acervo mundial de conhecimento científico sistematizado. Mas eles revelam, também e principalmente, uma dura contraface da questão, ou seja, que cerca de 80% das informações geradas pela produção de ciência no Brasil permanecem inacessíveis para além das fronteiras do país.

Mas será a nossa produção científica “tão pobre em qualidade, que merece esse destino”? O pesquisador que faz essa pergunta, Rogério Meneghini, professor titular do Departamento de Bioquímica da USP e assistente da Diretoria Científica da FAPESP, pensa que não, e ele é justamente o coordenador geral de um projeto de pesquisa proposto pelo Conselho Técnico Administrativo da Fundação (CTA), que poderá alterar substancialmente, a médio prazo, esse quadro um tanto melancólico do acesso às informações sobre a produção científica brasileira.

O “projeto para o desenvolvimento de uma metodologia para a preparação e disseminação de publicações científicas eletrônicas”, como foi chamado, começará a ser desenvolvido nos próximos dias, por meio de uma parceria entre a FAPESP e a BIREME, Biblioteca de Referência de Medicina, vinculada à Organização Pan-Americana de Saúde, OPAS e à Organização Mundial de Saúde, OMS e reconhecida como um dos mais avançados centros da América Latina no desenvolvimento e uso intensivo de tecnologias de informação, tanto na operação de base de dados quanto no gerenciamento de serviços de informação científica. Abel Packer, um especialista em infomática de bibliotecas da BlREME, será seu coordenador operacional, e o projeto contará ainda com a participação de um grupo selecionado de editores científicos.

O primeiro objetivo específico do trabalho é o desenvolvimento de um software padronizado para ser usado na produção de periódicos científicos brasileiros, em formatos eletrônico e impresso. O segundo, é, com o mesmo software, partir para a constituição de uma base de dados de produção científica e de citações de artigos na literatura especializada, que deverá se tomar muito importante para avaliações científicas e estudos de ciência brasileira.

Indexação gradual
Mesmo antes de um estudo aprofundado da questão, que exige indicadores que só um sistema de indexação como o delineado no projeto permite gerar, Rogério Meneghini está convencido de que “há uma grande quantidade de informações valiosas na base do iceberg da produção científica brasileira”. De acordo com sua avaliação, em muitas áreas não se publica internacionalmente por razões que não têm a ver com qualidade, “mas envolvem tradição, dificuldade de lidar com a lingua, preconceitos com relação à não receptividade por parte da platéia internacional aos assuntos objetos de investigação etc”. Em razão disso há, segundo ele “muito de valor perdido nos periódicos nacionais”, fato que observa, enfatizado por especialistas internacionais ao se referirem à lost science in the third world .

Diante disso, os dois objetivos específicos do projeto convergem a rigor para o propósito global de contribuir para o desenvolvimento da pesquisa científica nacional, “através do aperfeiçoamento e ampliação dos processos e meios de divulgação, publicação e avaliação dos seus resultados, mediante o uso intensivo de novas tecnologias de informação e comunicação”.Em termos concretos, o primeiro passo do projeto será o desenvolvimento do software. Pronto, ele será utilizado inicialmente na produção impressa e eletrônica de 11 periódicos de várias áreas, o que deverá acontecer dentro de aproximadamente um ano. Essas revistas serão colocadas em WEB na Internet, o que imediatamente as tornará mais visíveis internacionalmente, dada a facilidade de acesso à rede. Em seguida, o número de periódicos será gradualmente aumentado, a partir de critérios técnicos de seleção estabelecidos pela coordenação da área de bibliotecas da DC, até que se chegue a algo entre 100 e 150 deles, produzidos segundo o padrão estabelecido pelo software e indexados pela FAPESP. Ao mesmo tempo se começará a formar a base de dados.

“Acreditamos que, com a nova sistemática, as revistas vão melhorar de qualidade, até porque a FAPESP selecionará as que serão indexadas em bases competitivas”, explica Meneghiní. Entre outras mudanças, elas terão que ser publicadas em inglês, fator decisivo para torná-las acessíveis internacionalmente e que pode inclusive contríbuir para que autores de outras nacionalidades demandem espaço desses peródicos para publicar trabalhos.