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Carta do editor | 64

Das estrelas à terra firme

Há temas científicos que são particularmente fascinantes, excitantes mesmo, para os leigos, pela extraordinária abertura que proporciona à imaginação ou à livre especulação. Pela própria aventura de pensamento que abarcam, parecem propor a cada um que, por alguns minutos, faça-se um pouco cientista, um pouco filósofo e um pouco artista, tudo ao mesmo tempo, para assim exercer pessoalmente uma das mais lúdicas e prazerosas potencialidades humanas: explorar sua capacidade imaginativa e de pensamento até o limite.

É um desses temas que a reportagem de capa desta edição de Pesquisa FAPESP traz à cena ao relatar as mais recentes contribuições de um grupo de físicos da Universidade de São Paulo – em colaboração com especialistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – para a compreensão do funcionamento das partículas elementares da matéria. Partindo dos resultados experimentais de pesquisadores alemães, com o quais mais adiante estabeleceriam uma fecunda cooperação, eles construíram uma teoria capaz de abranger os vários tipos de movimentos do núcleo atômico, que se apresentam na dependência da carga de energia a que são submetidos. Que o núcleo se move, contrariamente ao que estabelecera o modelo do átomo, de 1920, se sabia há pelo menos cinco décadas. Mas um modelo que dá conta tanto das oscilações coletivas das partículas nucleares quanto dos movimentos caóticos que se instalam a seguir é façanha novíssima. E, como se poderá constatar na reportagem, trata-se de feito teórico que acena até mesmo com uma melhor compreensão sobre a evolução das estrelas. Daí seu fascínio radical – afinal, a cada explosão solar ou de qualquer estrela formam-se os átomos de que somos feitos e, dessa forma, nossa origem mais remota é que aparece implicada na evolução do conhecimento a respeito do núcleo dos átomos.

Das estrelas pode-se saltar para o terreno mais firme da inovação tecnológica. A cobertura do 3º – Venture Forum, realizado em São Paulo nos dias 18 e 19 de abril, serviu de pretexto a uma extensa reportagem que mostra como projetos de inovação tecnológica, desenvolvidos por pequenas empresas brasileiras e muito bem-sucedidos nas etapas de pesquisa, já começam a atrair o capital de risco, nacional ou internacional. Capital, diga-se, indispensável na atual conjuntura econômica para que os novos produtos que tais projetos geraram entrem no circuito normal do mercado, criem lucros e empregos. É exatamente por compreender essa necessidade e, ao mesmo tempo, pela convicção de que a pesquisa para inovação tecnológica, elaborada de forma preponderante no ambiente da empresa, é crucial para o desenvolvimento socioeconômico do país, que a FAPESP, como outras agências de fomento, tem procurado aproximar os empreendedores que apoia, via programas como o PIPE, de investidoresde risco.

Esta edição de Pesquisa FAPESP traz também o segundo de uma série de suplementos especiais que mostram resultados do Programa de Recuperação e Modernização da Infra-Estrutura de Pesquisa do Estado de São Paulo, chamado simplesmente de Infra. O esforço empreendido desde 1995 pela Fundação para ajudar São Paulo a dispor de instalações de pesquisa adequadas a um grande centro de produção científica e tecnológica foi gigantesco – mas seus resultados são brilhantes e têm impacto sobre a qualidade da pesquisa que aqui se faz.

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