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Oswaldo Frota-Pessoa

Oswaldo Frota-Pessoa: A prosa viva de um senhor cientista

O geneticista Oswaldo Frota-Pessoa, um cientista muito especial, fala de sua longa vivência como pesquisador, professor e divulgador de ciência

Ao ouvir Oswaldo Frota-Pessoa, 88 anos, um dos pioneiros da genética médica no Brasil, torna-se fácil entender porque suas qualidades de professor são festejadas por pesquisadores de várias gerações que estiveram entre seus alunos. Se na sala de aula ele se valia da narrativa deliciosa, multicolorida, cheia de graça e sempre entrecortada pelo riso aberto com que hoje ainda fala de sua trajetória de cientista e divulgador da ciência, então ouvi-lo, aprender com ele, era com certeza uma experiência atravessada pelo prazer. Fica fácil também concluir que os mais de 700 artigos de divulgação científica que publicou na imprensa brasileira entre as décadas de 1930 e 1950 foram certamente alimentados pela rara finura e inteligência de sua prosa.

Carioca, biólogo, médico, professor no curso secundário e superior, pesquisador ativo até os anos 1990, autor de 150 artigos de pesquisa e de muitos livros didáticos, Frota-Pessoa recebeu, entre outros, o Prêmio José Reis de Divulgação Científica de 1981-1982, o Prêmio Kalinga Internacional de Divulgação Científica da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em 1982 e o Prêmio Alfred Jurzikowyski, da Academia Nacional de Medicina, referente à pesquisa básica relevante para a Medicina, em 1989.

Frota-Pessoa, cuja lucidez e vigor driblam o largo tempo vivido, gastou duas tardes para falar longamente à revista Pesquisa FAPESP, sempre com excelente humor. Por razões editoriais, infelizmente, publicamos a seguir apenas os principais trechos de sua entrevista.

Eu queria que o senhor começasse contando de sua experiência em divulgação científica. Como foi? E em que ano começou?
Deixei preparadas aqui para você as pastas com todos os meus artigos de divulgação científica, mais de 700. Vou lhe mostrar o primeiro que escrevi…

“Por que se parecem os filhos com os pais?” De cara o senhor já estava escrevendo para o grande público na revista Vamos Ler, do Rio… Era uma revista de circulação ampla?
Era feito a Veja, hoje. Eu cismei que devia escrever para divulgação, então o que fiz? Escrevi esse artigo e aí fui procurar quem ia publicar. Visitei a sede da Vamos Ler, falei que tinha um artigo, perguntei se queriam publicar… Eles me acharam um cretino, né?, eu sem apresentação nenhuma… “Ah, deixe aí, e tal…” Deixei. E foi publicado. O primeiro dos 700.

O senhor trabalhou para A Manhã, para um suplemento do Diário Carioca, e depois para o Jornal do Brasil também?
Sim, muito.

Como foi sua formação até chegar à universidade?
Eu tive um professor muito bom de ciências quando estava no ginásio e no começo do colegial, no Ginásio Arte e Instrução, no subúrbio do Rio. E esse professor nos levava para fazer excursão no mato, ver bichinhos, trazer para o laboratório para estudar… Isso no ginásio, antes do colegial.

O senhor tinha 12, 13, 14 anos.
Exatamente. E eu fiz aliança com três colegas, tínhamos a mesma tendência para esse lado. Então, terminado o secundário, fui fazer medicina. E quando eu estava no primeiro ano de medicina, que eu estava fazendo porque não havia curso de história natural nem de biologia, medicina era o mais próximo, encontrei por acaso um desses rapazes, e ele disse “rapaz, você sabe? Estão abrindo uma nova universidade aqui e tem curso de biologia.” E eu digo “não é possível! Onde é? Vamos lá, vamos fazer?.

O senhor estava fazendo medicina em que faculdade?
Na Nacional.

Que depois virou a Federal do Rio de Janeiro.
É, exatamente. Era a única que tinha no Rio. Ficava na Praia Vermelha.

E o senhor terminou o curso de medicina?
Terminei. Fiz os dois juntos. O colega que encontrei por acaso na Cinelândia e que veio com a notícia de que fundaram uma nova universidade era o Newton Dias dos Santos. Nós fomos lá ver e tinha o curso de história natural. Bom, esse curso nos empolgou, porque foi o Anísio Teixeira quem fundou. Ele é um mecenas do ensino no Brasil. Fantástico, o que ele fez. Depois que se destacou como um especialista da educação na Bahia e no próprio Rio, ele foi encarregado de fundar uma universidade no Rio, que era a capital do Brasil e não tinha uma faculdade de ciências. Então ele fez a Universidade do Distrito Federal. Mas isso não é nada, o importante é que ele tinha falado para os assessores “olha, nós vamos ter que escolher professores para todos os cursos dessa nova universidade, mas eu quero o seguinte: quero o melhor pesquisador na área. Pode não ter dado nunca uma aula, que eu escolho assim mesmo. Quero o indivíduo que sabe pesquisar.” Então os nossos professores foram escolhidos dessa maneira, compreende? Na primeira aula de botânica – naquele tempo, a classificação das plantas e dos animais é que era importante…

A taxonomia.
Exatamente. Então nosso professor de botânica nunca tinha dado uma aula. Mas era botânico, tinha sido diretor da parte de botânica do Museu Nacional, tinha feito a marcha com o [Marechal Cândido] Rondon quando foram afixadas as fronteiras do Brasil, colhera planta no Brasil inteiro, enfim, já era um grande botânico. Alberto Sampaio, era o seu nome. Modestíssimo, uma jóia de pessoa. Na primeira aula, ele chegou na sala – éramos 18 alunos – e disse: “olha, eu sou o professor de botânica e estou pensando em como podemos organizar esse curso. Lembrei que aqui no Distrito Federal existem muitas famílias de plantas que são mal estudadas ainda. Por que vocês não se juntam em grupos de três ou quatro, cada um escolhe uma planta, uma família, e faz uma revisão da situação da sistemática dessa família de plantas no Distrito Federal.” Então o negócio caiu no gosto, queríamos era lidar com o material, e não ficar ouvindo besteira de professor. Resultado: nesse mesmo dia, ele nos levou para dentro – a aula era no museu – para mostrar o herbário que tinha uma porção de salas com caixas metálicas. Nessas caixas estavam pastas com as plantas que tinham sido colhidas 10 anos, 50 anos atrás, por aqueles botânicos europeus que vinham, viajavam, colhiam plantas, classificavam e depositavam no Museu Nacional. Tínhamos uma riqueza material para estudar que nenhum estudante podia sonhar. E logo na semana seguinte estávamos saindo para o mato, indo lá em cima na região em que, dizia-se no herbário, foram colhidas tais plantas.

Qual a família que o senhor foi estudar?
As saxifragáceas. É a família da hortênsia, aliás, européia. Mas na família existem gêneros brasileiros e esses é que tínhamos que estudar, porque eram os menos conhecidos, e fazer uma revisão. Resultado: ainda estudante, no terceiro ano, publiquei meu primeiro trabalho científico, que se chamou “As saxifragáceas na flora fluminense”.

Quando o senhor faz uma referência a “lá em cima”, está falando da serra fluminense?
Existe uma reserva em Teresópolis, o Campo das Antas, e subindo a montanha por ali, perto do Dedo de Deus, na Serra dos Órgãos, encontramos muita coisa. Agora, só para amenizar, um incidente: eu e Newton fizemos a excursão; aí baixou a noite e nós então pegamos nosso jantarzinho, qualquer coisa que tínhamos levado, e verificamos no fim, tristemente, que não tínhamos levado açúcar para o café. Foi a primeira vez que tomei café sem açúcar. E até hoje continuo tomando café sem açúcar. Na manhã seguinte, cada um montou em seu cavalo para ser o primeiro a descobrir a primeira saxifragácea. Então fomos para o Campo das Antas, que é um platô depois da subida. E sabíamos que nesse platô tinha sido colhida a planta 50 anos atrás por algum cara que passou por lá. Então começamos a olhar as árvores, chegamos naquele final de platô, aí descia um valezinho, nós paramos, olhamos um para a cara do outro, cada um querendo ser o primeiro a descobrir, né? Então, o que fiz? Pulei do cavalo, me meti por aquela mataria ali para descobrir onde estava a saxifragácea. Quando estou fazendo isso, o Newton me grita lá de cima, “Frota!”, “o que é?”, “essa Escallonia (que era o nome do gênero) tem flores rosadas?”, eu digo “tem”, “e tem raízes não sei o quê?”, digo “tem”, “então você amarrou seu cavalo nela!”

E o senhor, com pressa, nem tinha visto.
É, com pressa de ser o primeiro. Então você vê o espírito qual era. Estudante de primeiro ano de universidade fazendo uma excursão dessas. O Anísio Teixeira é o nosso santo.

A Universidade do Distrito Federal depois foi incorporada à Universidade do Brasil?
Foi. Isso é que foi a tristeza, porque voltou ao que era a universidade comum, sem esse espírito desbravador e melhor em todos os sentidos. Anísio Teixeira mandou buscar, por exemplo, vários franceses para áreas em que não havia especialista no Brasil. Por exemplo, filosofia. Tivemos aula com o pessoal da Sorbonne que veio contratado por um ano para dar o curso. Foi uma maravilha. E em nossa vivência de estudante haurimos dos professores suas qualidades, por isso todos nós saímos com vocação didática.

O senhor terminou história natural em 1938 e aí ficou ensinando e ao mesmo tempo escrevendo para a imprensa?
Exatamente. O movimento do Anísio empolgou os professores secundários, principalmente uma boa parte dos jovens. Fazíamos, portanto, uma política de melhorar o ensino. Se sabíamos de um colégio particular que queria um professor, o candidato ia lá propor seu nome e começava a ensinar direito, fazendo o pessoal pensar.

Quer dizer, era fundamental fugir da prática de decorar e em vez disso levar o jovem a pensar, a questionar…
O ensino tradicional até hoje é na base do professor falando e o aluno copiando besteiras para fazer a prova decorada. Fazíamos o contrário. Assim: você dá o problema, escolhendo um que seja muito interessante e aí faz um debate. E diz “bom, para a próxima aula, vocês vão ler esse trechinho aqui do livro, para aplicar e ver que conclusão tiram.” Na próxima aula o guri chega tendo lido aquilo, você diz “o que você achou daquela pergunta, como você respondeu?”, “e você, como respondeu?”, “ah, eu respondi assim”, “está de acordo? Não está, etc?” Então, numa única aula, você fez o aluno verificar um fato interessante e um princípio interessante, que não vai ser o começo da minha aula, mas o fim, quando já tiver percorrido esse trajeto.

Ou seja, feito o caminho desde o problema e com alguns reforços teóricos, ele pode chegar a um novo conhecimento adquirido e debatido junto com os outros.
E essa é a parte boa, porque é assim que a mente dele melhora. Ouvir o que o professor está dizendo, você chateado, copiando aquilo para decorar para a prova, não leva a nada. Quando, tendo terminado o curso de Biologia, fui nomeado professor no Rio, eu logo casei, para você ver como estava bem de dinheiro. Havia uma reverência pelo professor. Isso degringolou fatalmente com o aumento da população, exigindo cada vez mais educação e cada vez tendo menos. À certa altura, o cara que entrava para ser professor, se tinha qualquer possibilidade de uma outra profissão, migrava. E hoje, então… Recentemente saiu na Veja uma reportagem que perguntava “como os alunos secundários tratam os professores?” Uma sala de aula agora é uma vergonha, o professor está ali sem saber o que fazer. É um cara inexperiente, porque o experiente não é burro de ir para lá, com os alunos o estraçalhando, fumando maconha, xingando… quer dizer, é um horror o que os professores atuais vivem.

O senhor foi contratado como professor para o curso secundário no ensino público?
Sim, no Rio. Quando nos formamos, automaticamente fomos nomeados porque éramos a primeira turma dos professores formados pela universidade. E por 20 anos fui professor no secundário.

E depois, como se desenvolve sua carreira de pesquisador e sua vinda para a USP?
É simples. Eu estava formado pela Universidade do Distrito Federal, e ela foi transferida para a Universidade do Brasil. Nessa ocasião, eu estava ensinando no curso secundário e fazendo um curso em Manguinhos, no Instituto Oswaldo Cruz. Como biólogo me interessou fazer esse curso, que revivia a experiência do Oswaldo Cruz. E aí fui convidado para professor assistente de biologia da Universidade do Brasil. Um dia, na hora do almoço, eu estava no Instituto Oswaldo Cruz, e disseram “escuta, está chegando aí um americano formidável, com um negócio de genética de drosófila…” Era o [Theodosius] Dobzhansky. Aí fui ao meu professor de lá, um ótimo naturalista, e disse “que diabo é drosófila?” Ele me respondeu “são umas mosquinhas que eles têm lá nos Estados Unidos, mas aqui não tem, não.” Bom, a minha tese de doutorado foi sobre as espécies brasileiras de drosófilas. Continuando, fiquei sabendo dessa chegada do Dobzhansky em São Paulo. Aí, o [André] Dreyfus, que era o pai da idéia de trazê-lo, e o [Crodowaldo] Pavan, que ia assessorá-lo, resolveram fazer um livrinho de classificação das drosófilas.

O senhor, a essa altura, já tinha uma certa curiosidade pela genética.
Sim, eu já sabia de genética. No curso de biologia, que era meio itinerante, com cada disciplina sendo dada num edifício diferente, conforme o professor que a ensinava – a gente ia para o Museu Nacional, ia para o Oswaldo Cruz, para a Praia Vermelha… -, um dia o Lauro Travassos, professor de zoologia que ficava em Manguinhos, chegou na aula e disse “olha, a genética foi fundada por um indivíduo do qual eu tenho aqui o primeiro trabalho publicado. Eu tirei cópias para vocês e na próxima aula vamos fazer um debate sobre esse negócio.”

Era o trabalho de Mendel com ervilhas.
Era. Compreendeu a época em que nós estávamos? A genética estava começando a entrar aqui. E o Travassos pediu a um colega para dar a parte metodológica. Aí comecei a me interessar mais pela genética. Lá pelas tantas, chegou no Rio o Dreyfus para visitar Travassos, que era seu amigo. Dreyfus depois trouxe Travassos para uma temporadinha de alguns anos em São Paulo. De qualquer sorte, a essa altura, o Dreyfus pediu ao Travassos que indicasse dois ex-alunos para irem a São Paulo checar as chaves de classificação de espécies de drosófilas brasileiras que o Pavan tinha feito. Então eu, que não sabia ainda o que era drosófila, mas estava com meu título de bom taxonomista, fui um dos indicados. O Pavan gosta muito de contar essa história de minha chegada a São Paulo para fazer caçoada do carioca, sabe? Ele estava numa laboratoriozinho com o Dobzhansky e os microscópios estudando as moscas. Daí ele diz que eu cheguei, abri a porta e disse “eu sou o Frota-Pessoa.” É caçoada, para dizer que o carioca é muito falante. Então, dali a dez minutos eu estava no microscópio vendo pela primeira vez vendo uma drosófila, para conferir a chave de classificação. “Tem duas antenas?”, “tem”, “tem isso, tem aquilo?… Então é a fulana de tal.” Isso que eu fiz lá na montanha com as hortênsias, passei 15 dias em São Paulo fazendo com as drosófilas. O trabalhinho depois foi publicado num folheto do departamento que ajudou muito os geneticistas a estudar drosófilas. Então eis aí como me engajei… Essa história de “eu sou o Frota” foi o primeiro ato de assumir a posição de pesquisador. A essa altura, então, tive uma bolsa para os Estados Unidos.

A bolsa era da Fundação Rockefeller?
Era. A Fundação Rockefeller foi uma maravilha para o Brasil e para o desenvolvimento da ciência, e vários de nós, em genética e em outras especialidades, fomos para os Estados Unidos graças a ela. Para mim foram dois anos de trabalho lá com Dobzhansky na Columbia University em Nova York e quando eu terminei a bolsa era drosofilista. Quando estava para vir para o Brasil, recebo um chamado da União Pan-americana, de Washington (Organização dos Estados Americanos). E o cara falou comigo o seguinte: queria me contratar. Eu digo “mas como,” estou terminando aqui a bolsa com drosófila…,” ele disse “é para a seção de ensino,” “mas como assim??… Então, agora a história emenda para trás assim: algum tempo antes, Anísio Teixeira resolvera publicar livros didáticos e me convidou para publicar a biologia…”

Aquele livro em que tantos de nós brasileiros desde os anos 1950 estudamos biologia.
Então! Você vê, fiquei num dilema. Eu estava recém casado, a Bete precisava de um tempinho para se adaptar à mudança de país. Fiquei atrapalhado, mas terminei indo lá. Eles queriam fundar um departamento para melhorar o ensino na América Latina. Então eu disse para o camarada que era o diretor lá desse setor o seguinte: “olha, estou terminando uma bolsa para voltar para o Brasil, e lá desenvolver um livro de biologia” – a idéia do Anísio – “para professores. De modo que eu tenho que ir.” Aí o cara falou “não, mas espera aí, você pode fazer isso aqui.” Então passei dois anos em Washington e consegui terminar o livro didático graças a isso.

Ou seja, depois da Columbia University o senhor ficou dois anos em Washington.
É. Eu fui contratado porque eles achavam que tinha que ter alguém responsável pela parte de educação. E, como falei que tinha um livro para escrever, ele achou ótimo. Aliás, foi engraçado porque eu comecei a ir como funcionário público, entrava às 8 horas, saía às 18, e aí eu digo “pô, mas eu estou à toa aqui, não estou fazendo nada, porque o cara não me deu nenhuma tarefa.” Aí fui falar com ele, “olha, estou aqui para promover o desenvolvimento da ciência no ensino, e eu não tenho ainda nada para fazer. Como é que eu faço?” Então apresentei um programa para ele, de que eu ia organizar um curso na Nicarágua, por exemplo, formar 15 professores e botar em 15 países… Ele disse “ah, está ótimo e tal,” fiquei mais contente. Dali a uma semana, não aconteceu nada, eu voltei a ele, “olha, estou há uma semana e não fiz nada até agora porque estou precisando saber se o senhor tem verba para…,” “ah, tem, está chegando a verba, não sei o quê…” Ele me segurou uns três meses sem eu fazer nada. Ele não tinha verba. Então ficou nesse chove-não-molha, até que um dia falei “escuta, eu estou aqui sem fazer nada e não estou servindo bem à instituição que está me pagando. Tenho um livro para escrever sobre ensino de biologia para professores secundários, pode ser do Brasil ou da América Latina toda.” “Que maravilha! É isso mesmo que você vai fazer.” Então tive uma sorte danada. O resultado foi que fiquei os dois anos terminando o livro que tinha prometido para o Ministério da Educação do Brasil.

O senhor ainda tem um exemplar da primeira edição desse livro aí?
Sim, ele se chamava Biologia na Escola Secundária. Fizemos uma edição no ministério, que ele próprio distribuiu, depois mudou o governo e o editor foi pedir para o ministério deixá-lo fazer como um livro comum. Então ele publicou várias edições.

Quando o senhor voltou?
No fim daqueles dois anos esperando a tal verba que nunca chegou, me apareceu o Pavan e ele queria simplesmente me convidar para vir para a USP. De novo fiquei naquele “vou, não vou,” acabou que eu fui. Então voltei para o Rio e dali a uns meses mudei para São Paulo. Já para a USP, já no laboratório do Dreyfus. E professor no curso de ciências biológicas. Cheguei e comecei com uma questão, que a essa altura eu, como outros, como o Newton Freire-Maia, não podíamos evitar. Era a seguinte: “Se você está estudando a genética de uma mísera mosquinha, por que não estuda a do homem?” Então, vários de nós mudamos de casaca. Inclusive ele e eu. Ele ainda foi para Curitiba e fundou o laboratório de genética de drosófila, mas logo depois começou a trabalhar com a parte humana e o mesmo aconteceu comigo aqui.

Como foi essa passagem?
Foi muito simples e rápida. Porque logo que cheguei aqui eu disse “poxa, o que eu faço agora? Estou com duas especialidades.” Porque no Rio já tinha mexido com genética humana. Já tinha visitado, perto de Brasília – que não existia naquele tempo -, uma comunidade com bócio endêmico, e eu tinha certas idéias sobre isso, o que determina o bócio endêmico e tal. Todavia, fiz meu doutorado com genética de drosófilas. Daí por diante minhas pesquisas se voltaram para a parte de genética médica, e como eu tinha formado em medicina também em 1941, isso me facilitou desenvolver o aconselhamento genético.

Algo que era totalmente novo, não?
É. Freire-Maia foi o primeiro, ele se interessou pelo caso de uma doença genética em Curitiba, abandonou as drosófilas e se tornou praticamente o fundador da genética médica no Brasil. Depois, com uma pequena diferença de tempo, botei para funcionar aqui o laboratório de genética médica. E aí, como em qualquer lugar em que se tem uma idéia nova, vieram os meus discípulos, que agora já têm os seus, como se fossem meus netos.

Mas por que o senhor se interessou pelo aconselhamento genético? A idéia era estudar as alterações, as doenças genéticas resultantes genéticas, os riscos de determinados casamentos, e aí, como o senhor era médico, quis também aconselhar as pessoas no sentido de explicar para eles…
Não é porque eu era médico, não. Se eu não fosse médico, teria seguido a mesma trilha, como foi o caso do Newton Freire-Maia. Mas o laboratório de aconselhamento genético foi a grande invenção, porque aí atraíamos para o ambulatório as famílias com membros com doenças aparentemente genéticas.

E quais eram as doenças que naquele momento o senhor mais imaginava estudar?
Ah, bom… Mongolismo e uma série de doenças raras, porém importantes, que foram sendo objeto de trabalhos nossos e dos outros grupos. Havia o trabalho de descrever – olha a velha sistemática aí, a taxonomia – aquelas entidades novas.

Em uma entrevista que nos deu (Pesquisa FAPESP, edição 110, abril de 2005), Mayana Zatz elogiou muito sua especial capacidade, como professor, de levar o jovem pesquisador a resolver problemas, e também seu trato pessoal com os pacientes no aconselhamento genético, No fundo, tratava-se nos dois casos de levar as pessoas a refletirem sobre problemas, não é?
É, exatamente. E não é tanto com a pessoa que está com o risco que falamos. A que está com o risco já é o objeto dos nossos cálculos de risco. Em geral é o seguinte: a mãe, o pai, o tio ou outro parente levam até nós uma criança que tem um distúrbio esquisito, uma coisa meio incógnita, às vezes, e se quer saber o risco de isso ocorrer outra vez com um outro filho. O aconselhador genético, tem que desenvolver, assim como eu, a habilidade de explicar com clareza o que é isso e aquilo, sem falsear o assunto.

Eu vou voltar um pouquinho à divulgação científica. O senhor nunca recebeu por seu trabalho na imprensa?
A contribuição da imprensa para meus ganhos era em geral, irrisória, mas me dava muita satisfação. Minha fonte de renda principal era o magistério.

De 1938 até 1951 sua colaboração foi ininterrupta e inclusive ela se dá por largo período paralelamente em A Manhã e no Jornal do Brasil. Como o senhor arranjava tempo para tanta coisa?
Isso é o que eu me pergunto. O que eu queria lhe mostrar é um suplemento científico de um dos jornais que durou três anos mais ou menos. Então eis aqui: o Ciência para todos, que saía em todo último domingo do mês. Bernardo Esteves acabou de fazer uma dissertação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre isso. Aparentemente, se encantou com o assunto.

O senhor se aposentou da USP em 1982, mas continuou trabalhando lá.
A essa altura eu tinha começado a pesquisar sobre genética psiquiátrica: até que ponto as doenças mentais são determinadas por genes ou pelo ambiente ou as duas coisas.

Qual a doença que mais lhe interessava?
Meu interesse era principalmente pela psicose maníaco-depressiva, que hoje chamam transtorno bipolar, porque a pessoa fica por um período muito excitada e passa outro deprimida, assim através do tempo. E tinham aparecido, na época novos estudos para tratamento da doença. E eu, então, usei um método da genética, que é procurar nas famílias como se apresenta a doença. Encaminhei em alguns artigos uma pesquisa em que estudávamos o paciente e a sua família. Em alguns casos só os pacientes tinham um sintoma, isolado e, em outros casos, várias outras pessoas da família apresentavam sintomas. E entre estes o alcoolismo era uma manifestação importante.

Daí o senhor concluiu…
Não posso falar dogmaticamente, porque depende do tamanho da amostra, mas havia uma sugestão de que realmente nas famílias em que se registravam mais casos de alcoolismo era mais freqüente também o transtorno bipolar. Isso precisaria de mais pesquisa.

Mas o senhor chegou a defender que a psicose maníaco-depressiva tinha bases genéticas, efetivamente?
Claro.

O senhor escreveu também um livro importante sobre esquizofrenia.
É uma revisão geral sobre esquizofrenia em que eu escrevo um artigo e outros colegas colaboradores psiquiatras também escrevem. Mas para finalizar com divulgação científica, queria dizer que quando vim para São Paulo praticamente parei de escrever para jornais. Para mim, o grande campeão mesmo disso foi o José Reis. Ele foi o fundador da divulgação científica no Brasil. Foi o criador de um estilo apropriado para a divulgação científica.

Qual a sua última contribuição em matéria de livros didáticos?
É a Coleção Os Caminhos da Vida, da Editora Scipione, em que colaboraram Cintia Fragoso e Maria Angélica Santini. Destinada ao ensino médio, ela é formada por três volumes e um manual do professor: 1. Estrutura e Ação; 2. Ecologia e Reprodução; 3. Genética e Evolução; e o Manual do Professor. Em sintonia com as propostas dos PCNs, a coleção privilegia temas atuais referentes à vida do estudante e do país. Os textos apresentam estratégias renovadoras que incentivam a autonomia dos estudantes e sugerem experimentos, projetos, vídeos e pesquisas na Internet.