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Província alcalina do Paraguai é agora uma das mais bem descritas do mundo

A região centro-oriental do Paraguai, no flanco ocidental da Bacia do Paraná, é agora “uma das províncias de rochas alcalinas mais bem descritas do mundo”, segundo o pesquisador Alan Wooley, do Museu Britânico de História Natural, de Londres. Essa minuciosa descrição, preciosa para a área de Geologia, fundamentada num exaustivo estudo que mobilizou cientistas brasileiros, italianos, paraguaios e australianos, é o objeto do livro Alkaline Magmatism in Central-Eastern Paraguay – Relationship with coeval magmatism in Brazil, lançado em outubro pela Edusp (Editora da Universidade de São Paulo) e FAPESP.

Trata-se de um alentado volume (464 páginas, 18 capítulos), publicado em inglês, para facilitar à comunidade científica internacional o acesso aos numerosíssimos dados que oferece, organizado e editado pelos professores Celso de Barros Gomes, do Instituto de Geociências da USP, e Piero Comin-Chiaramonti, da Universidade de Trieste, Itália. Alan Wooley assina o prefácio da obra.

O livro apresenta a até então quase desconhecida província alcalina paraguaia no que diz respeito à sua geologia, mineralogia, petrografia, geoquímica, geocronologia e paliomagnetismo, e a tudo isso soma os dados similares relativos ao flanco oriental da bacia do Paraná, que abrange territórios das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil e que já eram um pouco melhor estudados. Em suma, na obra está contido praticamente todo o conhecimento acumulado sobre o magmatismo alcalino associado à Bacia do Paraná.

Embora ainda pareça um tanto precoce escapar do âmbito da apreciação científica para se falar em potenciais resultados econômicos do projeto que levou ao livro, não resta dúvidas de que o abundante material nele apresentado permite pensar em futuros estudos de viabilidade da exploração econômica das rochas alcalinas da região centro-oriental do Paraguai. As áreas com ocorrência dessas rochas geralmente concentram recursos minerais importantes para a indústria, como o fosfato e o nióbio.

Fôlego multidisciplinar
O livro é o mais substancial e vistoso, mas não o único resultado do projeto temático que o viabilizou – no qual a FAPESP aplicou R$ 419 mil – voltado, na verdade, para o estudo de dois temas: o magmatismo básico da Bacia do Paraná, coordenado por pesquisadores do Instituto Astronômico e Geofisico (IAG) da USP, e o magmatismo alcalino da mesma região, sob a coordenação do Instituto de Geociências e, especificamente, do professor Celso de Barros Gomes.

Tornando-se apenas a produção científica ligada à pesquisa da província alcalina e estritamente aquela realizada a partir de 1990, quando o projeto temático foi iniciado, há que se alinhar também entre seus frutos três teses de Doutoramento, três dissertações de Mestrado e quatro teses de Laúrea (equivalentes italianas das monografias de conclusão de curso de graduação), além de 29 artigos publicados em revistas especializadas do Brasil (21) e do Exterior (8), 30 resumos em eventos científicos no país (18) e no exterior (12) e 9 capítulos de livros. É uma produção considerável, compatível com o porte da equipe multidisciplinar, formada por uma dezena de pesquisadores que levou o projeto do magmatismo alcalino paraguaio à frente – a rigor, desde 1986, embora ele tenha sido formalizado como um temático em 1990. Além do grupo principal, o projeto contou com a colaboração de muitos outros pesquisadores, chegando-se ao total de 31, que estiveram envolvidos com ele mais ou menos intensamente.

Depois dessa produção, os pesquisadores podem sem dúvida discorrer fácil e longamente sobre a geologia já decifrada da região, como fez o professor Celso de Barros Gomes para o Notícias FAPESp, explicando três situações de formação das rochas investigadas. “Temos na área rochas derivadas do magma, material viscoso que se forma em altas temperaturas, no interior da crosta a dezenas de quilômetros de profundidade, num processo que se chama de intrusivo”, explica ele, apontando determinados trechos da bacia do Paraná num mapa.

Alternativamente, o magma sai através de um conduto, de fraturas na crosta terrestre e pode se alçar rapidamente até a superficie, vindo a se consolidar como derrame de lavas, esparramado, ou como eventuais edificios vulcânicos. Uma forma ou outra, resultante desse processo estruxivo, depende do grau de fluidez, portanto, da composição química do material expulso do interior da terra.

“Temos na bacia do Paraná vastos derrames de lavas. Já sabemos que 800 mil quilômetros cúbicos de material muito fluido foi expelido de forma pouco explosiva e escorreu por dezenas de quilômetros quadrados. Em enormes áreas temos camadas do material que podem atingir até 1.600 metros de espessura, o que indica urna longa atividade desse derrame suave de lavas”, explica o pesquisador. Mas encontra-se também em outros pontos da região material que aparece como corpos, reticulares e nos mais diversos tipos de ocorrência.

Esse é um tipo de informação geológica da região que foi possibilitada pelo projeto. Além delas, nos estudos mineralógicos e petrográficos deu-se conta dos minerais e tipos de rocha encontrados. Os levantamentos químicos descreveram os materiais encontrados quanto à porcentagem de alumínio, cromo, ferro, níquel etc que contêm. Adicionalmente, os pesquisadores levantaram informações geocronológicas, quer dizer, “determinaram através de métodos radioativos a idade de formação desse material”. E pelas investigações paleomagnéticas, ou seja, levantamento dos resíduos de sua magnetização anterior, determinou-se o polo, ou seja onde a rocha investigada estaria há 130 milhões de anos. Isso já havia sido feito em relação ao basáltico e agora foi realizado com as rochas alcalinas.

“Do ponto de vista científico, esse último é um aspecto de enorme importância em nosso projeto, porque remete à teoria sobre a deriva dos continentes, ou seja, a separação do nosso supercontinente, Gonduana, com a abertura do oceano Atlântico há 130 milhões de anos e o deslocamento progressivo dos blocos da América do Sul e da África”, diz o professor Barros Gomes. Vale registrar que as rochas alcalinas do Paraguai, de Angola e de Namíbia possuem a mesma composição. Mas, destaca o pesquisador, é mesmo todo o conjunto de informações levantado pelo projeto do magmatismo alcalino paraguaio que “é muito valioso, muito precioso, porque temos agora uma idéia mais aprofundada a respeito da natureza do material, da fonte embaixo do manto que o originou e da eventual interação de outros processos genéticos no curso de sua evolução”.