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José Carlos Cavalcanti

Projeção internacional, expansão nacional

Novo modo de produção de conhecimento se estabeleceu no país

Na semana entre os dias 9 a 15 de julho de 2000 a Revista Nature , uma das mais conceituadas publicações científicas do mundo, publicou (com capa e tudo) um artigo sobre as descobertas do grupo de cientistas paulistas que seqüenciou completamente o genoma da bactéria Xylella fastidiosa . Trata-se de um grande acontecimento para a comunidade científica do Estado de São Paulo, e, por extensão, para o próprio país.

Muito já se escreveu recentemente sobre este feito, o que é bastante compreensível. Num país que se acostumou a observar o sucesso da ciência e tecnologia (CeT) dos países desenvolvidos, observar que também é possível ter sucesso com a CeT nacional é motivo para orgulho e muitas celebrações.O que gostaríamos de dar destaque não é o feito em si, mas sim o que acreditamos tenham sido os seus determinantes e seus impactos. Em primeiro lugar, salientar as “condições gerais da produção” deste feito, o que aqui denominaremos de “um novo modo de produção de conhecimento novo “. Neste sentido, o fator que consideramos mais marcante foi a existência de um estoque de capital humano altamente qualificado na área das ciências biológicas no território do Estado de São Paulo.

A partir da introdução de uma inovação gerencial proposta pela FAPESP, como foi a da estrutura de trabalho em rede de laboratórios (a Rede Onsa), esse estoque de capital humano foi estimulado a viabilizar – numa escala e escopo sem precedentes na história da pesquisa nacional – um fluxo massivo de novas informações acerca do material que estava sendo pesquisado. Esse fluxo proporcionou, por meio da bioinformática, a acumulação de uma nova forma de capital (bancos de dados) que, tendo sido transformado em conhecimento novo (o mapa genético do organismo estudado), possibilitou que seu genoma fosse alcançado. E o artigo publicado internacionalmente na Nature é apenas o primeiro dos produtos gerados por este novo modo de produzir conhecimentos.

A conclusão do primeiro genoma de fitopatógeno no mundo pelos cientistas paulistas não apenas coloca o Brasil na fronteira da Genômica internacional (os outros genomas que estão sendo feitos com financiamento da FAPESP garantirão esta posição), mas traz consigo a constatação de que um novo paradigma de produção de conhecimento foi estabelecido no país. E foi exatamente isto que atraiu a atenção da comunidade científica de Pernambuco.

Quando a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe) formalizou, pioneiramente, seu convênio com a FAPESP para a participar da Rede Onsa no Genoma da Cana-de-Açúcar, havia tanto o interesse em dominar a tecnologia de seqüenciamento genético automático, quanto em dominar este novo modo de produção de conhecimento novo (fundamentalmente pelo fato de a Genômica ser uma ciência nova, interdisciplinar e portadora de futuro). Outros estados da federação também já perceberam este novo dado da realidade da pesquisa biológica nacional e estão expandindo esta rede, como é o caso de Alagoas e do Rio de Janeiro.

A grande lição que se pode tirar de um feito como este é a de que o país está se encontrando consigo mesmo. Está percebendo que tem chances, tem potencial, tem recursos humanos, tem tecnologia, e tem muita riqueza a ser explorada. Com o devido equilíbrio, com o foco adequado, com ciência de excelência internacional e tecnologia de relevância nacional, o Brasil pode ainda ir mais longe.

José Carlos Cavalcanti é professor do Departamento de Economia da UFPE e presidente da Facepe

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