PROGRAMA DE APOIO À PESQUISA EM PARCERIA PARA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA (PITE)

Print Friendly

Projeto pode emancipar país na área de software

ED. 30 | ABRIL 1998

 

Softwares especiais para otimizar o desempenho produtivo e gerencial de qualquer segmento produtivo, em qualquer setor da economia – primário, secundário ou terciário – podem se tornar um instrumento valioso de competitividade no mercado internacional, crescentemente marcado pela globalização. Esses softwares especiais implicam o domínio de novas tecnologias nas áreas de modelagem matemática e ciências da computação, o que, entre outras coisas fundamentais, inclui a capacidade de se produzir um programa específico chamado solver .

É exatamente esse produto chave que vem sendo buscado pelo projeto de pesquisa Solver de Alto Desempenho para Problemas de Otimização Estruturados, desenvolvido no âmbito do Programa de Inovação Tecnológica em Parceria , da FAPESP, e coordenado por Júlio Michael Stern, professor do Departamento de Ciências da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP. Inovador e ambicioso, o projeto poderá acabar com a dependência brasileira num segmento da computação de importância econômica inquestionável.

Solver é uma palavra inglesa que corresponderia em português a algo como “resolvedor”. Ele próprio é um software ou programa específico para resolver problemas de modelagem matemática – a qual, por sua vez, é a criação de modelos matemáticos que permitem articular as diversas variáveis de um problema em uma única e gigantesca equação.

Dito de outra forma, o solver tem a capacidade de resolver a equação que diz respeito a um determinado problema de desempenho produtivo egerencial. Juntos, modelos matemáticos e solver constituem o software final para utilização comercial. O Brasil, embora dependente do solver, dispõe de competência nas áreas de modelagem matemática e de desenvolvimento de softwares comerciais.

E uma das empresas especializadas nessas atividades é justamente a parceira de Stern no projeto do solver , a Unisoma S. A, uma pequena empresa sediada em Campinas, fundada em 1984 e que hoje fatura US$ 2,5 milhões por ano. Ela é responsável pelo investimento de R$ 24 mil no projeto, enquanto a FAPESP entra com R$ 60 mil.

Iniciada no ano passado, e prevista para término no final de 1999, a pesquisa já resultou na primeira versão do solver. “O passo que precisamos dar agora é incrementar a eficiência e o desempenho de rotina, até que o produto se torne competitivo ou supere o desempenho do solver comercial que está sendo usado”, diz, confiante, Júlio Michael Stern.

Rações para aves
O projeto do solver nacional surgiu da necessidade de a Unisoma atender demandas específicas de seus clientes – entre eles a Sadia, para quem a empresa já desenvolveu vários programas matemáticos de formulação otimizada de rações avícolas. Esses programas levam em conta os requerimentos nutricionais das aves em cada fase de crescimento e os diferentes insumos que devem compor a ração, todos sujeitos a variações sazonais, decorrentes dos períodos de safra ou entressafra de grãos. Não bastasse isso, os insumos têm níveis diferentes de nutrientes e sua absorção pelas aves é também diferenciada caso a caso. “Assim, compatibilizar tantas variáveis é um problema matemático, cuja solução representa maior eficiência e menor custo para a empresa”, diz Julio Michael Stern.

Até o momento, a Unisoma utiliza em seus modelos e softwares comerciais o solver IBM-OSL (IBM-Optimization Subroutine Library), adquirido da IBM norte-americana e internado no país ao preço aproximado de US$ 15 mil. O produto é bastante eficiente, segundo Stern, mas, diferentemente do que está sendo desenvolvido no Brasil, é genérico: formulado para resolver uma grande variedade de problemas de programação matemática, não pode atender todas as particularidades de um problema específico.

“Podemos fazer a seguinte analogia: o jeep , ninguém discute, é um excelente veículo utilitário, de emprego tanto em estradas de terra como nas pavimentadas. Mas se o que se deseja é vencer uma competição de Fórmula 1, é preciso contar com um automóvel especialmente projetado para alcançar grandes velocidades em pistas asfaltadas, o que não é o caso do jeep .”

É a dependência de um produto importado e genérico, “que leva a Unisoma a ter o maior interesse em desenvolver um solver nacional capaz de resolver os problemas gerenciais específicos de nossos clientes”, assinala o presidente da Unisoma, Miguel Taube Netto, empresário e titular do Departamento de Matemática Aplicada da Unicamp. Ele acrescenta que, com um solver nacional específico, a Sadia poderá reduzir em algo entre 3% e 5% seus gastos totais na produção de rações avícolas, dado o melhor planejamento na compra dos insumos agroindustriais.

Áreas de aplicação
Problemas de programação matemática podem ser formulados para otimização de muitas áreas, como o agribusiness – interesse mais imediato da Unisoma – e a área financeira, no planejamento de investimentos. “Esses dois contextos são completamente diferentes, mas, quando se formula o problema matematicamente, a estrutura que aparece é a mesma; é chamada pelos especialistas de estrutura angular blocada. Se formos capazes de desenvolver um solver de alto desempenho de estrutura angular blocada, que é o que estamos tentando, abrem-se várias outras frentes de trabalho e possibilidade de desenvolvimento de novos softwares comerciais para outras áreas”, explica Stern.

O pesquisador já havia coordenado, em 1993, o projeto de desenvolvimento de um software , resultado de um convênio entre a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) e o NOPEF-USP, Núcleo de Otimização e Processos Estocásticos Aplicados à Economia e Finanças, da USP, que agrega professores do Instituto de Matemática e Estatística e da Faculdade de Economia e Administração.

software desenvolvido foi o Critical Point for Windows , concebido com o propósito de otimizar as aplicações financeiras e as inversões no mercado de commodities praticadas pelos bancos e instituições de investimento coligadas à BM&F, num extenso rol constituído por empresas do porte do Citybank, Lloyds, Itaú e Corretora Síntese, dentre inúmeras outras.

“Hoje, já passa de 30 o número de instituições financeiras nacionais e internacionais que empregam o software, que está numa segunda versão e é comercializado por uma empresa privada com sede em São Paulo”,  informa Stern, acrescentando já estar em fase final a negociação envolvendo contrato de venda externa do Critical Point for Windows , a ser adqüirido por uma cooperativa norte-americana de produtores de grãos, forte investidora nas bolsas de mercadorias e futuros dos EUA. Uma versão estudantil do software está disponível e ao acesso de qualquer usuário via Internet, no site “www.ime.usp.br” em ftp/jstern”.

Exportando tecnologia
Quando o solver brasileiro estiver pronto, prevê Stern, deverá ser desenvolvido um outro software tanto para otimização da carteira de ativos financeiros, a exemplo de ações, commodities , contratos futuros e bens do mercado imobiliário, quanto para processos industriais e para o setor petrolífero.

Com isso, além da exportação de bens e serviços brasileiros com maior valor agregado, o País contará com a possibilidade de fornecer ao mercado externo softwares de aplicação personalizada, sobretudo para o parque produtivo dos países em desenvolvimento, de economia periférica ou de industrialização tardia.

A possibilidade de comercialização no exterior, contudo, existe mesmo em relação aos países desenvolvidos. A Unisoma, aliás, já está deixando as fronteiras do Brasil e estruturando uma subsidiária nos Estados Unidos, a Unisoma Incorporation, com sede em Athens, na Geórgia.

Sem deixar de fornecer softwares para o setor avícola, Taube quer diversificar suas áreas de atendimento e vê nos setores mineral, de ligas metálicas e de torrefação de café potenciais demandantes de softwares e do solver nacional.


Matérias relacionadas

FINANCIAMENTO
FAPESP lança edital de apoio à modernização de institutos de pesquisa
DIOGO SOUTO
Astrônomo comenta a análise da composição química da estrela Kepler-186
ADILSON MOTTER
Físico conta como modelos matemáticos ajudam a diminuir o risco de blecaute