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Projeto Temático

Estudos de solo para explorar a Amazônia sem agredir o ecossistema

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de São Paulo, USP, e do Instituto Francês de Pesquisa em Cooperação (ORSTOM), da França, está realizando uma série de estudos sobre os solos da Amazônia, que deve funcionar como apoio ao chamado desenvolvimento sustentado dessa região, isto é, à exploração de seus recursos naturais sem agressão ao ecossistema florestal.

Os estudos voltam-se principalmente para a degradação natural do solo, a extração mineral e a dinâmica e a geoquímica das águas no solo e no lençol freático na Amazônia, e integram um projeto temático apoiado pela FAPESP (R$ 340 mil) com título algo complicado: Organização e funcionamento hidro-biogeoquímico das coberturas lateríticas da Amazônia. Mas são claros os resultados que dele se espera, entre os quais uma definição precisa, dentro de mais dois anos, das áreas da floresta que oferecem maiores condições de uso para agricultura e pecuária e das áreas que o mais recomendável seria deixar como floresta, sob o risco de degradar completamente o solo.

“Nosso trabalho consiste em estudar detalhadamente todos os componentes da cobertura pedológica em termos mineralógicos, físicos, químicos e hídricos para caracterizar seu estado atual e reconstruir a história evolutiva das paisagens lateríticas amazônicas”, diz o coordenador do projeto, professor Adolpho José Melfi, titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ESALQ, e atual vice-reitor da USP. Dessa forma, será possível prever, segundo ele, sua evolução futura sob diferentes condições de uso do solo – plantações, criação de gado, extração mineral e estado natural da floresta.

Ação das águas
A área estudada, formada essencialmente por solos lateríticos, corresponde a 80% da Amazônia e sua formação ocorreu no início do período Terciário, há 60 milhões de anos. Vale registrar que laterítico, segundo o dicionário Michaellis de português, editado este ano, é relativo à laterita, e para esta palavra o verbete diz: “solo infértil vermelho, das regiões tropicais, que é um produto residual da decomposição de rocha, com alto teor de óxido de ferro e hidróxido de alumínio”.

O professor Melfi acrescenta detalhes, ou seja, além dos minerais citados, os solos lateríticos caracterizam-se também pela presença constante de argilas de baixa atividade (caulinita) e quartzo. “Eles têm, portanto, composição mineral simples e são pobres do ponto de vista químico. As áreas restantes da Amazônia são formadas por solos mais recentes, associados às regiões elevadas da Cordilheira dos Andes e às planícies aluviais, que compõem o fundo dos rios e suas bordas”, diz.

As coberturas lateríticas são muito vulneráveis e se degradam facilmente com o excesso de água provocado pela chuva e pela subida dos lençóis freáticos. Esse excesso arrasta elementos químicos importantes para a manutenção da coesão e da estrutura do solo, principalmente quando não há a presença da floresta. É o que acontece, por exemplo, com o ferro, responsável pela agregação das partículas argilosas do solo, que nessa situação é levada para os rios. Assim, permanece o quartzo, que constitui a fração arenosa do solo, criando condições favoráveis à acumulação da matéria orgânica e à acidificação do meio natural. Isso leva à formação de vastas áreas alagadas (podzóis), drenadas por rios negros, que são impróprias para a vegetação e a vida animal.

A manutenção do solo da Amazônia é garantida pela floresta, que tem a propriedade de absorver água. Mas ela também torna os solos profundos e com baixa fertilidade adequados para o seu suporte, devido à capacidade de reciclar os elementos nutrientes – como o potássio, o cálcio e magnésio – oriundos das folhas, dos troncos, das fezes e dos despojos de animais. Sem a floresta não há reposição desses nutrientes no solo. “Na Austrália, em uma região montanhosa com solo laterítico, a floresta foi retirada para a transformação de pasto e, passados 100 anos, todos os fundos dos vales haviam se transformado em terrenos alagados, salgados e erodidos, impróprios para a agricultura e pecuária”, lembra o professor Melfi.

Ele explica que dentro do projeto que coordena se está estudando, por exemplo, a quantidade de chuva em cada época do ano e o tempo que a água leva para atravessar o perfil do solo, desde os pontos mais elevados de um terreno até chegar aos rios. “Queremos também ligar o funcionamento dos lençóis freáticos e a composição química das águas nos processos associados às degradações dos solos nas posições mais altas do relevo”, diz.

Com os dados levantados na pesquisa os agricultores poderão definir o manejo ideal desses solos lateríticos naturais ou modificados pelo homem. Plantar gramíneas, como é o caso de muitas forrageiras servidas ao gado, por exemplo, não é uma boa solução, adianta o professor Melfi – elas necessitam de pouca água. Espécies que façam uso de muita água para seu crescimento e manutenção deverão ser mais indicadas para vastas regiões da Amazônia.

Há, por outro lado, muitas áreas lateríticas da Amazônia com alto potencial agrícola. Isso ocorre, por exemplo, nas cercanias de Porto Velho, em Rondônia. “Existem, nesse estado, solos iguais aos de Ribeirão Preto, em São Paulo, conhecidos como latossolos roxos, onde se planta café e cana-de-açúcar”. Segundo o coordenador da pesquisa, o manejo adequado torna esses solos excelentes para a agricultura.

Produtos promissores
O projeto temático sobre as coberturas lateríticas da Amazônia começou em 1997 e deverá estar concluído até o ano 2000. Na primeira etapa da pesquisa foi identificada toda a região laterítica e os diferentes tipos de paisagem que permitirão ilustrar os principais estágios de degradação das coberturas lateríticas da Amazônia e propor um modelo conceitual de evolução dos solos. Este estudo foi feito com base na análise de imagens de satélite e de dados do projeto de levantamento Radargramétrico da Amazônia Meridional ou Radar para a Amazônia (RADAM).

Quatro áreas piloto, representativas das principais paisagens lateríticas amazônicas, foram selecionadas para estudos mais detalhados sobre a “anatomia” (organização) e “fisiologia” (funcionamento) destas paisagens. A primeira área situa-se ao norte da cidade de Porto Velho, em uma região que associa, nos platôs rebaixados, solos argilosos bem drenados e mal drenados. Outras duas áreas selecionadas ficam no Estado do Amazonas, uma no Parque Nacional do Jaú, próximo à cidade de Moura e a outra nas proximidades de Manaus.

Os solos argilosos bem drenados são associados a solos arenosos favoráveis à acumulação de matéria orgânica na parte alta (Moura) ou baixa (Manaus) do relevo. Finalmente, a quarta área, situada a oeste da cidade de São Gabriel da Cachoeira, é constituída de solos extremamente arenosos, que foram formados, de maneira natural, ao longo de milhões de anos, provavelmente sob a ação dos lençóis freáticos em antigos solos lateríticos.

Na capital do estado do Amazonas, um dos focos de interesse é também o caulim, um tipo de argila usado em cerâmica e nas indústrias de papel e de produtos farmacêuticos. “Estamos realizando estudos para verificar a utilização mais adequada para este depósito mineral e definir sua potencialidade econômica”, conta Adolpho Melfi. São cerca de 100 km de afloramentos ao longo da estrada Manaus-Itacoatiara, ainda não explorados. “Dependendo da qualidade do minério e de uma possível utilização mais nobre para a indústria química ou de papel será analisada a viabilidade de uma exploração racional.”

O apoio da FAPESP ao projeto viabilizou, entre outras coisas, as viagens da equipe de pesquisadores à Amazônia e a compra de equipamentos, como o espectrômetro ótico com reflectância difusa, para o estudo dos óxidos e oxihidróxidos de ferro no solo, um porosímetro, para o estudo do espaço poral do solo, e tensiômetros para a análise do fluxo de água subterrânea. O grupo do professor Melfi reúne 14 pesquisadores da ESALQ, do CENA (Centro de Energia Nuclear para a Agricultura), do Instituto de Geociências e do Instituto Astronômico e Geofísico, todos da Universidade de São Paulo, e do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) e do Instituto de Ciências Exatas e da Terra de Rio Claro, da UNESP.

Além desses, integram a equipe seis pesquisadores franceses do ORSTOM, instituto francês de pesquisa que dedica seus trabalhos ao mundo tropical.

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