PROGRAMA DE APOIO À PESQUISA EM PARCERIA PARA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA (PITE)

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Agulha em palheiro

Engenheiros da USP desenvolvem sistema para localizar objetos no meio de grandes concentrações

ED. 46 | SETEMBRO 1999

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No enorme pátio do terminal de cargas, centenas de contêineres se alinham sobre o concreto. De repente, surge a necessidade de embarcar rapidamente um deles, num navio que vai deixar daqui a pouco o porto. Na concessionária de automóveis, o cliente apressado pede um veículo com exatamente um jogo de acessórios. Sabe-se que há um automóvel assim em estoque, mas onde exatamente ele está? Mesmo na era da informática, localizar um objeto específico entre dezenas ou centenas de outros semelhantes continua a ser um problema, que consome muito tempo em depósitos e terminais.

A solução está sendo preparada no Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI), da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). “Nosso objetivo é localizar coisas”, diz o professor Wilhelmus Adrianus Maria Van Noije, chefe do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Poli. Usando um sistema semelhante ao pager público, explorado por empresas de telecomunicações para encontrar pes-soas, o grupo de Van Noije está preparando um dispositivo que, emitido um sinal, fará com que o objeto procurado responda com um som ou uma luz, facilitando sua localização.

Van Noije é o coordenador do projeto Sistema de Localização Visual e/ou Sonora dos Objetos Fixos ou em Movimento , que se realiza no âmbito do Programa de Parceria para Inovação Tecnológica da FAPESP. O projeto une o Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Poli e a empresa , de propriedade do professor Sílvio Ernesto Barbin, do Departamento de Engenharia e Telecomunicações e Controle, também da Poli. A Microline, fundada há 16 anos, que fabrica equipamentos para sistemas de telecomunicações, como antenas, filtros, amplificadores de potência e combinadores para sistemas irradiantes, entrou com R$ 38.500 para o projeto. A FAPESP contribuiu com outros R$ 60.900.

Sinal de rádio
O projeto está na fase final. O pessoal do laboratório da USP em conjunto com o da Microline está finalizando o desenvolvimento do software, do transmissor de sinais de rádio e do receptor, além de proceder a integração sistêmica dessas partes. O sistema trabalha com uma base de dados, acumulada em um computador, que recebe as características de cada objeto e aciona o envio de um sinal de rádio até o objeto, quando se quer localizá-lo, fazendo emitir um sinal sonoro ou luminoso.

Quando um objeto entra no pátio, é registrado no banco de dados. Para um contêiner, podem ser usados na diferenciação, por exemplo, a empresa proprietária e a origem; para um automóvel, seus acessórios. Para localizar o objeto, basta procurá-lo na lista do computador e enviar uma mensagem. O software codifica essa mensagem e envia, por um transmissor, o sinal de rádio que ativa o dispositivo de aviso. O transmissor possui uma antena pequena, instalável com facilidade.

“O dispositivo colocado no objeto também pode ter um display, semelhante ao dospagers pessoais, no qual poderá aparecer uma mensagem, como leve este veículo para a plataforma tal”, explica o engenheiro eletricista e aluno de pós-graduação Gustavo Adolfo Cerezo, que está fazendo sua dissertação de mestrado sobre o sistema. O display abre caminho para outros tipos de uso, como, por exemplo, em hospitais. Uma mensagem enviada pelo sistema pode avisar rapidamente operadores e enfermeiros sobre a necessidade do envio de um equipamento para outra ala ou outro andar.

Pátio de carga
O professor Van Noije cita outras utilidades, como em controle ambiental. O aparelho pode ligar e desligar, a distância, sistemas de iluminação e de ar-condicionado. Na agricultura, pode acionar sistemas de irrigação. Numa indústria, tem potencialmente importantes funções num pátio de carga e descarga. O motorista de um caminhão, ao entrar no pátio, poderá receber um equipamento desenvolvido pelo grupo, através do qual será informado pelo sistema quando chegar sua vez de carregar ou descarregar e como chegar ao local adequado. Atualmente, esse trabalho é feito por alto-falantes ou por meio de um funcionário que procura, a pé, o veículo indicado.

A utilidade do sistema torna-se, assim, clara, especialmente num momento em que novos processos industriais exigem cumprimento estrito de horários e a máxima rapidez na carga e na descarga. O alcance do sistema pode chegar até 10 quilômetros, se as condições de relevo forem favoráveis e a antena apropriada for instalada num ponto bem alto, no topo do prédio ou na maior elevação da área. Esse alcance não pode ser aumentado demasiadamente, pois depende também da potência do sistema que é limitada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). “Estamos usando os mesmos protocolos, de domínio público, de um pager comercial “, diz o professor Barbin. “O nosso sistema opera na faixa de 450 megahertz na banda de freqüência ultra-alta (UHF).” Por meio dos protocolos as informações são codificadas para serem transmitidas via rádio.

Futuro com GPS
Os criadores do sistema já pensam no futuro. Atualmente, o sistema básico é unidirecional, isso é, transmite apenas num sentido, mas nada impede que seja instalado um transmissor específico, no próprio objeto, permitindo, assim, que se torne bidirecional, transmitindo e recebendo. Outra aplicação futura pode ser o acompanhamento de veículos de transporte e a localização de veículos roubados. “Isso seria possível com a integração de equipamentos para a captação de sinais do sistema GPS”, diz o professor Van Noije. O sistema GPS é uma rede de satélites que permite a localização de um objeto, parado ou em movimento, por meio da latitude e longitude.

O projeto, iniciado no final de 1997, já está na fase dos últimos ajustes e testes dos protótipos. “Estamos tentando fazer o equipamento mais barato possível”, diz o professor Barbin. O próximo passo é a comercialização. Provavelmente, isso será feito por uma empresa que se disponha a fabricar o produto. “A Microline poderia produzir em larga escala necessitando, entretanto, de algumas adaptações em sua estrutura”, admite Barbin. “Entretanto, qualquer empresa poderia fabricar o produto desde que sejam protegidos os direitos de propriedade da USP e da Microline”, declara Van Noije.

Depois que o projeto terminar, os responsáveis pretendem visitar empresas com potencial para comercializar o produto. Segundo os participantes do projeto, provavelmente não haverá dificuldades para a comercialização. Para transformá-lo em realidade, eles superaram vários obstáculos como, por exemplo, a obtenção de um circuito integrado específico. Ele só existe no mercado para venda em grandes lotes. Os participantes conseguiram o circuito da Philips holandesa – que achou melhor doar, do que vender, o produto.

Perfis:
O professor Wilhelmus Adrianus Maria Van Noije é titular da área de circuitos integrados e chefe do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Também é vice-coordenador geral do Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) da Escola Politécnica. Formado pela USP, fez doutorado na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.O professor Sílvio Ernesto Barbin é doutorando do Departamento de Engenharia de Telecomunicações e Controle da Escola Politécnica da USP. Trabalhou no Brasil e no exterior como gerente de desenvolvimento da Telefunken, hoje Bosch Telecom.

Projeto
Sistema de Localização Visual e/ou Sonora dos Objetos Fixos ou em Movimento (nº 96/11983-8); Modalidade Programa de Parceria para Inovação Tecnológica da FAPESP; Coordenador Wilhelmus Adrianus Maria Van Noije; Investimentos R$ 60.900 da FAPESP e R$ 38.500 da Microline.

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