PESQUISA INOVATIVA EM PEQUENAS EMPRESAS (PIPE)

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Eficiência no campo

Empresa desenvolve equipamentos que controlam melhor o corte da cana-de-açúcar e permitem pulverizar e irrigar outras culturas com mais precisão

YURI VASCONCELOS | ED. 124 | JUNHO 2006

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Kit pata trator do sistema de pulverização: aplicação balanceada de defensivos agrícolas

Até o final deste ano os usineiros brasileiros poderão contar com uma ferramenta inovadora para melhorar a produção de seus canaviais. Pesquisadores da empresa Enalta Inovações Tecnológicas, de São Carlos, e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) criaram um monitor de produtividade que pode ser adaptado em máquinas colhedoras de cana-de-açúcar. O sistema gera informações que permitem um melhor gerenciamento da área plantada e contribuem para elevar a produtividade por hectare. Com um sistema GPS, sigla de Global Positioning System, instalado na máquina, que faz o posicionamento geográfico (latitude, longitude e altitude) por satélite, os dados mostram, por exemplo, a produção da área colhida.

“O equipamento oferece ao produtor uma radiografia precisa de sua propriedade, identificando onde a produtividade é maior ou menor. Embora existam no mercado monitores para colhedoras de grãos, como soja, milho e trigo, esse é o primeiro voltado exclusivamente para a cultura de cana-de-açúcar”, afirma o engenheiro agrônomo Domingos Guilherme Cerri, pesquisador da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp, que coordenou o projeto.

O sistema encontra-se em estágio final de desenvolvimento e dois protótipos estão em testes em colhedoras das usinas Catanduva e São Domingos, ambas no município de Catanduva, no interior paulista. Ele é composto por um kit e uma série de sensores instalados nas máquinas que identificam, por exemplo, o peso da cana cortada, que passa na esteira transportadora da máquina, para determinar o fluxo colhido e medir a quantidade de matéria-prima a ser lançada no veículo de transbordo. Os sensores também revelam a velocidade de deslocamento da colhedora, a condição de corte de base da cana e o funcionamento da esteira, entre outros dados do processo, reduzindo erros provenientes de paradas indesejadas, troca do veículo de transbordo e manobras realizadas ao longo da colheita.

Um software instalado no computador de bordo da colhedora gerencia todas as informações e gera um mapa da produtividade do canavial. “Creio que essa tecnologia, inédita no mercado, dará uma importante contribuição ao sistema de gerenciamento da cultura e permitirá que a produção de cana, tradicionalmente mais atrasada do que a cultura de cereais, tenha um avanço significativo”, diz o engenheiro agrícola Paulo Graziano Magalhães, professor da Feagri, que também participou do desenvolvimento do sistema.

Com as informações geradas, será possível cruzar mapas de produtividade com informações específicas do solo para identificar problemas de baixa produção, permitindo que os produtores adotem um manejo diferenciado para corrigir o problema. O equipamento já foi patenteado e custará entre R$ 20 mil e R$ 25 mil – valor relativamente pequeno diante do custo de uma colhedora, em torno de R$ 700 mil. Ele poderá ser instalado diretamente nas fábricas de colhedoras ou comprado avulso pelos donos de usinas para equipar sua frota.

Sensores sem fio instalados no campo: sistema de irrigação de precisão

Contatos gerais
“Estamos sentindo que é um produto com boas perspectivas comerciais porque não temos concorrentes no mercado. Todos os meses recebemos telefonemas de produtores querendo saber em que estágio está o projeto, mas só queremos lançá-lo quando ele estiver totalmente confiável”, explica o engenheiro elétrico Cleber Rinaldo Manzoni, dono da Enalta. “Existe perspectiva de venda para outros países da América do Sul, onde a cultura de cana é forte, e já estamos mantendo contato com os fabricantes de colhedoras, como a Case New Holland e a John Deere”, diz Manzoni.

O monitor de produtividade para cultura de cana-de-açúcar é apenas um dos sistemas criados recentemente pela Enalta, uma empresa de base tecnológica voltada para o desenvolvimento de equipamentos de automação para máquinas agrícolas e de sistemas de gerenciamento de produção no campo. O forte da empresa são os equipamentos para a cultura de cana-de-açúcar, mas ela também fornece produtos e sistemas para as áreas florestal e de fruticultura.

Desde que foi criada, em 1999, a Enalta participa de quatro projetos (um deles em fase inicial) aprovados no Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP. O projeto relativo ao desenvolvimento de um controlador automático de pulverização e de um sistema de informações geográficas para agricultura foi finalizado em outubro do ano passado. “O apoio da FAPESP foi muito importante para o nosso crescimento, pois no começo não tínhamos faturamento e dependíamos basicamente das bolsas da Fundação”, diz Manzoni. “Começamos com duas pessoas – eu e o meu ex-sócio – e hoje temos 20 funcionários registrados, além de 14 bolsistas. Nosso faturamento tem crescido por volta de 30% ao ano e chegou a R$ 1 milhão em 2005”.

O crescimento da empresa foi, em parte, devido ao estabelecimento de parcerias com universidades e institutos de pesquisa, como Unicamp, Universidade de São Paulo (USP), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Valendo-se da parceria com pesquisadores dessas instituições, a Enalta conseguiu desenvolver uma vasta linha de equipamentos voltados para as áreas de colheita, pulverização e irrigação agrícolas. “Estamos terminando produtos para os setores de plantio e corretivos de solo. Com isso, teremos equipamentos destinados a todas as fases da produção agrícola. Queremos oferecer um amplo leque de produtos integrados, compatíveis entre si”, afirma Manzoni.

O sistema de gerenciamento para pulverização de precisão finalizado em 2005, por exemplo, possibilita o perfeito controle da pulverização e uma aplicação balanceada dos defensivos agrícolas utilizados para o controle de pragas, como insetos, ervas daninhas e fungos. “Atualmente, quando há uma infestação na lavoura, o agrônomo visita o local e calcula visualmente a quantidade de agroquímico a ser aplicado. Nosso sistema, ao contrário, permite a aplicação otimizada, conforme a necessidade de cada área da plantação. Assim, áreas mais atingidas por pragas recebem mais defensivos, enquanto as menos afetadas, menores quantidades do produto”, destaca o engenheiro eletrônico Ivan Rogério Bizari, funcionário da Enalta, que coordenou o projeto de pulverização. O sistema trabalha em conjunto com um sistema de informações geográficas (SIG), um software também desenvolvido pela Enalta, que fornece um mapa da cultura conforme o grau de infestação.

Para a elaboração do mapa, um técnico agrícola percorre a plantação munido de um aparelho GPS e um palmtop fazendo a demarcação das manchas de infestação. Essas informações são carregadas no SIG e analisadas por um agrônomo. Em seguida os dados são enviados para o controlador de pulverização, que faz a aplicação automaticamente, conforme a necessidade da área e sem a interferência do condutor do trator de pulverização. Sensores meteorológicos instalados na máquina permitem que ele faça, instantaneamente, correções na aplicação, conforme a intensidade da evaporação e da velocidade do vento. O equipamento custa cerca de R$ 22 mil e está disponível para compra desde o início deste ano, período em que foram vendidas três unidades. Quem quiser adquiri-lo em conjunto com o SIG, útil também para o mapeamento da colheita e outras fases da produção, terá que desembolsar mais R$ 15 mil. De acordo com Cleber Manzoni, não existem produtos semelhantes no mercado. “A vantagem do nosso sistema de pulverização, projetado para controlar todos os parâmetros da operação, é que, ao otimizar a aplicação do agrotóxico, ele reduz a quantidade utilizada do produto, levando à redução de custos e gerando importantes benefícios ambientais”, diz Bizari.

Irrigação de precisão
Outro projeto da Enalta, desta vez em parceria com a Embrapa Instrumentação Agropecuária, também de São Carlos, é um sistema de irrigação de precisão, batizado de Irrigap. A agricultura irrigada é responsável por mais de 40% das colheitas mundiais e ocupa em torno de 18% das áreas agrícolas do planeta. No Brasil é irrigada apenas 4% da área plantada, o que demonstra ser alto o potencial de crescimento de produção e de melhoria na qualidade do produto agrícola a ser explorado com o uso da irrigação de precisão. A grande vantagem do Irrigap quando comparado aos processos tradicionais é a economia de água e de energia que proporciona redução de custos.

“Queremos levar o conceito da agricultura de precisão para a irrigação, que é a aplicação espacial variada de água na cultura. Estamos criando um sistema de acordo com as demandas de cada pedacinho da lavoura”, explica o engenheiro eletricista e pesquisador da Embrapa André Torre Neto. Para ele, diversos fatores contribuem para a necessidade diferenciada de irrigação numa mesma plantação, como variações no relevo, diferenças da textura do solo, insolação, estágios de desenvolvimento da planta e do sistema radicular (da raiz). “No sistema de irrigação convencional, esses fatores não são levados em conta”, afirma Torre Neto.

A plataforma desenvolvida pela parceria entre a Enalta e a Embrapa é composta por uma série de sensores sem fio que captam basicamente informações sobre umidade e temperatura. Eles são instalados no campo e fornecem informações sobre a variabilidade espacial da quantidade de água necessária. No sistema de automação de irrigação tradicional, a necessidade hídrica de determinado talhão (uma das unidades de produção de uma fazenda) é resultado da aplicação de poucos sensores, a partir dos quais se calcula um valor médio da vazão da água. “Na irrigação de precisão, nossa idéia é instalar sensores a cada 50 metros, dispostos no formato de uma grade, para conhecermos a real necessidade de água em cada ponto, criando assim um mapa da necessidade hídrica do talhão. A partir daí podemos estruturar o sistema hidráulico de irrigação para atender de forma diferenciada cada uma das zonas de manejo”, diz Torre Neto. Para cada 25 hectares de plantação, informa o pesquisador, serão instalados cem sensores.

Uma unidade piloto do sistema está sendo implantada numa plantação de laranja na Fazenda Maringá, da Fischer Agropecuária, no município paulista de Gavião Peixoto. Até o final do ano ele estará totalmente instalado e operacional, com os cem sensores previstos no projeto. “No início de 2007 faremos os mapas de necessidade hídrica e as análises para a criação das diversas zonas de manejo. A avaliação do sistema, com dados sobre a economia de água e energia, vai ocorrer em 2008. Até lá a Enalta colocará no mercado vários subprodutos para monitoramento e automação da irrigação, como o sensor de umidade que agora será fabricado no Brasil, além de outros componentes”, afirma Torre Neto. A estimativa é de o índice de nacionalização do sistema de irrigação da empresa atingir a marca dos 50%.

Os projetos
1. 
Desenvolvimento de um monitor de produtividade de cana-de-açúcar para obtenção de mapas de produtividade para colhedoras autopropelidas (nº 04/08777-5); Modalidade Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe); Coordenador Domingos Guilherme Pellegrino Cerri – Unicamp/Enalta; Investimento R$ 313.248,00 (FAPESP)
2. Sistema para gerenciamento da atividade “pulverização” na agricultura com tecnologia de aquisição automática de dados no campo (nº 99/11662-5); Modalidade Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe); Coordenador Cleber Rinaldo Manzoni – Enalta; Investimento R$ 148.454,12 (FAPESP)
3. Desenvolvimento de plataforma tecnológica para irrigação de precisão em culturas perenes (nº 03/07998-5); Modalidade Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe); Coordenador André Torre Neto – Embrapa/Enalta; Investimento R$ 352.639,10 e US$ 30.505,00 (FAPESP)

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