PESQUISA INOVATIVA EM PEQUENAS EMPRESAS (PIPE)

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Saúde na manta azul

A Komlux finalizou o Blanket Luz, equipamento para o tratamento da icterícia, doença que atinge 200 mil bebês por ano no Brasil

WANDA JORGE | ED. 71 | JANEIRO 2002

 

Manta tecida com fibras ópticas é usada diretamente sobre a pele do bebê sem provocar calor

Um dos produtos pioneiros desenvolvidos dentro do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) está pronto para entrar no mercado. É a manta para fototerapia em recém-nascidos da empresa Komlux, de Campinas. Com o nome comercial de Blanket Lux, o equipamento aguarda apenas a certificação do Ministério da Saúde, que vai fazer a última fiscalização no novo prédio construído pela empresa. A Komlux também se prepara para a certificação ISO 9000, um pré-requisito para obter a marca CE, da Comunidade Econômica Européia. “A expectativa é abrir um profícuo mercado na área médica brasileira e também no exterior”, diz Cícero Lívio Omegna de Souza Filho, diretor-proprietário da empresa, que já recebe pedidos para entrega em março deste ano.

A Blanket Lux é uma manta tecida com fibras ópticas que emite luz azul para tratamento fototerápico de recém-nascidos com hiperbilirrubinemia, mais conhecida como icterícia fisiológica, causada pela incapacidade de o organismo do bebê eliminar a bilirrubina do sangue. Em condições normais, esse pigmento biliar é filtrado pela placenta ou eliminado pelo fígado. Nos casos mais graves, a icterícia pode causar danos ao sistema nervoso central e surdez, sendo o efeito mais visível a presença do tom amarelado na pele. A icterícia é comum no Brasil e afeta cerca de 5% do total de crianças nascidas a cada ano, o que equivale a 200 mil bebês.

A fototerapia é o tratamento mais utilizado atualmente para eliminar a bilirrubina. A luz decompõe a substância, que é eliminada pelo organismo. Mas os inconvenientes são grandes: durante horas ou dias, o bebê permanece no berço, apenas com fralda e olhos vendados, submetido à luz que sai de lâmpadas fluorescentes ou halógenas. As lâmpadas não podem ficar muito próximas para não provocar queimaduras, o calor provoca desconforto e o bebê permanece mais tempo no hospital.

A manta resolve muitos desses inconvenientes: pode ser usada diretamente sobre a pele do bebê, é pequena, acoplada a um fio de fibras que fica distante do corpo, diminuindo riscos. Além do conforto, reduz custos hospitalares, filtra o calor e as faixas indesejáveis do espectro da luz, sobretudo a infravermelha e a ultravioleta, deixando passar apenas a azul, que resolve o problema da bilirrubina.

Manta portátil
A inovação da manta é que ela foi fabricada com fibras ópticas modificadas. Elas emitem luz lateralmente de forma controlada ao longo da manta. Com a manta fototerápica não existe a necessidade de interromper o tratamento para amamentação, como no sistema convencional. Ela é portátil e pode ser usada em casa. “A grande vantagem da manta é que ela pode ser usada dentro da incubadora em casos de bebês prematuros, por exemplo”, afirma o professor Fernando Facchini, do Centro de Assistência Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Aliás, a idéia de produzir a manta foi dele. “Eu estava interessado em usar uma manta de fibra óptica – já existente no exterior – e procurava alguma forma de produzi-la no Brasil. Aí eu procurei o Centro de Bioengenharia da Unicamp e eles me indicaram a Komlux”. O desafio de produzir o equipamento nacional foi lançado em 1997. Foram dois anos e meio de pesquisas e seis meses para o lançamento. “A manta está apta para os berçários do país e do exterior”, diz Omegna Filho. O preço está estimado em R$ 3,3 mil, incluindo a distribuição do produto, enquanto o similar japonês Homeda custa US$ 4 mil. O tratamento convencional, com fototerapia halógena, fica entre R$ 2 mil e R$ 4 mil.

No segundo semestre, quando Omegna Filho espera estar com o sistema de comercialização da manta consolidado e já superada a fase de qualificação, a expectativa é vender toda a capacidade de produção da Komlux, que é de 50 conjuntos (manta mais fonte de luz) por mês. “Na verdade, diante da receptividade que temos alcançado com o produto, acreditamos que a demanda será bem maior que esse volume.”

A Blanket Lux foi apresentada aos participantes do XVII Congresso Brasileiro de Perinatologia, realizado em Florianópolis (SC), em novembro do ano passado. “Sua estréia ao público especializado teve muito sucesso e provocou interesse de mercado em nichos que ainda nem havíamos cogitado”, diz Omegna Filho. É o caso de uma grande cooperativa de saúde, que identificou na manta a solução de seus problemas de prolongamento da internação nas maternidades, uma vez que o uso doméstico do produto já é uma prática utilizada nos Estados Unidos, onde recebe o nome de biliblanket.

Novo produto
A Komlux também desenvolve dois tipos de videoendoscópio, um com haste rígida para aplicação em otorrinolaringologia (nariz, ouvido e garganta) e outro flexível, para investigação clínica do estômago e do intestino. Os dois projetos também têm apoio do PIPE. O endoscópio é um instrumento que permite a observação de locais com acesso limitado. A maior utilização é na medicina, para visualizar cavidades do corpo.

O endoscópio da Komlux estará acoplado a uma câmara de vídeo, permitindo o registro das imagens em fitas de vídeo para futuras análises ou para banco de dados. A redução dos preços de câmeras, monitores e gravadores de vídeo, bem como de acessórios para digitalizar imagens e manipulá-las em microcomputadores, viabilizou o uso em larga escala. Segundo Omegna, a estimativa é vender de 50 a 100 conjuntos por mês do videoendoscópio com haste rígida, quando for lançado comercialmente em 2003. O preço também promete sercompetitivo.

O endoscópio e todo o sistema de vídeo da Komlux custará de R$ 3,5 mil a R$ 4 mil, enquanto seu similar hoje custa o dobro: só o sistema de câmeras está em R$ 3,5 mil. O otimismo de Omegna Filho fundamenta-se em números. A empresa fatura hoje em torno de R$ 180 mil por mês, depois de quase ter dobrado sua receita em um ano e meio. As perspectivas para o mercado de fibras ópticas, onde atua com uma linha de 200 produtos, só crescem.

Quando o professor Hugo Frangnito, do Instituto de Física da Unicamp, e os professores Pedro Mangabeira Albernaz e Aníbal Arraes, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), procuraram a Komlux para desenvolver o videoendoscópio para aplicação em otorrinolaringologia, eles queriam simplificar a aparelhagem existente. A alternativa da Komlux é um equipamento parecido com uma caneta, com microcâmeras que captam e enviam imagens para um monitor de vídeo ou computador, onde serão analisadas. Ele terá modelos para várias especialidades. O aparelho para a boca já está pronto e para ouvido e laringe está em andamento.

Outro equipamento pronto, fruto de desdobramento da pesquisa, é o intra-oral, para auxiliar o dentista em várias funções. A pesquisa desenvolvida pela Komlux para montar um protótipo de endoscópios flexíveis, destinados a exames de esôfago, estômago e intestino, está sendo realizada em parceria com o Centro de Diagnóstico em Doenças do Aparelho Digestivo (Gastrocentro) da Unicamp.

Manter a fibra
Os resultados mais imediatos desses projetos são a nova fábrica em Campinas, com 1,1 mil m2, quase o dobro do antigo espaço, de 600 m2, e aumento no número de funcionários, de 19 para 40. Mas Omegna Filho sabe que, sozinho, não conseguirá entrar nesse mercado dominado por multinacionais. “Creio que não devemos gastar energia para disputar o mercado distribuidor com empresas já estabelecidas. Prefiro manter nossa identidade na área de desenvolvimento e aplicações de fibras ópticas”, diz. Ele acrescenta que, desde a fase embrionária dos projetos, já começa a buscar parceiros e clientes para que o produto tenha condições de entrar no mercado tão logo saia da fase de protótipo.

Trajetória exemplar

Cícero Omegna Filho sonhava ser engenheiro, mas acabou se formando em análise de sistemas. Ele viu o mundo das fibras ópticas entrar em sua vida a partir do estágio que fez em 1977 como técnico em eletrônica no Instituto de Física da Unicamp. Em 1986 a Komlux nascia no porão de sua casa e tinha como sócio o engenheiro mecânico Marco Kairala. A empresa foi formada para produzir ponteiras odontológicas para fotopolimerização, equipamento que seca em segundos a massa utilizada na reconstrução dentária. Esse projeto foi posteriormente vendido para a multinacional 3M, e a sociedade desfeita.

Omegna Filho continuou com a Komlux e ganhou um fôlego de três meses ao fechar um contrato de prestação de serviços com a Elebra, também de Campinas, onde já trabalhava na área de produção de fibra óptica para telecomunicações. Mas os sucessivos planos econômicos deixaram a empresa à míngua e, em 1993, apenas três funcionários haviam sobrado dos dez existentes em 1989. Naquele ano, Omegna Filho foi para os Estados Unidos prospectar novos negócios. E quase ficou por lá porque recebeu um convite do consultor de empresas Abraham Szule para que montasse sua empresa em território norte-americano.

Mas, uma semana após voltar a Campinas, foi procurado por pesquisadores da Unicamp e da Unifesp para desenvolver os endoscópios aplicados à Medicina. Até então, sua experiência com esses equipamentos limitava-se aos de modelo rígido, para atender às encomendas da empresa Iochpe-Maxion, utilizados para inspecionar o interior da câmara de combustão de motores diesel usados em tratores. “A chegada dos pesquisadores possibilitou dar uma guinada na especialização da empresa, que saiu das telecomunicações para a área biomédica”, diz Omegna Filho.

Nessa mesma época, entre 1994 e 1995, teve início o desenvolvimento do produto com o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Omegna Filho fez parte do Grupo Técnico de Instrumentação do MCT por dois anos, o que lhe permitiu visitar várias universidades e entender suas demandas. Abriu as portas de sua empresa para a cultura da pesquisa. Conseguiu do Programa de Capacitação de Recursos Humanos para Atividades Estratégicas, do MCT, seis bolsas para a Komlux.

Naquele momento, já começava a ficar evidente para Omegna Filho a primeira conclusão dessas parcerias: “Não adianta direcionar recursos exclusivamente para equipamentos e plantas industriais, é fundamental formar pessoas”. A segunda veio agora, quando se prepara para o grande desafio da comercialização e divulgação da manta. “Minha empresa sempre teve uma relação umbilical com a universidade e a pesquisa e, certamente, pelas próprias pernas não teria resistido.”

Os projetos
1.
Projeto e Desenvolvimento de Equipamento para Fototerapia Neonatal baseado em Fibra Óptica Corrugada (nº 97/07515-1); Modalidade Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE); Coordenador Cícero Lívio Omegna de Souza Filho – Komlux; Investimentos R$ 169.209,40 e US$ 125.296,00
2. Desenvolvimento de Videoendoscópio com Óptica Gradiente (nº 97/07514-5); Modalidade Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE); Coordenador Cícero Lívio Omegna de Souza Filho – Komlux; Investimentos R$ 167.287,00 e US$ 79.500,00


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