PROGRAMA DE APOIO À PESQUISA EM PARCERIA PARA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA (PITE)

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O fungo que pode salvar as hidrelétricas

ED. 38 | DEZEMBRO 1998

 

Em mais quatro ou cinco anos, a Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias, conhecida como Reservatório de Jupiá, situada no município de Castilho, no oeste paulista, poderá finalmente funcionar sem os crescentes problemas operacionais provocados pela proliferação de plantas aquáticas submersas. Desde 1994, vem ocorrendo ali uma superpopulação de duas dessas plantas, a Egeria densa e a Egeria najas. Em apenas 20 dias de fevereiro de 1997, a Companhia Energética de São Paulo (CESP) teve um prejuízo superior a R$ 700 mil, devido à redução na geração de energia elétrica, provocada por essas plantas.

A hidrelétrica é uma das maiores do Estado de São Paulo.A partir de janeiro próximo, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) dos campus de Jaboticabal e de Botucatu, encarregados de estudar o problema, começam a testar, em condições similares às do reservatório, o controle biológico dessas plantas, através da utilização de um fungo do gênero Fusarium. A espécie ainda está sendo identificada, mas já se sabe que é um fungo bastante específico e o mais apropriado para conter o crescimento das plantas e promover o reequilíbrio do sistema. A torcida agora é para que tudo dê certo.

“O início desse trabalho está dependendo apenas da liberação de um Registro Especial Temporário (RET) pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que permitirá a utilização do fungo em pequenas lagoas, inicialmente. A idéia é fazer uma análise de impacto ambiental, observar a segurança das outras culturas de interesse econômico, ambiental e social, a toxicidade aos peixes da Bacia do Paraná e a toxicidade humana”, adianta o pesquisador Robinson Antonio Pitelli, professor titular de Ecologia da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp de Jaboticabal.

Pitelli coordena o projeto denominado Desenvolvimento de um Programa de Manejo de Elodea densa e Egeria densa no Reservatório de Jupiá, que está sendo financiado pela FAPESP e pela CESP, no âmbito do Programa de Parceria para Inovação Tecnológica, no valor total de R$ 301.168,00. Iniciada em 1995, a pesquisa entra agora na fase de aplicação prática do tratamento formulado pelos pesquisadores.

Peixe carnívoro é culpado
Os problemas começaram a partir do crescimento descontrolado da Egeria densa no Reservatório de Jupiá, que pertence ao sistema do Rio Paraná e engloba o trecho final do Rio Tietê. Essa planta nativa brasileira, comumente usada para ornamentar aquários, jamais causaria danos se estivesse em equilíbrio com o sistema, esclarece o professor Robinson Pitelli. A hipótese mais viável para a explosão populacional das duas espécies –E. densa e E. najas – é que, com a introdução de peixes carnívoros no reservatório, como o tucunaré e a pescada-branca, sem a devida avaliação do impacto ambiental, os peixes herbívoros foram sendo reduzidos a níveis insuficientes para controlar o crescimento da planta.

O resultado já se sabe: uma superpopulação de Egeria, responsável por prejuízos que envolvem, principalmente, a redução na geração de energia elétrica. Segundo a CESP, em apenas 20 dias em fevereiro de 1997, deixou-se de produzir 235.000 megawatts por hora, de energia, o que, na época, representou perda de R$ 705 mil. Além disso, o problema acarreta grande número de paradas não programadas das máquinas: 132, em 1995, 127, em 1996, e 42, em 1997.

Há ainda os custos com a remoção de detritos do reservatório (chegou a cerca de 77 caminhões/dia), além de gastos com a substituição freqüente de grades de proteção para evitar que a planta se enrosque nas turbinas. Entre 1990 e 1997, foram substituídas 770 grades, a um custo unitário de R$ 4.800,00. O diretor de Meio Ambiente da CESP, Daniel Salatti Marcondes, que também é professor da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu, conta que começou a se preocupar com a proliferação de plantas aquáticas, especialmente as submersas, logo que assumiu o cargo, em 1995.

“Como não havia estudos mais aprofundados, procurei pesquisadores da Unesp para que identificassem e estudassem o comportamento dessas plantas.” Ele considera que houve muitos avanços desde que a parceria universidade-empresa foi deslanchada.”O desequilíbrio ecológico favorecia demais o crescimento de Egeria densa, depois aumentou a população de Egeria najas, e, quando Jupiá levantou esse problema, outras hidrelétricas responderam que essas plantas ocorriam em seus reservatórios, mas não de maneira tão preocupante”, recorda o professor Robinson Pitelli. Na Represa de Paulo Afonso, no Rio São Francisco, a Egeria densa já causou algum prejuízo, enquanto em Itaipu prevalece a Egeria najas, sem provocar danos até agora. Em Jupiá, a situação é tão crítica que a planta já é encontrada desde águas rasas até oito metros de profundidade, atrapalhando a navegação fluvial. Devido ao problema, o sistema Hidrovia Tietê-Paraná também está participando do projeto.

Procurando inimigos
Para chegar à fase atual do projeto, a equipe de pesquisadores percorreu um longo e exaustivo caminho, que começou com o levantamento das plantas submersas existentes em Jupiá. Desde o início, eles acreditavam que o problema era causado por Egeria densa e Egeria najas. Posteriormente, o grupo passou a procurar outras plantas, insetos, peixes ou fungos que fossem inimigos naturais da Egeria. Durante dois anos, eles percorreram as bacias dos rios Aporé, Paraná e Pantanal Mato-grossense Sul, em busca de plantas doentes.

Valeu o sacrifício: “Chegamos a mais de 600 isolados de fungos, um número significativo para nosso trabalho”, informa Pitelli. Após uma série de testes de patogenicidade (capacidade de causar doenças), os pesquisadores conseguiram isolar como a mais patogênica uma espécie de fungo do gênero Fusarium, ainda em fase de identificação. Esse fungo atua pela liberação de uma toxina que pode matar a planta em 10 dias, podendo vir a funcionar como um eficiente herbicida.

Logo no início, um problema: o fungo só era patogênico à planta em águas ácidas. A água da represa é al calina. Os pesquisadores realizaram, então, uma série de buscas com outros isolados mais adaptados ao pH da água da represa. Não houve grande sucesso. Assim, na fase atual, a equipe está desenvolvendo formulação em gel, na faixa exata de pH que garanta a infectividade do fungo. Este produto deverá ser mantido na superfície da planta por duas horas, propiciando as condições necessárias para que o Fusarium possa agir.

“Hoje, já temos um fungo isolado cuja formulação é viável economicamente e estamos em fase de desenvolvimento de uma formulação que dê condições de atuar no ambiente das represas”, resume o pesquisador, que conta com o apoio do Laboratório de Controle Biológico de Plantas Daninhas, do Departamento de Biologia Aplicada à Agropecuária, situado no campus da Unesp de Jaboticabal. Ele ressalta que o objetivo final do projeto é recuperar parcialmente o equilíbrio ecológico do lago e que, para isso, poderão ser usados meios químicos, mecânicos e biológicos. O impacto ambiental de herbicidas também está em estudo no campus da Unesp de Botucatu, enquanto o professor Pitelli pesquisa, ainda, a introdução da carpa capim nos reservatórios.

Participam do projeto os doutores em Agronomia Edivaldo Domingues Velini e Dagoberto Martins, o engenheiro florestal Edson Sciji Mori, todos da Unesp/Botucatu, além da doutoranda em Agronomia Gláucia de Figueiredo Nachtigal. Pela CESP, além do professor Daniel Salatti, integra a equipe o engenheiro agrônomo Robson Tanaka. Os primeiros resultados do projeto foram apresentados, em julho de 1998, durante o Congresso da Aquatic Plant Management Society, em Memphis, no estado do Tennessee, Estados Unidos. Em julho de 1999, suas conclusões serão divulgadas durante o Congresso Internacional de Controle Biológico de Plantas Daninhas, que deve acontecer em Bozeman, no estado norte-americano de Montana.

O pesquisador Robinson Antonio Pitelli, 48 anos, é engenheiro agrônomo formado pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp/Jaboticabal, da qual é professor titular. Fez mestrado e doutorado em Solos e Nutrição de Plantas na ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz)/USP e pós-doutorado no Laboratório de Controle Biológico de Plantas Daninhas do Departamento de Patologia Vegetal da Universidade da Flórida.


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