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ARTES PLÁSTICAS

Trocando influências

Pesquisa dá perfil da arte dos anos 90 e suas ascendências

Há sete anos, a professora e curadora da USP Kátia Canton entendeu que, para construir um perfil da arte dos anos 90, era necessário promover um levantamento entre os jovens artistas que começavam suas carreiras, ou mesmo os que ainda freqüentavam faculdades, sobre suas principais influências. A pesquisa, que contou com o apoio da FAPESP e do Museu de Arte Contemporânea da USP, o MAC, surpreendeu sua idealizadora. Praticamente todos os entrevistados não fizeram referência alguma a monstros consagrados da história da arte moderna ou da antiga e menos ainda à cena internacional. Quase em unanimidade, os então futuros artistas desta década, segundo seus próprios depoimentos, espelhavam-se na geração em atividade naquele momento.

Kátia percebeu então, que, para compreender a novíssima arte da década que mal começava, era necessário, antes de mais nada, estabelecer paralelos com a própria arte contemporânea, de preferência com a imediatamente anterior e vigente, no caso a dos anos 80. Como atuava na divisão de curadoria do MAC, Kátia abriu sua agenda de telefone e acirrou a pesquisa. Ela passou a visitar pessoalmente ateliês de artistas em atividade em diferentes cidades brasileiras com a pergunta: quem é seu mestre?

A curadora levantou, na época, 56 nomes (que hoje já somam 70), quase todos eles de artistas contemporâneos em atividade no País, como Regina Silveira, Tunga ou Waltércio Caldas, realizando mostras conhecidas como “Heranças Contemporâneas”. A exposição hoje é festejada pela crítica de arte.No ano passado, por exemplo, a mostra trazia uma série do que se pode classificar como uma influência dupla.

Tunga, eleito mestre por Renata Pedrosa, apresentou uma de suas esculturas orgânicas da série “Lips” e escolheu também sua própria influência, Lygia Clark. Representada por uma de suas esculturas geométricas, a que chamou de “Bichos”, Lygia funcionava então como uma espécie de avó de Renata, que trazia sua própria leitura do corpo em desenhos confecionados com mercúrio. “São esses diálogos entre gerações que cumprem o papel de contar a história da arte contemporânea”, conclui a pesquisadora.

A trama inventariada por Kátia, as obras realizadas ou escolhidas para as exposições e as análises críticas sobre a origem do que hoje se chama de a geração 90 estão agora reunidas em livro, Novíssima Arte Brasileira, também realizado com o apoio da FAPESP, a sair no segundo semestre pela Iluminuras. Trata-se do primeiro registro geral da mais recente produção contemporânea, legitimado pelo fato de ter sido resultado de uma comparação objetiva entre trabalhos – comparação realizada, em primeiro lugar, por seus próprios autores e, em seguida, constatada pela curadoria e pelo público que visitou as três edições da mostra realizada no MAC. Ou seja, Novíssima Arte Brasileira não apresenta um grupo de emergentes eleito pelo olhar de um crítico, mas sim uma leitura comparativa do que mudou e o que permaneceu nos últimos dez anos no cenário artístico nacional.

O leitor poderá conhecer, de forma sistematizada, o que se viu no MAC: artistas, que hoje têm os nomes registrados em catálogos de museus e galerias importantes, criando em função do trabalho de seus mestres. Assim, Mônica Rubinho, Fábio Bittencourt e Cristina Rogozinski estão representados no livro pelas obras que criaram para a primeira edição de “Heranças Contemporâneas”, realizada em abril de 1997. São trabalhos que apresentam, por exemplo, referência à fragilidade emocional ou física e à experimentação com materiais que esses discípulos herdaram, respectivamente, de Leonilson e Leda Catunda, que, ao lado de Nelson Leirner, compunham a trinca de mestres daquele ano.

“A comparação com a fonte, ainda mais se tratando de referências tão próximas, foi a maneira mais concreta para traçar um perfil de um movimento que o tempo ainda não teve tempo de decantar”, observa Kátia. Daí, percebe-se que o livro é uma obra que já nasce para ser revisada e ampliada. “Até porque, como as próprias edições de ‘Heranças Contemporâneas’ demostraram, a chegada de novos nomes e a transformação do cenário nunca foi tão veloz como nos anos 90.”

Depoimentos dos artistas que participaram da pesquisa ganharam um capítulo à parte. Nele, os jovens criadores, apresentados por uma breve biografia, mostram seus conceitos de arte e falam sobre seus mestres e influências. Cada um desses tem a obra escolhida para a mostra “Heranças Contemporâneas” reproduzida e identificada.

Para não entrar diretemente nos conceitos mutáveis que permeiam a produção desta década, a curadora optou por uma introdução histórica com um breve resumo da passagem dos modernos para os dias de hoje – linha do tempo a que pertencem mestres e discípulos registrados pelo livro. A partir daí, ela distribuiu as tendências detectadas entre os trabalhos em capítulos, nos quais incluiu os artistas que compartilham essas características. São aspectos ou questões comuns a muitos dos participantes da amostragem, como a noção de memória, presente no trabalho de Mônica Rubinho e Renata Pedrosa, por exemplo, ou a chamada domesticidade na arte, caso da produção de Cristina Rogozinski, e mais uma vez de Mônica e de Renata, já que as tendências organizadas pela autora são constantes na obra de artistas diferentes.

Esse momento do texto, entretanto, corre o risco de se tornar datado em pouco tempo, pelo fato de que muitas questões trazidas pela autora podem perfeitamente ser abandonadas ou ganharem outros aspectos no trabalho dos artistas a quem elas são atribuídas. “O que não tira o caráter do registro de um momento na trajetória desses artistas; um momento que corresponde ao percurso da década de 90′, argumenta a curadora. Kátia define a mostra que empresta as ilustrações para o livro como um work in progress, novo nome para obra aberta que se tornou uma verdadeira síndrome na arte dos anos 90. Assim também pode ser definida esta primeira publicação do projeto, que tende, como a arte contemporânea, a sofrer constantemente revisões.

PERFIL
Kátia Canton
é graduada em jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado em crítica da arte na Universidade de Nova York. É professora e diretora técnica de divisão do Museu de Arte Contemporânea da USP.
Projeto
Tendências Contemporâneas: Discussão sobre a Produção Artística da Geração 90
Investimento
R$ 10 mil

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