Medicina

Cerco à proteína mortal

Grupo da UFRJ abre caminho para compreender e deter a reprodução do príon, que destrói cérebros e mata

Príon é uma proteína que se multiplica como um ser vivo, produz uma doença incurável no cérebro e leva à morte. Pesquisas do Centro Nacional de Ressonância Magnética Nuclear de Macromoléculas (CNRMN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trazem indícios para explicar a reprodução desenfreada dos príons, bem como para detê-los: o grupo descobriu uma molécula, a SFC, que pode bloquear a multiplicação dos príons.

Embora não contenha material genético, o príon, uma proteína celular alterada, multiplica-se como vírus e bactérias. Atinge seres humanos e animais com uma doença degenerativa que dá ao cérebro uma aparência esponjosa, tal o estrago que causa nas células nervosas, os neurônios. Não há cura ou tratamento para esse tipo de doença, chamada encefalopatia espongiforme e que pode ser transmissível, esporádica ou hereditária.

De duas formas da mesma proteína, uma é anormal: o príon. Supõe-se que se combine com seus equivalentes normais e os torne anormais, numa reação em cadeia. A doença ocorre quando um organismo é contaminado por quantidades elevadas de príon assim geradas.

Ao se reproduzir em grande escala, o príon provoca as encefalopatias, que causam tremores incontroláveis, demência e morte. Uma delas é a forma humana do mal-da-vaca-louca, variante da doença de Creutzfeldt-Jacob, que seria causada pela ingestão de carne bovina infectada.

Ácidos nucléicos
Como pode uma proteína multiplicar-se como um ser vivo? A pergunta é um desafio desde a descoberta do príon, na década de 80. Segundo propõe o grupo da UFRJ, um ácido nucléico – DNA ou RNA – desempenharia papel-chave nessa multiplicação. Por essa hipótese, um ácido nucléico modularia as respostas do organismo às proteínas anormais: assim, na presença de pequenas quantidades de príons alterados, o ácido nucléico os manteria aprisionados, prevenindo a replicação.

O consumo de carne contaminada, porém, faria aumentar a concentração de príons no organismo. Isso descontrolaria o ácido nucléico que, ao invés de eliminar o príon, passaria a estimular sua multiplicação. “O ácido nucléico age, nesse caso, como um catalisador para a formação de placas de príons”, diz Jerson Lima Silva, um dos pesquisadores da equipe.

A teoria foi levantada quando testes do grupo levaram a uma descoberta: os príons eram impedidos de multiplicar-se na presença de uma substância que neutraliza os ácidos nucléicos. O resultado da pesquisa foi publicado em 16 de outubro último na revista Journal of Biological Chemistry, dos Estados Unidos, em artigo assinado por Lima Silva, Débora Foguel e Yraima Cordeiro, do CNRMN, mais os co-autores Luiz Juliano Neto e Maria Aparecida Juliano, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Ricardo Brentani, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, de São Paulo.

Molécula salvadora
Noutro artigo, serão divulgados resultados obtidos com uma molécula que pode servir de base para remédios que bloqueiem a multiplicação dos príons. Chamada de SFC – iniciais dos sobrenomes Silva, Foguel e Cordeiro – a molécula deriva do composto anilino naftaleno, usado para mapear o enovelamento de proteínas. “Estávamos usando essa molécula para outros fins, quando observamos que ela evitava a agregação entre os príons”, conta a bioquímica Débora.

Essa molécula, segundo a equipe, encaixa-se em sítios de ligação entre a proteína normal (PrP) e o príon (PrP-Sc), atuando como um envoltório que inibe a agregação. Impedidos de se associar, os príons deixam de se multiplicar e de formar as placas.

Nos testes, a molécula não se mostrou tóxica a células em cultura, mesmo quando usada em concentração 50 vezes maior que a necessária à inibição da agregação. Os ensaios demonstraram ainda que a SFC liga-se na mesma região onde o ácido nucléico une-se ao príon. Sem ter como se ligar ao ácido nucléico, os príons não se multiplicaram. “Temos um composto que se mostrou promissor para a inibição da agregação de príons e que ainda compete com o DNA catalisador usado na multiplicação deles”, diz Lima Silva.

A proteína anormal PrP-Sc foi descoberta em 1982 pelo neurologista americano Stanley Prusiner, da Universidade da Califórnia. Ele formulou a hipótese de que o agente da doença seria formado de material protéico e ganhou o Nobel de Medicina de 1997 por seus estudos sobre o tema. Um neurônio atacado pelo príon apresenta buracos e forma estruturas fibrilares, com aspecto de esponja.

As encefalopatias espongiformes provocam sintomas parecidos em homens e animais: alterações no comportamento, demência, tremores violentos, paralisia progressiva e morte. Há também dificuldades para falar e andar, embora a inteligência prossiga normal. A incubação demora mas, quando chegam os primeiros sinais, a doença evolui em poucos meses para a morte.

Vaca louca
A doença de Creutzfeldt-Jacob, uma das formas de encefalopatia espongiforme que atinge pessoas, também se manifesta de modos diversos. O príon pode ser transmitido pelo uso de hormônio do crescimento retirado de cadáveres (prática já abolida) ou transmitido a pessoas submetidas a transplantes de córnea. Outra forma, a hereditária, atinge pessoas que herdam um gene mutante e desenvolvem a doença depois dos 50 anos. Há registros de centenas de famílias no mundo que são portadoras dessa mutação.

Em 1986, foi descoberta uma encefalopatia que atinge animais e ganhou notoriedade mundial: a doença da vaca louca, cuja causa apontada foi o uso de restos de carneiro e de boi em rações para bovinos. Estudos divulgados em setembro último pela Universidade de Edimburgo, Escócia, indicam que a forma humana das encefalopatias espongiformes cresce 20% ao ano na Grã-Bretanha e 140 mil pessoas já poderiam estar atingidas. Em janeiro de 2000, uma variação dessa doença (chamada scrapie), que atinge ovelhas e cabras, foi confirmada em três animais de uma fazenda de Guarapuava (PR) e motivou o sacrifício de 290 cabeças.

Mais proteínas
Noutra linha de trabalho com proteínas como o príon, o alvo da equipe é o peptídeo (parte de proteína) beta-amilóide, importante no desenvolvimento do mal de Alzheimer. Para o tratamento dessa doença, que provoca demência e afeta milhões de pessoas com mais de 65 anos, só há medicamentos contra os sintomas. “Estamos testando compostos para inibir a agregação do beta-amilóide, com resultados promissores”, diz Débora.

O grupo estuda outra proteína, a transtirretina, responsável pela amiloidose sistêmica senil, doença que, segundo os pesquisadores, atinge cerca de um quarto das pessoas acima de 80 anos. A transtirretina provoca paralisia e morte ao se acumular sobre células nervosas e do coração. A mesma substância contra os príons, a SFC, também inibe a agregação da transtirretina. Em cooperação com a Universidade de Harvard, o grupo testa ainda substâncias para bloquear a agregação de alfa-sinucleína, proteína ligada à instalação do mal de Parkinson, que também atinge a população idosa.