PESQUISA INOVATIVA EM PEQUENAS EMPRESAS (PIPE)

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Mostra de boas idéias

As novidades e as pretensões das empresas

MARCOS DE OLIVEIRA e JOÃO PAULO NUCCI | ED. 64 | MAIO 2001

 

Nervosismo e tremedeira. Essas foram duas das sensações mais comentadas ao final do dia de apresentação das empresas para os investidores no Venture Forum. Mesmo com dois meses de preparação, os sócios das 16 empresas emergentes de base tecnológica ficaram nervosos antes e durante a apresentação.

A maioria, mais acostumada com bancadas de laboratório, tinha consciência de que sua tarefa era seduzir, em 12 minutos a platéia onde estavam pessoas com cacife suficiente para concretizar seus sonhos em forma de produtos ou sistemas, resultantes, muitas vezes, de anos de estudo e de trabalho. Até porque, os empreendedores sabem que não podem contar com os empréstimos bancários atrelados a juros altos que inviabilizam seus empreendimentos.

Todos se saíram bem na apresentação. O recado foi conciso e direto sobre os itens que os investidores precisavam saber sobre a empresa. Uma apresentação que levou em conta os produtos, a perspectiva e o tamanho do mercado a ser atingido. Na pauta da exposição também constou o montante de capital necessário e as possibilidades que o investidor terá em auferir lucro no futuro, por meio da venda na participação acionária ou mesmo pela venda da empresa ou parte dela para uma outra empresa do setor, normalmente de maior porte. Uma situação que aparentemente é complicada mas, é bom lembrar, até um dos homens mais ricos do mundo, Bill Gates, precisou de um investidor de risco no início de seu império, a Microsoft.

Nenhum dos empreendedores reclamou do pouco tempo, ao contrário, muitos gastaram menos que os 12 minutos preestabelecidos. Todos se saíram bem na apresentação. “Só o fato de ter participado e de ter sido treinado para isso já foi positivo”, disse Jaime Francisco Leyton Ritter, bioquímico e fundador da Genosys, a empresa que abriu a série de exposições. Ela faz parte do grupo de seis empresas que recebem financiamento da FAPESP dentro do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE). Proqualit, Unisoma, Tecnolab, Qualibrás e Clorovale são as outras cinco.

Oportunidade de ouro
São empresas que receberam incentivo para realizar pesquisa de inovação tecnológica e desenvolvimento de produtos e sistemas dentro das empresas. Uma política adotada pela FAPESP desde 1995, quando do lançamento do PITE, que possui 52 projetos aprovados, e continuou com o PIPE, em 1997. Hoje, o PIPE engloba 147 projetos que estão na primeira fase, quando são elaborados os estudos sobre a viabilidade técnica, e 61 na fase dois, para desenvolvimento da pesquisa e produção de um protótipo. Na fase três, que é propriamente a de produção e comercialização, a FAPESP não participa.

“A função da FAPESP não é financiar a produção, mas sim financiar a pesquisa dentro das empresas e conquistar novos ambientes que propiciem o desenvolvimento tecnológico. Embora não seja a nossa função, também estamos preocupados em ajudar na continuidade dessas empresas, aproximando-as dos investidores e proporcionando meios para que elas se profissionalizem mais e cresçam”, explicou o professor José Fernando Perez, diretor científico da FAPESP, durante sua apresentação no Venture Forum, quando aproveitou para anunciar novas metas para o PIPE. “Queremos financiar cerca de 100 empresas por ano e ampliar o espaço para profissionais que saem da universidade em busca de emprego, integrando-os como coordenadores de projetos.”

Empresa exemplar
O sonho comum a todas as empresas que estavam no evento no Maksoud Plaza se solidifica no exemplo da Nano Endoluminal, uma companhia catarinense que desenvolve e fabrica produtos médicos como próteses auto-expandíveis e cateteres para cirurgias de aneurismas abdominais.A Nano participou do 1º Venture Forum realizado no ano passado no Rio de Janeiro. Ela recebeu o aporte financeiro de R$ 1 milhão da Companhia Riograndense de Participações (CRP), um dos mais tradicionais investidores de risco do país. O dinheiro vai servir para reforçar a atuação da empresa na área de pesquisa endovascular.

Além da Nano, outras três empresas, entre as 26 que participaram das duas edições anteriores do Venture Forum (no Rio de Janeiro e em Porto Alegre), já estão com contratos semelhantes quase prontos, segundo Luciane Gorgulho, superintendente da área de desenvolvimento institucional em capital de risco da Finep. “E outras 12 estão em estágios avançados de negociação.”

Os empresários participantes do 3º Venture Forum estão negociando com os investidores. Vale aqui mostrar um pouco dos produtos e da história das empresas, além da necessidade de investimento que elas apresentaram no evento.

Genosys
A empresa surgiu há dois anos para pesquisar a técnica de DNA recombinante utilizada em vários ramos da biologia molecular. O primeiro fruto da utilização dessa técnica pela empresa já está maduro: trata-se do hGH, o hormônio de crescimento humano que em forma de medicamento ainda não é produzido no Brasil. “Esse é o nosso diferencial. Conseguimos fazer o mesmo produto a um preço mais acessível”, diz Jaime Francisco Leyton Ritter, sócio da empresa.Nos Estados Unidos, o hGH movimenta US$ 280 milhões por ano. Após a apresentação, Ritter recebeu seis investidores, dois muito interessados. Agora, vem a fase do namoro. “Vamos conversar e ver qual a melhor proposta.” Já com um acordo de produção do hormônio firmado com o laboratório Braskap, de capital nacional, a Genosys espera levantar R$ 4,2 milhões para viabilizar o lançamento comercial do medicamento e desenvolver novas pesquisas em biotecnologia. Em dez anos, Leyton Ritter espera faturar R$ 37 milhões.

Proqualit
Fundada há dez anos em São José dos Campos, a empresa faturou R$ 5,5 milhões no ano passado ao fornecer equipamentos e prestar serviços para a indústria da televisão a cabo. Mas, para se firmar e se tornar grande, ela precisa de R$ 9,5 milhões para ampliar a produção e desenvolver novos produtos em uma linha que conta com 150 itens diferentes. No ano que vem, a Proqualit espera faturar quase R$ 10 milhões, segundo o diretor Sergio Pretti. No PIPE, a empresa tem um projeto para desenvolvimento de um amplificador de freqüências emitidas por satélite que funciona acoplado a antenas parabólicas de televisão por assinatura. A fabricação desse equipamento no país vai evitar a importação do produto. Durante o evento, Pretti e o outro sócio, Alexandre Trindade, receberam seis representantes de fundos de capital de risco.

Unisoma
A empresa elabora sistemas específicos para apoio a decisões na agroindústria (Sadia e Perdigão são alguns de seus clientes). Com 17 anos de vida, a empresa pretende levantar R$ 2 milhões dos investidores para finalizar projetos. O plano de negócios prevê um faturamento de R$ 30 milhões em cinco anos. A empresa tem como sócio o professor Miguel Taube Netto, do Instituto de Matemática da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e possui, no PIPE, um projeto de software para controle de abatedouros de frango (Pesquisa FAPESP n° 63).

Tecnolab
A empresa está incubada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), no prédio do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) na Cidade Universidade, em São Paulo. Segundo o sócio Isaac Newton Lima da Silva, o trunfo principal da Tecnolab é um visualizador de estruturas metálicas internas ao concreto. O produto, batizado de IRISCan, elimina um ritual básico da manutenção de estruturas desse tipo: a raspagem do concreto para a verificação do estado de conservação do metal. “Será uma revolução nos procedimentos do setor”, afirma o inventor Silva, que desenvolveu o IRISCan como base na sua tese de doutorado na Universidade de Manchester, na Inglaterra, em setembro de 1999. A empresa conta com mais dois outros produtos em fase de desenvolvimento. O Cover Meter, uma versão antiga do IRIScan, que não gera imagens, e o LPSD-1, aparelho que faz análise de vibrações mecânicas. Para chegar ao mercado, a empresa precisa de R$ 1,5 milhão. A perspectiva de Silva é faturar R$ 23 milhões em 2006. Horas após sua exposição no Venture Forum, ele já comemorava o assédio dos potenciais investidores. “Recebi a visita de cinco investidores e um ficou muito interessado.”

Fotorama
A empresa carioca desenvolveu tecnologia para a realização de fotografias digitais em 360 graus – inédita no Brasil, usadas, principalmente, em sites para visualizar um local turístico ou um quarto de hotel em detalhes. Os sócios Bernardo Estefan e Eduardo Bezerra esperam levantar R$ 1,6 milhão para ganhar mercado. Os dois são alunos dos cursos de economia e de informática, respectivamente, da graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).

Qualibrás
Instalada em Campinas, a empresa atua na área de serviços e soluções em telecomunicações e metrologia. O engenheiro Gilberto Possa e sua equipe prestam serviços no reparo de equipamentos e na calibração de aparelhos industriais. Eles também desenvolvem, dentro do PIPE, um equipamento que auxilia na produção e no reparo de placas eletrônicas de centrais telefônicas digitais. A empresa possui clientes de grande porte como Lucent, Motorola e Tess. Possa pretende, inicialmente, levantar R$ 4,8 milhões. “Em 11 anos, trabalhamos com recursos próprios e limitados. Chegou a hora de crescer”, diz.

Kunzel
Especializada em equipamentos odontológicos, a empresa apresentou seus projetos no setor de implantes dentários, cujo potencial no Brasil é enorme, segundo o diretor Aguinaldo Campos Júnior. “Apenas 0,2% da população brasileira adulta possui implantes, enquanto nos EUA esse número está entre 4% e 8%”, afirma. A empresa pretende produzir insumos com um preço menor que os importados. Para isso, precisa de R$1,5 milhão dos investidores.

Tornatti
A empresa produz softwares para sincronização de bancos de dados e para automação dos processos de qualidade ISO 9000 e ISO 14000. A Tornatti está associada ao núcleo de Campinas da Sociedade para a Promoção da Excelência de Software Brasileiro (Softex) e já possui a sua formação acionária, investimento da VentureLabs, uma empresa de participações em empreendimentos nascentes com base tecnológica.

Enter-Plus
Empresa catarinense fundada em 1992 desenvolve tecnologia para mapas digitalizados que podem ser acoplados a banco de dados. O Plano de Negócio apresentado prevê a necessidade de R$ 1,5 milhão para a empresa ampliar a atuação comercial. A Enter-Plus tem como clientes empresas como Telemar, NET e Furnas.

Electrocell
Incubada no Cietec de São Paulo, na Cidade Universitária, a empresa necessita, inicialmente, de US$ 2 milhões para concluir suas pesquisas na produção de células de combustível. O primeiro protótipo que produz 50 quilowatts (kW) de energia elétrica – próprio para prédios ou pequenas indústrias – está em fase de finalização. Esse equipamento utiliza gás natural (metano) ou hidrogênio para produzir energia elétrica. Estudiosos acreditam que o hidrogênio é o combustível do futuro (veja quadro abaixo). O engenheiro Gilberto Janólio, sócio na Electrocell, mostrou também aos investidores a necessidade de mais US$ 30 milhões, até 2004, para a criação de uma planta de produção de seus geradores. A Electrocell foi formada pelos sócios de duas outras empresas instaladas na incubadora. Janólio com a empresa DCSystem, e o também engenheiro Gerhard Ett, da Anod-Arc. As duas empresas têm projetos dentro do PIPE. O primeiro desenvolve baterias especiais de lítio e de titânio parasuprir os equipamentos de telecomunicações na falta de energia elétrica em uma estação telefônica, por exemplo. Ett elabora em seu laboratório uma técnica de tratamento de superfície de alumínio superior ao processo convencional utilizado nas indústrias que fazem esse tipo de serviço. Agora, os dois também jogam seus esforços na Electrocell.

Lema
A empresa instalada em Contagem (MG) apresentou aos investidores uma inovação prática e útil: uma embalagem de medicamento veterinário com seringa, pronto para ser aplicado. Gilberto Lima, sócio da empresa, disse que o produto elimina horas e horas de serviço para quem lida com grandes rebanhos.

Direct Talk
Atua no desenvolvimento de programas para relacionamento dos sites com os consumidores. Com sede em São Paulo, a empresa desenvolveu um sistema que direciona e-mails recebidos por um banco, por exemplo, para a pessoa ou setor específico que vai tratar do assunto contido na mensagem. Seus sócios esperam levantar R$ 3 milhões dos investidores. A empresa tem a participação da empresa de capital de risco E-Platform.

Clorovale
A empresa de São José dos Campos é a primeira da América Latina a atuar no ramo de diamantes-CVD, material que começa a ser usado na ponta de brocas odontológicas, em aparelhos de precisão e de cortes industriais. A empresa já fábrica brocas com durabilidade 50 vezes superior que as convencionais de metal (Pesquisa FAPESP n° 52). A Clorovale é um exemplo da transferência do mundo acadêmico para o mundo comercial. Três de seus cinco sócios ainda trabalham no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um dos pólos de estudo de diamante artificial no Brasil. Em três anos, a empresa espera faturar R$ 10 milhões. Para isso, pretende obter R$ 2 milhões dos investidores. Para o professor Evaldo José Corat, participar do fórum foi extremamente importante. “Nós, como pesquisadores, tínhamos uma noção amadora desse processo. Não fazíamos idéia de como financiar ou procurar investidores para a empresa”, analisa. A Clorovale, que teve sua exposição apresentada pelo professor Vladimir Jesus Trava-Airoldi, recebeu a visita de três investidores.

Tecnopar
A empresa de Belo Horizonte (MG) desenvolve um sistema antifurtos chamado U-lock para automóveis em que o próprio proprietário desliga o motor do veículo a distância com uma ligação telefônica em caso de roubo ou furto. Para a expansão de suas atividades a empresa necessita de R$ 640 mil.

Sourcetech
Desenvolver e produzir medicamentos naturais e insumos para a indústria farmacêutica com base na flora brasileira. Esse é o objetivo dessa empresa localizada em Pindamonhangaba. Ela está registrada na Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos.

Kiir
Instalada no Cietec de São Paulo, a empresa desenvolveu um aparelho esterilizador de ar chamado Superar. A invenção é de Gilberto Janólio, da Electrocell, e de alguns pesquisadores do Ipen. Eles desenvolveram e patentearam o aparelho junto com o empresário Amílcar Cruzeiro, que comanda a Kiir. A empresa necessita de R$ 1,8 milhão para implementar a linha de produção do aparelho. O Superar é portátil e funciona elevando a temperatura do ar captado para dentro do aparelho e resfriando em seguida, matando assim grande parte dos microrganismos presentes no ambiente.

Momento de decisão
Depois de finalizadas as apresentações, os representantes das 16 empresas foram para seus estandes e receberam os investidores. Foi o primeiro contato. A partir daí, eles mergulharam em negociações na busca de um entendimento sempre difícil, que pode durar meses. Requer intuição e desenvolvimento de um espírito empreendedor por parte daqueles que estão à frente da empresa, além de boas doses de conhecimento financeiro, de marketing e de administração. Requisitos que, se não dominados pelos dirigentes das empresas, deverão ser supridos com a assessoria da Finep e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Esses apoios técnicos e gerenciais obtidos e absorvidos pelos empresários durante a preparação para o Venture Forum e, após o evento, se transformam num conhecimento que, se não servir para seduzir um parceiro financeiro neste momento, certamente vai ser útil ao longo da vida dessas empresas de base tecnológica.

Preparo e competência
Na exposição promovida pela FAPESP no Maksoud Plaza, junto com o Venture Forum, várias empresas, além das 16 escolhidas para a apresentação, também mostraram sua competência e os progressos conquistados. É o caso da Lasertools, incubada no Cietec de São Paulo (Pesquisa FAPESP n° 50). A empresa, formada por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), desenvolve aplicações de laser industrial e faz, por exemplo, gravações no painel do rádio de um carro da Ford americana.

“Queremos crescer e para isso precisamos de um investimento de R$ 1 milhão”, disse Spero Penha Morato, sócio da empresa.”Recebemos muitas visitas durante a exposição, mas não conseguimos atrair investidores. O melhor para nós foram os contatos com outros empresários que mostraram interesse nos nossos serviços com laser.”Outra empresa, a Femto, que já finalizou seu projeto no PIPE, se prepara para vôos maiores. Comandada pelo físico Lídio Kazuo Takayama, a empresa produz estações de trabalho espectrofotométricas, um analisador químico totalmente automático e robotizado, capaz de quantificar, por exemplo, a presença de cloretos, ferro e sílica na água, ou detectar sulfeto, fosfato e amônia em efluentes domésticos ou industriais (Pesquisa FAPESP n° 53).

“Estamos nos preparando para uma feira internacional de instrumentação espectrofotométrica que vai acontecer em 2004”, contou Lídio. “Já estamos de olho nas chances do mercado mundial.” Embora com grande potencial de crescimento, Lídio descarta o capital de risco. “Nós nos preparamos há 12 anos para chegar a esse ponto, produzindo outros produtos e investindo na empresa sem cair nos juros bancários.”

Encontro lucrativo
Várias experiências marcaram o Venture Forum e a exposição dos projetos do PIPE e do PITE. Os dois eventos mostraram que é possível gerar desenvolvimento com a aproximação de três setores que até há bem pouco tempo não se cruzavam: pesquisa acadêmica, empresas com produtos inovadores e investidores capitalistas. Um encontros em que todos ganham.

Energia elétrica para o futuro

Com quase quatro anos de existência, o PIPE tornou-se um espaço amplo de realizações. Uma das experiências mais gratificantes é a do químico Antônio César Ferreira, que participou da exposição de projetos realizada junto com o Venture Forum. Depois de passar nove anos trabalhando nos Estados Unidos, onde também fez pós-doutorado, Ferreira voltou ao Brasil graças ao PIPE. “Enviei minha proposta de projeto, em 1997, ainda dos Estados Unidos”, lembra Ferreira.

Ele montou a empresa Unitech em sua cidade natal, Cajobi, próxima a São José do Rio Preto, com o objetivo de desenvolver componentes para células de combustível, um equipamento que gera energia elétrica a partir do hidrogênio, matéria-prima que pode ser retirada do gás natural (metano), da gasolina, do etanol (álcool usado nos carros brasileiros) e até da água.

As células de combustível são equipamentos silenciosos que não poluem e têm a água como resíduo. São a grande promessa para a geração de energia elétrica e para os motores de veículos. Algumas montadoras como Daimler-Chrysler, Honda e BMW já apresentaram automóveis impulsionados por células a hidrogênio, ainda híbridas com a gasolina.

O coração do projeto de Ferreira está nos separadores bipolares de polímero condutor iônico desenvolvidos pelo químico em Cajobi. Essas peças fazem a transformação química do hidrogênio em eletricidade. O primeiro equipamento finalizado por Ferreira gera 1 quilowatt (kW), suficiente para cinco lâmpadas de 100 watts. O objetivo dele é no próximo ano colocar no mercado equipamentos de 100 kW, próprios para pequenas indústrias. O combustível utilizado inicialmente é o gás natural. “Com adaptações podemos utilizar também o etanol”, afirma Ferreira.

Mesmo com tecnologia nacional em desenvolvimento, o Ministério do Desenvolvimento, de Indústria e Comércio Exterior (MDIC) está prestes a assinar um convênio com uma empresa alemã para desenvolver no país células de combustível que funcionem com etanol. Na Alemanha, as células de combustível são alimentadas com metanol, álcool retirado de cereais e de madeira. O ministro Alcides Tápias, do MDIC, diz que sabe das várias iniciativas em desenvolvimento no Brasil para produção de células de combustível e falou sobre o acordo com os alemães. “Vamos desenvolver uma nova tecnologia com pesquisadores brasileiros utilizando o etanol”, assegurou Tápias.

Apontadas como o gerador energético do futuro, as células de combustível ainda produzem uma energia considerada premium. Segundo Ferreira, o preço do kW gerado por uma célula é de US$ 1,5 mil. O valor de um kW de uma termelétrica (gás natural, diesel ou carvão) é de US$ 600. “Mas a célula é três vezes mais eficiente em termos energéticos”, afirma. Por isso, a célula de combustível provoca uma grande corrida tecnológica em todo o mundo.”Existem mais de 200 protótipos de células de combustível para geração de energia elétrica.”

O desafio de Ferreira agora é ampliar sua empresa e colocar o produto no mercado. Para isso, estuda propostas de investidores de capital de risco, que ele recebeu antes do Venture Forum realizado em São Paulo. Enquanto decide os rumos da Unitech, Ferreira faz questão de dizer que só conseguiu desenvolver o seu projeto no Brasil porque obteve o financiamento da FAPESP. “Faço até um apelo para que outras entidades também financiem outras pequenas empresas.”


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