Imprimir PDF

Projeto SOAR

Novas perspectivas para a Astronomia brasileira

Um acordo internacional assinado em 1º de dezembro entre o Brasil e os Estados Unidos formalizou a participação brasileira no Southern Observatory for Astrophysical Research, ou Projeto SOAR. Trata-se de um observatório astronômico que terá o telescópio de melhor performance entre todos os existentes no mundo em sua categoria, com desempenho comparável ao do Telescópio Espacial Hubble, em termos de qualidade de imagem.

O projeto está sendo conduzido por pesquisadores e técnicos dos dois países, e quando estiver concluído, no final de 2001, permitirá um salto de qualidade suficiente para equiparar a pesquisa brasileira à realizada nos centros de Astrofísica mais avançados do mundo pelas próximas três décadas. O SOAR já está em fase inicial de construção e será instalado em Cerro Pachón, ao norte dos Andes Chilenos, a 100 km do European Southern Observatory (ESO), da comunidade européia.

“A criação de um novo observatório não acontece em intervalos menores de três, ou no máximo, duas décadas, e sempre significa um marco para a Astronomia porque depende fundamentalmente do desenvolvimento de novas tecnologias”, observa o astrofísico João Steiner, diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), do CNPq, e líder do Projeto pelo grupo de cientistas brasileiros.

Discutida a partir de 1994, a participação do Brasil no Projeto SOAR acontece através de um consórcio entre FAPESP, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e as fundações de amparo à pesquisa dos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, envolvendo investimentos da ordem de US$ 14 milhões, um terço do valor total. A FAPESP entra com US$ 3,6 milhões, a Finep com US$ 4 milhões, o CNPq com US$ 2 milhões, a Fapemig com US$ 1 milhão, a Faperj com US$ 1,6 milhão e a Fapergs com US$ 1 milhão.

A diferença será desembolsada a longo prazo por todos os parceiros, periodicamente, para custear a operação do observatório. Do valor total de US$ 42 milhões para concretização do SOAR, US$ 28 milhões serão gastos na construção das instalações e US$ 14 milhões na manutenção e funcionamento do observatório por 20 anos.

A cota norte-americana do Projeto será financiada pelas Universidades da Carolina do Norte e do Estado de Michigan, além do National Optical Astronomy Observatories (NOAO), órgão responsável pelos observatórios americanos. Segundo Steiner, “o SOAR tem o porte certo para nossa comunidade astronômica e isto se deve à intensa participação de todos os pesquisadores da área na definição das especificações técnicas, visando sua utilização em pesquisas de nosso interesse”.

Para a FAPESP, este envolvimento propiciou uma grandeinovação na sistemática de avaliação e influenciou de forma definitiva os rumos de pesquisas no sentido de aumentar a competência brasileira, principalmente na área de instrumentação de precisão. A obra de engenharia do Projeto SOAR ocupa 1.200 m² e está dividida em duas partes: as instalações dos laboratórios e outras dependências do observatório, e a mais complexa, o domo, cúpula geodésica com vinte metros de diâmetro que abriga o telescópio e possui mecanismos sofisticados de controle.

O projeto óptico está pronto e foi desenvolvido pelo físico brasileiro Gilberto Moretto, que concluiu em abril de 1998 pós-doutorado no Centro de Óptica Astronômica Adaptativa da Universidade do Arizona, Estados Unidos.

Avanços tecnológicos
A tecnologia de ótica ativa e adaptativa, formada por espelhos controlados eletronicamente para melhorar a imagem refletida, desenvolvida nos últimos dez anos, é uma das maiores inovações do equipamento ótico a ser instalado no SOAR. Essa tecnologia o equipara ao Telescópio Hubble, que, do espaço, permite a observação dos corpos celestes sem a interferência das turbulências atmosféricas responsáveis por distorções nas imagens captadas. Muito mais barato e acessível aos pesquisadores porque está instalado em terra, o SOAR é dotado de dois mecanismos que eliminam essas e outras interferências.

O primeiro mecanismo aplica a óptica ativa, formada por um conjunto de 140 atuadores, ou apoios optomecânicos instalados junto ao espelho primário, que oscilam para manter a curvatura desse espelho na forma de uma parábola perfeita em relação à luz captada, pois o vidro, com 4,25 m de diâmetro, 10 cm de espessura e 3,2 toneladas de peso, está sujeito a deformações provocadas pela força da gravidade. O segundo mecanismo aplica a tecnologia da ótica adaptativa no espelho terciário, que é plano, e em um quarto espelho, localizado no interior do sistema. Nesses espelhos, outros atuadores oscilam cem vezes por segundo para corrigir as distorções.

Outra inovação resultante de estudos recentes de alta tecnologia está na produção do espelho primário. Obtido por evaporação de dióxido de silício com acréscimo de titânio, seu coeficiente de dilatação é zero, o que evita outras possíveis distorções de imagem. Perfil: João Steiner, 48 anos, é físico, livre-docente em Astrofísica pelo Instituto Astronômico e Geofísico (IAG-USP), pós-doutorado em Harvard, Estados Unidos (Smithsonian Center for Astrophysics), professor titular da Universidade de São Paulo é diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), do CNPq.

Uma avaliação criteriosa
O processo de avaliação do Projeto SOAR foi determinante para seu sucesso. Muito mais trabalhosa que o usual, a análise das condições estabelecidas no acordo internacional foi feita inicialmente por um comitê de quatro assessores – dois brasileiros e dois estrangeiros. Em seguida, os termos do acordo foram submetidos à avaliação da comunidade astronômica brasileira durante um simpósio realizado pela FAPESP, em dezembro de 1995, com o objetivo de expor o projeto, as técnicas de construção possíveis e suas aplicações.

O simpósio reuniu cientistas de destaque na Astronomia, como Jacques Lepine, diretor do IAG naquele ano, Sueli Viegas, professora titular do IAG/USP, Luiz Nicolaci, do Observatório Nacional do CNPq e Instituto Max Planck, da Alemanha, Horácio Dottori, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Thaisa Storchi Bergmann, da mesma universidade, e Francisco Jablonski, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), de São José dos Campos. Representantes das agências financiadoras também discutiram as propostas do SOAR, entre eles Massimo Tarenghi, do European Southern Observatory (ESO), Roger Davis, da Universidade de Durham, Inglaterra, Moyses Nussenzveig, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Cylon Gonçalves da Silva, diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), e Ubirajara Alves, do CNPq.

Dois representantes da comunidade científica americana, ligados ao NOAO, também participaram das discussões. A missão de avaliar o Projeto SOAR, atribuída à FAPESP, foi coordenada por Luiz Nunes de Oliveira, coordenador adjunto da Fundação para a área de Ciências Exatas e professor titular do Instituto de Física da USP, em São Carlos. Para o pesquisador, essa discussão foi fundamental. “Realizamos, de acordo com a tradição da Fundação, uma avaliação construtiva para que o Projeto refletisse os objetivos científicos da comunidade brasileira, contribuísse para aumentar sua competência e levasse os cientistas da área a definir suas perspectivas para, pelos menos, os próximos vinte anos”, recorda.

De acordo com José Fernando Perez, diretor científico da FAPESP, “um projeto nacional de grande porte como o SOAR faz sentido não só por seu impacto na Astronomia brasileira, que cresceu muito nos últimos anos, mas também pela participação de seus representantes em todas as etapas. Esse aspecto aglutinador foi muito importante para que ele se tornasse ‘o projeto da Astronomia brasileira'”.

A negociação incluiu desde o projeto do telescópio até a parcela de tempo que ele estaria disponível aos cientistas brasileiros. Para Perez, “o processo foi pedagógico. A FAPESP adquiriu muita experiência para lidar com projetos de grande porte envolvendo cooperação internacional, a ponto de aplicar esses conhecimentos no Projeto Genoma”, destaca.

Republicar