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Memória

Movido a paixões

José Leite Lopes, morto aos 87 anos, deixa vasto leque de realizações

ARQUIVO FAMILIARLeite Lopes explica predição do bóson neutro em 1958ARQUIVO FAMILIAR

Aos 68 anos, em 1986, o físico José Leite Lopes recebeu uma homenagem da Universidade Federal de Pernambuco e, ao agradecer, fez um discurso cujo título resumia sua vida e suas paixões, “Pernambuco, ciência e cultura”. Os amigos dizem que o estado natal era uma referência constante, não importava se estivesse em Princeton, Paris, Cidade do México ou Rio de Janeiro. A ciência foi amor à primeira vista, cultivada desde sempre e exercida no mais alto nível. A cultura foi conseqüência de uma vida passada entre homens e mulheres de espírito e algo que ele se empenhou em disseminar onde quer que estivesse. Ao morrer aos 87 anos na manhã de 12 de junho em razão de falência múltipla de órgãos, o físico deixou uma obra científica consistente e um vasto leque de realizações institucionais.

A carreira de Leite Lopes começou a despontar ainda no Recife, onde nasceu, durante seu curso de química industrial na Escola de Engenharia de Pernambuco, concluído em 1939. Influenciado pelo professor Luiz Freire, decidiu estudar física na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 1942, já formado, começou a trabalhar no Instituto de Biofísica a convite de Carlos Chagas Filho. Mas só por alguns meses, até se transferir, com a ajuda de Chagas, para o estimulante ambiente criado pelo físico ucraniano naturalizado italiano Gleb Wataghin em São Paulo. Na Universidade de São Paulo (USP) se reuniam talentos como Mário Schenberg, Marcello Damy de Souza Santos, César Lattes, Paulus Aulus Pompéia, Oscar Sala e Roberto Salmeron, entre tantos outros. “Todos vinham para esse ambiente criado por Wataghin. Veio o Lattes, veio muita gente e foram se produzindo coisas novas”, contou para Pesquisa FAPESP em entrevista publicada em novembro
de 2000 (edição 59).

Lopes era filho de José Ferreira Lopes e Beatriz Coelho Leite. O pai era dono de uma loja de ferragens no Recife. A mãe morreu três dias depois de seu nascimento atingida pela gripe espanhola, o que levou Leite Lopes e os irmãos Arlindo e Abelardo a serem criados pela avó paterna, Claudina. Quase todos os cursos que o físico fez foram bancados por bolsas conseguidas em indústrias e fundações do Brasil e do exterior – algo importante, dada a falta de recursos da família. Em 1944, Lopes conseguiu mais uma delas, dessa vez do governo norte-americano, e foi para a Universidade de Princeton concluir a pós-graduação iniciada na USP. Lá assistiu a seminários de alguns dos maiores cientistas da época, como Albert Einstein, o matemático suíço Joseph Maria Jauch e o físico austríaco Wolfgang Pauli (Nobel de 1945), um dos fundadores da mecânica quântica. Dois anos depois doutorou-se sob a orientação do próprio Pauli e, na volta ao Rio, foi nomeado professor de física teórica na FNFi.

Foi nesse período que Leite Lopes se deslocou para o centro da política científica brasileira – e lá permaneceu por várias décadas, sem abandonar a pesquisa e as aulas. Em 1947 e 1948, César Lattes ganhou notoriedade com descobertas sobre o méson pi feitas em colaboração com físicos da Inglaterra, da Itália e dos Estados Unidos. Lattes já pensava em criar um centro de pesquisa em física no Rio e contava com o apoio entusiasmado de Lopes, amigo e interlocutor freqüente. Em 1949 os dois ajudaram, com outros pesquisadores, a fundar o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), com o auxílio de João Alberto Lins e Barros, um dos líderes da Revolução de 30 e, naquele momento, ministro do Itamaraty. Participaram também da articulação para criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 1951.

Nos anos seguintes, Lopes continuou trabalhando e publicando. Em 1953, influenciado pelo artista plástico Adolfo Soares, começou a pintar. Embora não tivesse religião, as catedrais e igrejas barrocas exerciam grande fascínio sobre ele e estão presentes em muitas de suas telas. Em 1956 passou uma temporada no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), nos Estados Unidos, onde ficou até 1957. Nesse período, morreu Carmita, sua primeira mulher, com quem teve dois filhos, José Sérgio e Sylvio Ricardo. No ano seguinte, já no Brasil, publicou seus trabalhos mais importantes.

ARQUIVO FAMILIARLeite Lopes com Cesar Lattes, um dos mais antigos companheiros de lutasARQUIVO FAMILIAR

Na entrevista de 2000 à Pesquisa FAPESP, o cientista explicou qual de suas descobertas ele considerava mais significativa: “Fiz um trabalho em 1958 em que propus uma relação entre o bóson e o fóton, e a partir daí uma igualdade entre a interação fraca e a constante eletromagnética que é dada pela carga do elétron. Quando fiz essa hipótese, obtive o valor da massa dos bósons w+ e w-, na ordem de 60 massas do próton. Isso foi novidade, e o C. N. Yang [físico chinês da Universidade de Princeton, Nobel de 1957] não acreditou. Ele achava que a massa do bóson seria apenas um pouco superior à do próton. Propus no mesmo trabalho a existência de um bóson neutro, que hoje se chama Z0 (z-zero), que se devia buscar na interação de elétrons com nêutrons”. Esse bóson neutro predito por Lopes só foi descoberto na década de 1980. “Mas pouca gente tinha lido meu trabalho, embora tivesse sido editado na Nuclear Physics, uma publicação importante”, disse Lopes.

Um de seus ideais era a disseminação de um forte ensino de física na América Latina. Em 1959 fundou com Marcos Moshinsky, do México, e Juan José Giambiagi, da Argentina, a Escola Latino-Americana de Física, com atividades anuais, por rotação, nos três países. Também coordenou a comissão de conselheiros convidados para estruturar a física na futura Universidade de Brasília, que começaria a funcionar em 1962, embora não tenha trabalhado lá. Com o golpe militar de 1964, Lopes aceitou o convite para ser professor visitante na Faculdade de Ciências de Orsay, em Paris. Voltou em 1967 para organizar o novo Instituto de Física da UFRJ. A tranqüilidade não durou muito: em 1969 foi um dos cassados pelo Ato Institucional nº 5. Com sua segunda mulher, Maria Laura, e a filha Ângela, partiu para a Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, nos Estados Unidos. Nos anos seguintes deu aulas na Universidade Louis Pasteur, em Estrasburgo, na França, na Universidade Central da Venezuela e no México.

Em 1974, foi abolida uma velha lei que proibia estrangeiros de se tornarem professores titulares em universidades francesas. A nova lei foi assinada pelo presidente Giscard d’Estaing meses antes do fim do contrato de Lopes como professor associado e a Universidade Louis Pasteur pediu sua promoção a professor titular com contrato permanente. Ocupou a vice-diretoria do Centro de Pesquisas Nucleares, órgão do Centro Nacional de Pesquisa Científica francês (CNRS, na sigla original), onde ficou até 1978. Só voltou de vez ao Brasil em 1986 convidado pelo então ministro da Ciência e Tecnologia, Renato Archer, para dirigir a mesma instituição que ajudou a fundar, o CBPF.

Leite Lopes escreveu 22 livros, mais de 80 artigos científicos e uma centena de textos sobre educação e política científica. “A força que ele tinha para fazer política científica vinha de sua capacidade como cientista”, atesta Amélia Hamburger, pesquisadora do Instituto de Física da USP com trabalhos em história da ciência. Amigo de Lopes por 60 anos, o também físico Roberto Salmeron ressalta a influência exercida por ele sobre a física brasileira. “Entre os físicos de minha geração foi um dos que desempenharam papel extremamente importante, incontestável, no desenvolvimento de nossa física, ainda incipiente quando iniciamos nossas carreiras”, testemunha.

De acordo com Salmeron, sua influência se fez sentir em vários aspectos. Como professor, ministrava excelentes cursos e escreveu bons livros didáticos. “Alguns foram os primeiros sobre física moderna escritos em português.” Foi também um bom orientador de jovens em início de carreira e como animador de programas de ensino e de pesquisa. “No início das atividades do CBPF, teve papel fundamental no convite a eminentes físicos estrangeiros para passarem temporadas no Brasil e no intercâmbio do instituto com físicos de outros estados brasileiros”, conta.

Outro amigo de Lopes, Francisco Caruso, pesquisador do CBPF e editor de José Leite Lopes, idéias e paixões (Editora CBPF, 1999), guardou uma imagem mais pessoal do físico. Em texto publicado na Folha de S.Paulo, Caruso escreveu: “Se devesse defini-lo com apenas um adjetivo, escolheria apaixonado. Sua paixão era transcendente; ultrapassava em muito as fronteiras da ciência, espalhando-se pela educação, pela cultura, pela arte e, por que não dizer, pelas mulheres e pela vida. Foi essa paixão que sempre nutriu seu intelecto vivaz e contagiante”.

Leite Lopes: o poliedro e o albatroz

Amós Troper

Leite Lopes é uma figura poliédrica, multifacetada.

Físico teórico dos mais brilhantes de sua geração, é também um grande professor que através de seus livros influenciou toda uma geração de cientistas. Tem sido, ademais, ao longo de sua vida, agitador cultural e político, combatendo o bom combate visando à implantação de um ambiente de pesquisa científica no Brasil – chave para sua verdadeira emancipação nacional.

Leite Lopes é um apóstolo do homem total concebido no Iluminismo, interligando o trabalho científico, político e artístico numa atividade coerente e unificada.

A sua pintura não é um simples pendant de sua atividade científica; antes, se constitui numa parceira entre arte e ciência, visando exaltar a civilização e a vida, bradando contra a “desespiritualização” moderna e a morte.

A pintura de Leite Lopes possui essencialmente dois leitmotiven – as jangadas e as catedrais que se interpenetram – a refletirem experiências fundamentais de sua vida: a sua infância e adolescência passadas no Recife e o seu exílio na maturidade em Estrasburgo.

Nos seus trabalhos abstratos, as cores vivas refletem a luz firme do Recife, notando-se aí uma furtiva lembrança da fase parisiense de seu conterrâneo Cícero Dias.

Não se pense que seus quadros se bastam a exibir um colorismo fácil e superficial. No cadinho da impaciência e do desespero, pelo fracasso da sonhada Utopia, Leite Lopes forja uma Obra em que se insinuam maravilhas e mistérios do mundo dos vivos, vistos das alturas como por um albatroz baudelairiano.

Amós Troper é pesquisador do CBPF. O texto consta do catálogo da exposição Construção e desconstrução: o mundo cósmico de Leite Lopes, realizada na Academia Brasileira de Ciências, no Rio de Janeiro, em 2003.

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