OPINIÃO

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Uma visão de ciência e tecnologia em três versões

MARIO COVAS | ED. 18 | MARÇO 1997

 

Antes de ser Governador eu já era engenheiro; e antes de engenheiro, um cidadão paulista. Entendo como uma honra o convite para inaugurar esta coluna. Sei da especial qualificação do público leitor; e creio ser capaz de imaginar as coisas que tal público desejaria ouvir de mim, como Governador. Peço, porém, que me leiam em três versões:

O Governador tem certeza da importância estratégica da ciência para o desenvolvimento. Sabe o quanto este Estado ganhou por antecipar-se, com universidades e institutos de pesquisa próprios. Orgulha-se da FAPESP fundação pioneira e paradigma de tantas congêneres estaduais que lhe sucederam, muitos anos depois. E cumpriu a sua parte, garantindo a integridade financeira desse sistema, quando maior era a adversidade. Eleger prioridades nunca lhe fora tão penoso, mas comprometer o futuro tampouco teria sido um jeito sábio de superar conjunturas. O Governador fez, pela ciência, tudo o que lhe parecia estar ao seu alcance.

O Engenheiro deseja, com ênfase, que São Paulo fique mais forte o quanto antes, para enfrentar esta competição global em que estamos envolvidos. Preocupa-lhe a peleja dos seus colegas pelos postos de trabalho que poderão estar perdendo, aqui mesmo, para engenheiros que vivem do outro lado do mundo. Aflige-se ao ouvir dizer que a evasão escolar no nível de graduação,nas universidades públicas estaduais, está crescendo. E além disso sabe que, nessas coisas, o alcance do Govemador é mais restrito, e que a mobilização da nossa elite intelectual é indispensável.

O Cidadão certo dia leu, no regimento da universidade, serem suas missões o ensino, a pesquisa e a extensão social do conhecimento; e gostaria de ter a certeza de que a distribuição de esforços, nessas três vertentes, está equilibrada. O cidadão acredita no cientista, pois o reconhece como alguém que está sempre à busca de verdades; e as vezes pensa que, por meio do saber talvez pudesse mais o cientista que o homem comum, no exercício de uma solidariedade inteligente. Parece ser daí que emana, mais que de outras fontes, a legitimidade da autonomia universitária.

O Governador sabe que a FAPESP, sempre pioneira, já deverá estar se ajustando aos reclamos desses novos tempos. O Engenheiro, ansioso, torce para que no juízo dos pares da ciência haja mais espaço para as suas legítimas preocupações. O Cidadão quer ver, cada vez mais, o Governo ajudando a comunidade de ciência e tecnologia, e vice-versa. Os três personagens desejam aos privilegiados leitores desta publicação sucesso nos seus projetos e sobretudo que os resultados deles possam alcançar a máxima vantagem social.

Mário Covas – Governador do Estado de São Paulo


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