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CEPID

Fármacos a partir do veneno de serpentes

Centro de Toxinologia Aplicada investigará a utilização farmacêutica da toxina de animais

A utilização de toxinas animais e de microrganismos na elaboração de drogas de uso farmacêutica será o foco das pesquisas do Centro de Toxinologia Aplicada. “Certamente nas toxinas encontraremos moléculas que servirão de padrão para o desenvolvimento de novos fármacos”, prevê Antonio Carlos Martins de Camargo, diretor. O Centro está vinculado ao Instituto Butantan, cuja tradição de pesquisa remonta ao princípio do século. Carmargo lembra que, até recentemente, o Instituto se dedicava à pesquisa de bancada, sem investir na aplicação desse conhecimento. Mas o Butantan se modernizou, integrando aos seus quadros jovens doutores, formando uma equipe multidisciplinar que contribuiu para que se avançasse na direção da utilização prática desse conhecimento.

Os trabalhos de pesquisa serão feitos em parceria com a Universidade de São Paulo, com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), antiga Escola Paulista de Medicina. O uso de toxinas naturais na fabricação de novas drogas é uma tendência internacional que pode ser observada no alto número de aplicações de veneno de vários organismos, como cobras, escorpiões e aranhas, registradas no Escritório de Marcas e Patentes dos Estados Unidos (US Patent e Trademark Office – USPTO).

Os pesquisadores do Centro já iniciaram, em parceria com pesquisadores da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, e com o Health Science Center, da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, estudos de uma toxina da serpente brasileira que previne a adesão celular e tem grande potencial de utilização no tratamento de metástase.

O estudo das toxinas abre várias frentes de pesquisa. Além de impedir o crescimento de tumores, o veneno das serpentes brasileiras é um coquetel de proteínas que desorganiza o sistema vascular e tem enorme aplicação farmacêutica em distúrbios cardiocirculatórios. O veneno de outros insetos, como a aranha, por exemplo, produz toxinas que podem ser utilizadas no tratamento de processos inflamatórios. O estudo das toxinas permitirá também desvendar mecanismos fisiopatólogicos ainda desconhecidos. “No veneno da serpente foi identificada uma toxina que tem alta homologia com hormônios que atuam no equilíbrio iônico renal, secreção de hormônios, etc.”, exemplifica Camargo.

Para realizar a transição entre a pesquisa e sua aplicação comercial, o Centro pretende criar um programa de parceria com indústrias, que permitirá o acesso dos interessados aos projetos de pesquisa desenvolvidos pelos grupos das três universidades. Se houver interesse mútuo em determinada pesquisa, um acordo será estabelecido para o desenvolvimento de nova droga. “Não há dúvida de que a indústria e outras organizações terão grande interesse no trabalho deste Centro interinstitucional”, comentou um dos avaliadores responsáveis pela classificação da proposta.

O Instituto Butantan já desenvolve programas que atendem ao interesse da comunidade em relação a animais e microrganismos venenosos, além de desenvolver cursos sobre veneno animal e primeiros socorros para as Forças Armadas, polícia e empresas privadas. Com o apoio da FAPESP, o Centro pretende ampliar essas atividades, de forma a incluir cursos sobre prevenção de doenças transmitidas por microrganismos e sobre a conservação da biodiversidade. O Centro iniciará também cursos sobre biotecnologia médica e de qualificação de profissionais para o desenvolvimento de novos fármacos e processos de biotecnologia.

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