PESQUISA INOVATIVA EM PEQUENAS EMPRESAS (PIPE)

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Doce filtro da garapa

Technopulp desenvolve equipamento para a indústria canavieira

ED. 49 | DEZEMBRO 1999

 

imagem_04O consumidor que conhece o açúcar apenas pela sua forma final, branco e refinado, não imagina as diferentes e complexas fases para a obtenção desse adoçante. Antes de se tornar tão alvo ao ponto de ser sinônimo de brancura, o açúcar é um caldo escuro que exige um sofisticado processo de purificação em várias etapas.

Essa complexidade de depuração aliada à competitividade atual da indústria canavieira, no Brasil e no exterior, estão exigindo uma mudança de perfil tecnológico em busca de inovação, eficiência e produtividade. Um desafio que está sendo enfrentado por uma pequena empresa de engenharia de equipamentos, a Technopulp Consultoria e Comércio de Equipamentos Industriais. Composta por 13 funcionários e situada em Ribeirão Preto, um dos maiores centros produtores de açúcar e álcool do país, a empresa desenvolveu um filtro com alto poder de retenção de impurezas e baixo teor de perda de sacarose, capaz de substituir com vantagens o sistema convencional, chamado rotativo, utilizado há quase um século pela indústria canavieira.

Na solução oferecida pela Technopulp, a capacidade de retenção de sólidos em suspensão do líquido extraído da cana-de-açúcar sobe de 52 a 62%, no sistema tradicional, para 92 a 94%. O aperfeiçoamento desse novo sistema, chamado de Vacuum Press (VP) ou Filtro Contínuo de Dupla Tela, recebeu o apoio da FAPESP, a partir de 1997, por meio do programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE). A Fundação disponibilizou R$ 248 mil para o desenvolvimento do novo equipamento com a instalação de um laboratório e planta piloto, enquanto a empresa investiu R$ 104 mil.

A equipe da Technopulp está segura dos avanços que a nova tecnologia vai possibilitar ao setor açucareiro. “É o filtro do futuro”, comemora Pedro Gustavo Córdoba, engenheiro químico, diretor e fundador da empresa, que foi criada em 1978, inicialmente voltada para o segmento de papel e celulose. Atuando no desenvolvimento e fabricação de equipamentos, a Technopulp percebeu o nicho de mercado representado pelas usinas de açúcar. Desenvolveu o filtro VP e partiu para instalar o primeiro protótipo, ainda em 1995, na destilaria Virálcool, na cidade de Viradouro, SP, onde se perceberam as boas perspectivas técnicas e comerciais do produto.

O processo
Pelo novo conceito do Vacuum Press , a filtração da garapa se dá por meio de um sistema gradual, que consiste na drenagem por gravidade seguida da separação do líquido por pressão física e baixo vácuo – com pressão atmosférica menor que o ambiente, facilitando a sucção de matéria orgânica indesejada. O VP utiliza telas de poliéster com elevado poder de retenção. Ele recebe o lodo do decantador, onde é separada parte das sujeiras da cana, como terra e palha, do restante das impurezas que contêm sacarose. O novo filtro também pode ser usado como auxiliar dos rotativos, efetuando a filtragem sem implicar a parada da máquina para limpeza, como acontece no processo antigo.

A operação do VP é efetuada por meio de um sistema intermitente que lava o lodo com água quente, prensa e seca a torta resultante, obtendo um caldo mais limpo, que será utilizado na indústria açucareira. “Isso diminui as perdas de açúcares”, afirma Pedro Córdoba Júnior, engenheiro químico e filho do proprietário da empresa, que atua como coordenador do projeto.A primeira unidade piloto do VP aperfeiçoado começou a funcionar na Usina da Pedra, no município de Serrana, SP, no primeiro semestre de 1998. “Essa fase serviu para consolidar as nossas hipóteses técnicas em relação às melhorias tecnológicas pretendidas, além de servir para ensaios e medições visando à escala industrial”, afirma Pedro Córdoba.

A segunda fase, em andamento, consiste no funcionamento do protótipo industrial na Usina Diamante, no município de Jaú, no Estado de São Paulo. A máquina foi montada no final da safra, em novembro, e está pronta para os testes definitivos, em maio, no início da próxima. “O novo equipamento deve superar com ampla margem de vantagem as demais opções, inclusive o equivalente de origem americana, mais caro e defasado em tecnologia”, diz Pedro Córdoba. Ele lembra ainda que o mercado internacional está ávido por produtos de qualidade.

Mais barato
O plano da empresa é ativar o protótipo na próxima safra e concluir o relatório científico em setembro do ano 2000, o que permitirá à empresa ingressar na terceira fase do projeto – a produção em série do equipamento para os mercados interno e externo. Somente na fabricação de açúcar, a Technopulp estima a existência de 400 filtros rotativos em funcionamento, dos quais 5% são substituídos a cada ano, por se tornarem obsoletos. A empresa calcula que terá condições de atender a, pelo menos, metade dessa demanda, equivalente a 10 filtros por ano, ao preço de R$ 160 mil a unidade na versão maior, que atende a 7 mil toneladas de cana por dia.

O valor do novo filtro é altamente competitivo em relação ao rotativo, estimado em R$ 370 mil. O Vacuum Press também leva vantagem na economia de ocupação da área útil na usina, menor em até cinco vezes, além de pesar 8 toneladas contra 40 do antigo. O consumo de energia elétrica com o novo produto é outro item vantajoso, cai entre 5% e 8%.

Pedro Córdoba destaca os benefícios sociais do projeto, já que os principais componentes do filtro, tais como rolos, caixas de sucção e todas as peças e os serviços de usinagem e calderaria, são encomendados a um grupo de quase uma dezena de micro e pequenas empresas da cidade, por meio de terceirização.

Essa estratégia certamente vai reforçar e ampliar o modelo de economia baseada nesse tipo de empreendimento. Outras utilizações do filtro VP também devem colaborar para esse cenário. Segundo Pedro Córdoba, a indústria de sucos, especialmente a de laranja, tem interesse na utilização desse produto. Bom para a Technopulp, bom para a agroindústria.

Impurezas do xarope

A Technopulp também investe num novo método de filtração do xarope, que é o caldo açucarado concentrado, uma fase posterior à garapa que sai do Vacuum Press. “O objetivo é eliminar impurezas insolúveis existentes na fase de concentração do caldo que depreciam, de forma considerável, o valor final do nosso açúcar no mercado externo”, afirma Pedro Córdoba. O açúcar de merara, produto que precede a fase de refinação, produzido nas usinas brasileiras é vendido no mercado internacional por US$ 160 a US$ 180 a tonelada, mas acaba sendo purificado no exterior, onde ganha valor agregado de cerca de US$ 200.

Também baseado nos conceitos do VP, a Technopulp estuda um sistema de tratamento das impurezas da garapa que sai das moendas e é destinada à produção de álcool. É o tratamento de caldo misto a frio, com um filtro que terá utilidade na eliminação das etapas de pré-aquecimento e decantação, as quais são supridas por um processo de filtração direta com membranas de alta porosidade. “Com isso, a indústria economizaria o vapor do aquecimento e o resfriamento do líquido, hoje etapas muito caras”, afirma Pedro Córdoba. O novo sistema é muito bem-vindo neste momento em que as metas desse setor industrial são de ampliar a produção do álcool nos próximos anos.

Perfis
Pedro Gustavo Córdoba, engenheiro químico formado na Escola Superior Técnica de Santiago Del Estero, Argentina.
Pedro Gustavo Córdoba Júnior, engenheiro químico formado pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp).

O Projeto
Aperfeiçoamento do Filtro Vacuum Press para a Indústria de Açúcar e Álcool (nº 97/07452-0); Modalidade Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas – PIPE; Coordenador Pedro Gustavo Córdoba Júnior; Investimento R$ 248 mil da FAPESP e R$ 104 mil da Technopulp.


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