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Aposta contra o cancer

Andrew Simpson diz que o Brasil deveria investir no desenvolvimento de fármacos contra tumores

Dupla Hélice 50 anos | ABRIL 2003

 

Seis meses atrás, o bioquímico Andrew Simpson — um inglês que há mais de 12 anos fixara residência no Brasil e, nos últimos tempos, esteve à frente de projetos de peso da ciência nacional, como o seqüenciamento do genoma da bactéria Xylella fastidiosa e o Genoma Humano do Câncer — mudou de emprego. Trocou a filial paulista pela de Nova York do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer. Apesar do breve período no exterior, Simpson formulou uma reflexão interessante a partir do contato mais estreito com as grandes companhias farmacêuticas, donas de gordos orçamentos para o desenvolvimento de fármacos, e do convívio diário com cientistas norte-americanos que se dedicam à tarefa de pesquisar drogas contra os tumores. Na visão de Simpson, desde a descoberta da estrutura molecular do DNA, nos anos 50, o tratamento contra o câncer não mudou radicalmente, sobretudo no que diz respeito à descoberta de remédios contra a doença. Nem mesmo os estudos genéticos dos últimos anos conseguiram impulsionar a pesquisa de medicamentos contra esse mal. “Houve avanços, é claro, principalmente na questão do diagnóstico precoce dos tumores, mas, em termos de terapias, continuamos recorrendo às cirurgias, quimioterapia e radioterapia”, afirma Simpson. Segundo o pesquisador, ao contrário do que muita gente pensa, a busca por novos remédios contra o câncer não figura entre as maiores prioridades dos laboratórios. “Não podemos esperar que as grandes empresas resolvam esse problema para nós”, afirma. No ano passado, houve 340 mil novos casos de câncer no país e 120 mil mortes.

O bioquímico acredita que, do ponto de vista das multinacionais farmacêuticas, o mercado potencial para novas drogas contra o câncer é fracionado, dividido em vários nichos. Dessa particularidade decorreria a suposta falta de vontade das empresas privadas em investir pesado na pesquisa de drogas contra a doença. Por esse raciocínio, cada tipo de câncer — do pulmão, do fígado, de mama, de pele, etc. — seria visto pelos laboratórios como se fosse uma outra doença, com particularidades que a diferenciam das demais formas de tumores. “Cada tipo de câncer representa um mercado pequeno para os laboratórios, que preferem investir em doenças com maior chance de gerar blockbusters (remédios receitados para uma grande parcela da população)“, diz Simpson.

Pesquisa cara
E isso não é tudo. Comparados com os portadores de doenças crônicas, como os hipertensos, que, por décadas a fio, tornam-se usuários quase perenes de remédios, os doentes de câncer não representam, potencialmente, o consumidor dos sonhos dos laboratórios. Isso porque os portadores de tumores fazem uso de medicamentos por um período relativamente curto. Segundo Simpson, a doença é tão grave que, uma vez tratado, o paciente com câncer rapidamente deixa de usar seus remédios. “Ou ele se cura ou morre”, comenta o bioquímico. Simpson acha que o Brasil tem de ir à luta e montar projetos para desenvolver fármacos contra o câncer, ainda que os valores necessários para essa empreitada pareçam elevadíssimos. “O país pode ter essa ambição”, afirma Simpson, que está se naturalizando brasileiro. “E não se pode esquecer que a verba investida no desenvolvimento de um fármaco não é gasta de uma só vez, mas, sim, ao longo de dez ou 15 anos.” Pelos seus cálculos, seriam necessários ao menos US$ 5 milhões por ano para se tocar um projeto que buscasse uma droga contra o câncer.

Mas de onde viria o dinheiro para financiar esse tipo de iniciativa? Simpson acha que todas as fontes de recursos poderiam contribuir numa empreitada desse porte, desde as agências públicas de financiamento de C&T, em nível federal ou no âmbito estadual, até a iniciativa privada. “As universidades têm de estabelecer parcerias com os laboratórios nacionais já existentes ou com novas empresas de biotecnologia’, diz o bioquímico. Na área agrícola, isso já acontece. Simpson cita o exemplo da Allelyx, empresa de biotecnologia do Grupo Votorantim, que abriga pesquisadores oriundos de projetos genômicos que seqüenciaram patógenos de grande impacto econômico para o meio rural, como a Xylella fastidiosa, agente causador do amarelinho, grave doença que afeta os laranjais paulistas. Para o bioquímico, o país deve também buscar fontes de financiamento no exterior na pesquisa contra o câncer. Mais uma vez, cita um exemplo da área agrícola para embasar sua tese: “Se os norte-americanos pediram para os brasileiros seqüenciarem a cepa da Xylella fastidiosa que causa a doença de Pierce na videira, por que o Instituto Nacional do Câncer (dos Estados Unidos), que tem um orçamento anual superior a US$ 3,5 bilhões, não poderia financiar também aqui a pesquisa de drogas contra tumores?”.


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