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Carta do editor | 55

Boa ciência, boa tecnologia e boa divulgação

A publicação na Nature do artigo sobre o genoma da Xylella fastidiosa representa um marco na história da ciência no Brasil. A equipe de quase 200 pesquisadores realizou um trabalho de primeira qualidade e colocou a ciência no Brasil nas manchetes internacionais. O NY Times destacou a entrada de “um surpreendente novo ator num campo dominado pelas nações desenvolvidas” e a Nature elogiou a “determinação do Brasil de entrar na era pós-genoma de igual para igual com os cientistas dos países mais ricos”. O The Economist afirma que agora o Brasil passa a ser conhecido por “Samba, football and… genomics”. Poucas vezes boas notícias sobre o Brasil foram motivo de tanto destaque internacional. Ao lado de contribuir para a recuperação da auto-estima dos cientistas brasileiros, a realização demonstra o acerto da política de pós-graduação no país, voltada à formação de quadros científicos com qualidade determinada por referenciais internacionais. Sem isso, como seria possível juntar um time de mais de 200 para esse empreendimento? O papel da Fapesp foi decisivo ao vislumbrar o momento certo para criar uma nova maneira de se organizar a atividade científica no país. Igual importância tiveram as agências federais, apoiando a formação desses pesquisadores, ex-bolsistas da Capes e do CNPq, e as universidades públicas que abrigam a quase totalidade dos pesquisadores. O resultado destaca a importância do investimento estatal continuado em ciência e tecnologia, do apoio à ciência fundamental e à formação de pessoal. Coisas que requerem décadas de esforço, no qual o papel do Estado é insubstituível.

Aliar ciência fundamental à sua aplicação tem sido um desafio constante para a Fapesp. A Fundação acaba de criar o programa Parceria para Inovação em Ciência e Tecnologia Aeroespaciais. Aproveitando a oportunidade da iminência da decisão da Embraer de instalar uma nova planta para produção e desenvolvimento de tecnologia e, ainda, o desejo da empresa de intensificar suas parcerias com universidades e institutos de pesquisa. O programa da Fapesp, dirigido a quaisquer empresas do setor aeroespacial, foi fator importante para a Embraer decidir instalar sua nova planta em Gavião Peixoto, São Paulo, estado que é o locus natural desse tipo de atividade no Brasil. Além do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do CTA, que deram origem à Embraer, há no estado o INPE, e as universidades paulistas têm atividades destacadas nesse campo. Em comum com o exemplo da Xylella , a Embraer é resultado de décadas de esforços cumulativos de formação de pessoal, sempre com referenciais de excelência internacionais e apoio do Estado. Parece que Francis Bacon tinha alguma razão ao destacar que “nenhuma ação do bom governo é mais valiosa do que o enriquecimento do mundo com conhecimento confiável e fértil”.

Quando se discutia a criação da Fapesp, em 1955, José Reis destacou em artigo na Revista Anhembi (V. XVIII, n. 50, p. 278 – citado em S. Motoyama, Fapesp –Uma História de Política Científica e Tecnológica) que seria “preciso que a Fundação faça ponto de honra da necessidade de apresentar relatórios sinceros ao público… E esses relatórios não deveriam ser amontoados de cifras ou nomes, mas exposições vivas dos planos e projetos desenvolvidos, para que se percebesse a existência de um verdadeiro espírito de amparo à ciência…”. Pois o grande José Reis estava descrevendo quase que exatamente a revista Pesquisa Fapesp, que faz exatamente aquilo que o mestre recomendou: divulgar as ações da Fundação para o público, de maneira clara e acessível. Por isso foi maior ainda a nossa alegria ao vermos a Pesquisa Fapesp ser premiada exatamente com o Prêmio José Reis de Divulgação Científica, outorgado pelo CNPq. Está de parabéns a equipe responsável pela Pesquisa Fapesp mais do que tudo por ter construído nestes cinco anos uma revista ágil e de alta visibilidade, que destaca de maneira “viva os planos e projetos apoiados pela Fundação”.

 

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