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Cai o índice de desnutrição infantil em São Paulo

O percentual de crianças menores de cinco anos com crescimento inferior ao potencial genético, um dos principais indicadores da desnutrição infantil, caíu de 30,6% em 1984/85 para 13,7% em 1995/96, na cidade de São Paulo. Em meados da década de 70, o retardo de crescimento atingia 44,8% das crianças naquela faixa etária. Por faixa de renda, o maior índice de déficit de altura está entre as crianças cujas famílias têm renda média per capita mensal inferior a R$ 111,00, atingindo o ainda expressivo índice de 34,2%. Na faixa com renda familiar per capita acima de R$ 237,00 o problema foi eliminado. E formas severas de retardo de crescimento – bem conhecidas por nanismo nutricional – que, já há vinte anos, eram encontradas em cerca de 1/5 das crianças da cidade, hoje já não alcançam expressão epidemiológica em nenhum estrato econômico.

Os dados são resultados do projeto temático A Trajetória da Saúde Infantil como Medida do Desenvolvimento Social: o Caso da Cidade de São Paulo ao Longo de Cinco Décadas, realizado por pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde Pública da Universidade de São Paulo (NUPENS/USP), com a coordenação de Carlos Augusto Monteiro, professor titular do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública. O projeto busca analisar a evolução de indicadores e condicionantes da saúde naquele segmento infantil, relacionando-a com variáveis demográficas, econômicas e de infra-estrutura urbana.

“Nós estudamos o comportamento da saúde infantil em São Paulo, ao longo das últimas décadas, e avaliamos, no mesmo período, como se comportaram variáveis como pobreza, condições de saneamento e assistência à saúde, entre outras, buscando elementos para tentar identificar o que determinou aquela situação, seja de melhora ou piora”, explica o pesquisador.

De acordo com Monteiro, o retardo de crescimento, ou crescimento inferior ao potencial genético, origina-se, na maioria dos casos, de um inadequado estado nutricional da criança, resultante de más condições de alimentação e saúde. Três inquéritos realizados na cidade de São Paulo num intervalo de dez anos (1974/75, 1984/85 e 1995/96), e abrangendo todos os estratos econômicos da população, mostraram que o retardo de crescimento de crianças naquela faixa etária vem caindo gradativamente há duas décadas. Entre as crianças mais pobres, a queda foi de 55%; foi de 84% na faixa intermediária, e de 100% entre as crianças mais ricas.

Mas, segundo Monteiro, a melhoria das condições de crescimento e estado nutricional das crianças da cidade se deve apenas em pequena parte ao aumento da renda familiar, que de fato ocorreu nos últimos anos. “Contribuíram de forma mais significativa para isso melhores condições de saneamento básico, maior acesso da população aos serviços de saúde, níveis mais altos de escolaridade das mães e queda pronunciada de fecundidade”, assegura o pesquisador.

Pequenas ao nascer
Em contrapartida, e até contrastando com esse quadro favorável, a pesquisa feita pelo NUPENS revelou que a incidência de recém-nascidos de baixo peso mantém-se estável há vinte anos, na faixa de 10%. O baixo peso ao nascer passou a ser, atualmente, o principal causador da mortalidade infantil, que ainda atinge 23 em cada mil crianças em São Paulo, muito superior ainda à média aceita pela UNICEF, que é de menos de 10 mortes por mil.

Os pesquisadores foram em busca das causas, já que, no período, houve melhoria do estado nutricional, peso e altura das gestantes “Antes, as crianças nasciam pequenininhas porque as mães não se alimentavam bem; hoje, em São Paulo, são outras as razões”, salienta Monteiro.

As explicações para o grande número de nascimentos de bebês de baixo peso ficaram por conta, entre outros fatores, do elevadíssimo índice de partos cirúrgicos, ou cesáreas, que desde 1985 se mantém na faixa de 47%, e do aumento de partos de adolescentes. “Uma grande parte das cesáreas não são necessárias; são programadas. A criança nasce antes de ter completado nove meses, isto é, com peso menor e uma formação ainda incompleta, principalmente do aparelho respiratório”, diz Monteiro. Ficam mais vulneráveis à pneumonia, têm de permanecer mais dias no berçário, sujeitas a infecções.

Quanto à ocorrência de gravidez precoce, o índice tem aumentado de forma significativa. Em meados da década de 70, apenas 1,4% das crianças nasciam de mães que tinham menos de 18 anos de idade. Nos anos 80 já eram 4,2%, e agora 7% dos partos acontecem em mães adolescentes, cujo físico ainda está em desenvolvimento. Além disto, grande parte da gravidez precoce é indesejada e transcorre sem acompanhamento pré-natal, comprometendo o desenvolvimento intra-uterino da criança.

A precariedade da assistência pré-natal na maioria dos postos de saúde e hospitais, aliás, também foi considerado pelos pesquisadores um fator importante para o nascimento de bebês de baixo peso, assim como o hábito de fumar durante a gestação. Embora declinante (em 1985, 40,3% das mães fumavam durante a gravidez contra 31,7% em 1996), o índice de fumantes, segundo Monteiro, ainda é muito elevado.

A pesquisa
Este é o segundo projeto temático realizado pelos pesquisadores do NUPENS sobre saúde e nutrição financiado pela FAPESP. O primeiro, iniciado em 1991, mostrou o declínio da desnutrição em crianças e adultos e aumento da obesidade na população adulta em todas as regiões e classes sociais do país, apontando-lhes as causas. O projeto deu origem ao livro Velhos e Novos Males da Saúde no Brasil: a Evolução do País e de suas Doenças, vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Livro Brasileiro de 1995 sobre Medicina e Ciências Naturais. O segundo temático, que se encerra no próximo ano, centralizou a pesquisa na cidade de São Paulo e realizou pesquisas de campo para acompanhar mais de perto os indicadores.

A FAPESP investiu cerca de R$ 155 mil nos dois projetos, sendo R$ 25 mil no primeiro e R$ 130 mil neste segundo, que envolve dezenove pesquisadores. Parte dos dados provém da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), Secretaria Estadual de Saúde, Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP), entre outros. Os estudos de campo foram realizados pelo próprio NUPENS e compreenderam visitas a mais de 4 mil domicílios paulistanos, por uma equipe de médicos, nutricionistas e sociólogos.

Também faz parte do segundo projeto temático um estudo de acompanhamento da altura da população de jovens alistados para o serviço militar, nos últimos trinta anos, na cidade de São Paulo. Utilizando uma amostra de cerca de 400 recrutas para cada ano, até 1995, o médico Ivan França Jr., coordenador desse estudor, pôde constatar que a altura média do jovem brasileiro com idade entre 17 e 18 anos subiu de 1,69m (média dos nascidos em 1950) para 1,75m (nascidos em 1976), apenas dois centímetros inferior ao observado na população norte-americana da mesma idade.

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