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Carta do editor | 44

Pesquisa relevante em qualquer campo

Boa parte do material jornalístico que vem sendo publicado no Notícias FAPESP parece reiterar a tese de que a separação clássica entre pesquisa básica, pesquisa aplicada e pesquisa tecnológica perdeu a eficácia no contexto atual da produção de ciência e tecnologia. As fronteiras entre essas categorias diluem-se. E os produtos resultantes do que seria uma pesquisa altamente relevante em ciência básica podem se mostrar imediatamente úteis para uso social, do mesmo modo que resultados de uma pesquisa claramente orientada para uma inovação tecnológica relevante podem também representar contribuições significativas para a acumulação do conhecimento básico. Assim, uma palavra-chave neste momento, um termo que de certo modo dá um sentido unificado à pesquisa científica e tecnológica, por mais díspares que sejam as áreas de conhecimento a que se refere, parece-nos ser, exatamente, relevância. Como disse o diretor-presidente da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, durante a assinatura do primeiro acordo de cooperação técnica desta fundação com uma instituição congênere de outro Estado brasileiro – a pernambucana FACEPE -, em 30 de julho último, a importância da pesquisa define-se por sua relevância, seja para a produção do conhecimento, seja para o desenvolvimento socioeconômico.

Esse critério da relevância está sem nenhuma dúvida respeitado na escolha da reportagem de capa desta edição do Notícias FAPESP. É esta a primeira vez que o resultado de um projeto do jovem programa de Inovação Tecnológica em Pequena Empresa-PIPE vai para a capa do informativo. E dado o enorme potencial criativo dos projetos que estão sendo financiados no âmbito desse programa, dado também o papel que a pequena empresa parece estar fadada a desempenhar na generalização de uma cultura de inovação mais ágil e consistente dentro do universo produtivo nacional, certamente este fato se repetirá muitas vezes. Desta feita, mostramos o desenvolvimento de uma malha de fibras ópticas que deverá se tornar uma alternativa muito melhor ao tratamento da icterícia, problema que anualmente atinge 200 mil recém-nascidos no País, ou seja, 5% da totalidade deles. A tecnologia nacional para essa manta resulta num produto cujo custo deverá equivaler a pouco menos de um terço do similar importado. Mais: esse custo é igual ao dos desconfortáveis equipamentos convencionais de fototerapia hoje usados para livrar bebês do excesso de bilirrubina no sangue (a causa da icterícia). Maior conhecimento nos usos da fibra óptica, mais eficiência e conforto no tratamento de um problema que atinge parcela importante dos recém-nascidos, ganhos econômicos são alguns resultados de um projeto no qual o investimento total da FAPESP, ao final, terá sido deR$ 250 mil.

Pesquisa de alta relevância e exposição da espécie de continuum que vai se formando entre pesquisa básica, pesquisa aplicada e tecnologia é o que aparece no encarte especial do Notícias FAPESP deste mês. Trata-se do segundo encarte baseado em entrevistas que foram feitas para a série de documentários “Genoma: em busca dos sonhos da ciência”, produzida pela TV Cultura e programada para exibição de 16 a 20 de agosto, às 21 horas, na Cultura e nas tevês educativas de mais 15 Estados brasileiros. O objeto da série é o Programa Genoma da FAPESP, partindo de seu projeto pioneiro, o de seqüenciamento da Xyllela fastidiosa – e honra de maneira especial esta fundação que uma de suas mais importantes iniciativas, em toda sua história, tenha se tornado tema de um documentário nos moldes do melhor jornalismo científico feito internacionalmente.

O genoma está tratado também no corpo do Notícias FAPESP, em matéria que apresenta os primeiros resultados estimulantes do Projeto Genoma Humano do Câncer. Apenas quatro meses depois de iniciado, o projeto já gerou 4.506 seqüências e, o que é mais animador, dessas, 818 são inéditas, ou seja, nunca antes haviam sido identificadas por qualquer projeto científico internacional dedicado ao seqüenciamento do genoma humano.

Em vários outros campos há matérias interessantes – e sempre relevantes – para ler nesta edição do Notícias FAPESP. Por exemplo, vamos à astronomia para contar sobre um radiotelescópio concebido no Brasil e desenvolvido em parceria internacional, que opera no comprimento de onda do infravermelho distante, onde a atividade solar ainda é praticamente desconhecida. Passando a área muito diversa, nas ciências humanas, informamos detalhadamente sobre o primeiro dicionário brasileiro da língua de sinais (para deficientes auditivos) desenvolvido no Instituto de Psicologia da USP. Contamos também sobre uma pesquisa que tenta identificar como as mudanças de pronúncia no português influenciam a longo prazo as mudanças na sintaxe. E, para fechar como abrimos, com um projeto ligado à inovação tecnológica, só que no esquema de parceria empresa-instituição de pesquisa, no caso entre uma indústria farmacêutica e um pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, contamos sobre um novo antiinflamatório, que está em fase de patenteamento.

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