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Ciência Aplicada ao Meio Ambiente

O geógrafo da fome

Aziz Ab'Sáber luta para que a ciência não se distancie da realidade humana

O geógrafo foge do estereótipo de homem de ciências centrado em livros e teorias

JOÃO WAINER/FOLHA IMAGEMO geógrafo foge do estereótipo de homem de ciências centrado em livros e teoriasJOÃO WAINER/FOLHA IMAGEM

Nada desagrada mais a um cientista moderno do que falar em determinismo geográfico, mas no caso do geógrafo Aziz Ab’Saber, a controversa teoria parece ter pregado uma peça em eu destino, como que o levando a sua opção pelo bem-estar do homem comum e pela preservação da natureza. Filho de um libanês (cuja bandeira traz uma folha de cedro, árvore típica da região, símbolo de força e eternidade) e de uma brasileira do sertão florestal, o pesquisador, que acaba de completar 82 anos, nasceu em São Luiz do Paraitinga, cidadezinha do interior paulista que também foi berço de outro mestre da ciência nacional, Oswaldo Cruz, cuja casa era cuidada pelo padrinho de Aziz. Isso dá o que pensar. “Ninguém escolhe o lugar, o ventre, a condição socioeconômica e cultural para nascer. Nasce onde o acaso determinar. Por isso somos responsáveis por todos aqueles que estão agora nas favelas, na periferia”, analisa o professor.

Ab’Sáber, como se pode ver, foge do estereótipo do homem de ciências centrado em livros e teorias. “Parto do princípio de que as pessoas precisam, em primeiro lugar, entender o que é cultura para, depois, entender o que é ciência. A cultura é um conjunto de valores do homem. A pesquisa agrega conhecimento à cultura, alimenta a ciência e acelera os processos evolutivos das sociedades”, observa. Para ele, a ciência, em si, é inocente e para que seja útil à sociedade precisa se combinar com as outras ciências, para que surjam descobertas novas. “As ciências têm que se dirigir à sociedade, à comunidade humana. Isso faz as ciências do homem fundamentais em todo o corpo geral das ciências, a fim de que o progresso científico não fique por demais distanciado da realidade das comunidades humanas às quais será aplicado.” A junção do científico e o social é a base do pensamento e, mais importante, da ação do geógrafo, filho de um imigrante iletrado que se preocupava com a educação de seus filhos e se mudou de São Luiz para Caçapava pensando em dar melhores chances a todos eles.

Ainda assim, seus professores de geografia, confessa, não foram os melhores. A carência de livros e revistas, que a família não podia comprar, ele supriu, gosta de dizer, “lendo a paisagem”. Ingressou na Universidade de São Paulo em 1941, disposto a estudar história e geografia, disciplinas integradas até o segundo ano. A opção pela última foi natural. Teve a sorte de ter como mestres alguns dos professores da famosa Missão Francesa, grupo de intelectuais da França que lecionaram na USP entre 1935 e 1946. Seu favorito foi o geomorfologista Pierre Monbeig, que, mexendo com sua vaidade, lhe ensinou o caminho da verdadeira pesquisa geográfica. Num trabalho de faculdade arriscou um pequeno avanço no terreno da teoria. O francês fez bico. “Aziz, gostei do seu trabalho, mas o aconselho a primeiro fazer análises para um dia chegar à teoria que você merece.” O insight foi imediato. Ab’Sáber percebeu que livros e revistas acadêmicas, pelo menos as de seu tempo, não o levariam a lugar nenhum se não fosse a campo. “Mergulhei em uma série de pesquisas regionais: pesquisei o domínio dos morros florestados, seu processo de povoamento, o domínio dos cerrados, as chapadas e cheguei à Amazônia e ao Rio Grande do Sul.” Revirando o país, começou, aos poucos, a tentar entendê-lo.

O geógrafo nunca mais se esqueceu das lições de Monbeig e de como o professor o ensinou que toda teorização precoce termina por ser repetitiva e estéril e que, antes de conhecer na prática as relações entre o homem e a terra, é impossível teorizar. Foi com esse pensamento que criou a sua celebrada Teoria dos Redutos. Em 1957, cicerone do geógrafo francês Jean Trincart, numa expedição ao interior de São Paulo, mais especificamente na região entre Salto e Jundiaí, foi numa conversa com o companheiro de viagem que teve a iluminação para sua tão esperada teoria. Observaram linhas de pedra (stone tines) no meio de vários barrancos, em encostas de morros ou a cerca de 1 metro abaixo da superfície. Ao observar o chão pedregoso, Trincart intuiu que no passado havia, naqueles lugares, um clima mais seco, com uma flora de caatingas e cerrados. “Você conhece o Nordeste seco, sabe que tem chão pedregoso e que as raízes dos arbustos penetram pelo meio das pedras e se fixam. Então, essa linha de pedras representa outro ambiente, outro clima, outra combinação de fatores fisiográficos e ecológicos que existiram em outra época”, avaliou o francês, aguçando a curiosidade de Ab’Sáber, que passou a mapear as linhas de pedra do país.

Segundo a Teoria dos Redutos, durante o quaternário antigo, há cerca de 500 mil anos, o nível do mar desceu 100 metros do seu nível normal. O clima ficou mais frio e seco, reduzindo a tropicalidade e suas florestas. Os espaços deixados por elas foram ocupados por caatingas, vegetação característica de climas secos. Com o retorno do clima quente, o mar subiu novamente e a alta da umidade fez com que as florestas se expandissem novamente. Havia um porém: durante o tempo em que se mantiveram separadas, as vegetações se desenvolveram de forma diferenciada e, quando se emendaram, houve a reunião de várias florestas diversificadas. Ab’Sáber imediatamente se lembrou das observações de Charles Darwin, para o qual quando uma espécie é isolada em um ambiente, acumula tantas mutações que, depois de certo tempo, acaba se constituindo numa espécie diferente, isolada. “Ele foi genial. Mesmo sem saber da mudança dos oceanos, quando esteve em Galápagos, descobriu os ‘refúgios insulares’.” No caso brasileiro, os refúgios estavam em áreas continentais, e não em ilhas.

“Compreendi que, no momento em que a semi-aridez predominou, as florestas recuaram para pontos mais úmidos. No processo de retropicalização, as caatingas foram abafadas, cedendo espaço para florestas densas, úmidas, com grande biodiversidade. Ora, nada se cria do nada. Não se cria uma biodiversidade fantástica onde não houve refúgios nem redutos”, explica. O colega e amigo Paulo Vanzolini aproveitou a descoberta do amigo e a aplicou em seu campo de estudos, criando o conceito de “refúgios”, ou seja, o contraponto do que teria acontecido aos animais submetidos a essas condições: para ele, a fauna teria se concentrado nesses locais de florestas, os refúgios. A mesma espécie teria ficado dividida em vários refúgios separados por barreiras ecológicas, submetidas a diferentes condições de sobrevivência. Cada uma teria sofrido especiação, fator que poderia explicar a grande biodiversidade da América do Sul.

Mas o trabalho de Aziz Ab’Sáber não parou com essa teoria importante. Foi diretor, entre 1969 e 1982, do extinto Instituto de Geografia, atuando também no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), onde iniciou o processo de tombamento da serra do Mar e foi o grande responsável pelos tombamentos da serra do japí, em Jundiaí, e da Pedra Grande, em Atibaia. O geógrafo foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) entre 1993 e 1995 e participou ativamente da elaboração do Projeto Floram (Reflorestamento da Amazônia), que visava integrar de forma ecologicamente sustentável a região ao resto do país, impedindo a destruição sistemática do ecossistema em nome de ganhos de capital. Seus estudos sobre o Nordeste e a Amazônia são referências acadêmicas fundamentais, o que não impede o geógrafo, mesmo octogenário, de manter a energia e a combatividade política de sempre.

Suas críticas à falta de preparo dos governantes brasileiros em lidar com o meio ambiente e a nossa geografia são sempre ouvidas com respeito, embora quase não sejam implementadas pelos mandatários da nação. “O Brasil de hoje precisa cuidar do Brasil de amanhã” ,costuma esbravejar, deixando claro a sua preocupação em pesquisar formas de manter o desenvolvimento do país sem que isso implique a destruição de suas reservas naturais. Mesmo a situação das cidades está na sua pauta de estudos, tendo criado projetos para a periferia das metrópoles que ajudariam a combater a influência do tráfico e da criminalidade sobre as crianças dessas áreas. “Quem não tem ética com o futuro e capacidade de pensar o futuro em diferentes níveis e profundidades de tempo deixa que a devastação aconteça”, avisa.

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