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LITERATURA

Uma mineirice toda universalista

Nos seus 80 anos, o poeta, ensaísta, pesquisador e jornalista Affonso Ávila vence prêmio

Affonso Ávila: obra e ação das mais importantes da cultura contemporânea, de acordo com Antonio Candido

gláucia rodriguesAffonso Ávila: obra e ação das mais importantes da cultura contemporânea, de acordo com Antonio Candidogláucia rodrigues

“Te alerta poeta que a p/i te espreita/ desestruturou o discurso e embaralhou as letras/ e aleart paeto que o pc te recrimina/ barroquizou a linguagem e descurou da doutrina/ te alaert peota que o sni te investiga/ parodiou o sistema e ironizou a política.” Esse trecho, do poema Patrulha ideológica, dá uma visão do trabalho notável do poeta, ensaísta, pesquisador e jornalista Affonso Ávila: ousadia formal, humor, engajamento, perfeição estética e um sentido brasileiro de barroco que reúne o local ao universal com maestria. Difícil reconhecer no autor desses versos tão intensos, em conteúdo e forma, o editor octogenário (anos recém-completados) da vetusta revista de pesquisa Barroco. Essa discrição, aliás, é sua marca, que o faz ser reconhecido pelos pares, mas, infelizmente, pouco conhecido pelos leigos.

“Discretamente, de maneira incessante e tenaz, você construiu uma obra e desenvolveu uma ação que aparecem como uma das mais importantes da nossa cultura contemporânea. Sobretudo levando em conta a sua capacidade de cultivar ao mesmo tempo as artes do poeta, os deveres do intelectual e a concentração erudita do estudioso. Você teve a sabedoria, em nosso país, de dispersão e fôlego curto, de se concentrar para aprofundar”, afirmou o crítico Antonio Candido em carta a Ávila, elogiando, rasgadamente, a sua enfim lançada integral poética, Homem ao termo (UFMG, 669 páginas), celebração por seus 80 anos, a maioria de produção contínua e ainda não interrompida. “Affonso Ávila é um mestre. Em Minas, é o cara que consegue fundir a tradição, a cabeça no ano 2000. Barroco-ficção científica. Ele mistura futurismo com necrofilia, numa forma única. Ele é dessa geração fantástica que o Brasil produziu neste século”, escreveu sobre ele o colega de métier, Paulo Leminski. Quanta admiração por um criador de que se ouve falar tão mansamente? E que, modesto, gosta de definir sua obra nos seguintes termos: “O poeta declarou que toda criação é tributária de outras criações no permanente processo de linguagem da poesia/(…)/ O poeta é um deslavado apropriador de linguagens/ O poeta é um plagiário”.

Nascido em Belo Horizonte, em 1928, Affonso Celso Ávila publicou seu primeiro livro, O açude e sonetos da descoberta, em 1953. “Mineiro de poucas palavras no verso e na vida, sempre voltado para as suas ancestrais raízes em Itaverava, nunca desatento à trama iluminista dos Inconfidentes de Vila Rica como barroco das igrejas e cidades setecentistas do Ciclo do Ouro, começou a poetar, como a maioria de seus companheiros da geração de 1945, no berço esplêndido de um estilo rico em mergulhos introspectivos”, observou o crítico Benedito Nunes. Então era auxiliar de gabinete do na época governador de Minas Juscelino Kubitschek e colaborador de jornais como Diário de Minas, Estado de Minas e a revista Tendência, estruturada por Affonso e que congregava a intelectualidade mineira da época. Acompanharia JK na sua campanha à Presidência, quando começou a se aproximar dos poetas concretistas paulistas, entre os quais os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari. Mas Minas seria um eterno paradigma de sua produção, sem que esse amor pelo estado natal fizesse dele um regionalista. “Minas é um microcosmo do Brasil e há uma cortina de ferro em Minas de 300 anos que precisa ser rompida e isso só acontecerá quando o estado tiver uma voz nacional. Você não precisa ler um jornal do Rio ou de São Paulo para fazer sua cabeça. Você tem que ter cabeça própria”, acredita Affonso.

Sua obra é um mergulho nessa dicotomia entre a Minas “conservadora” e as questões universais. “Nos meandros da dita mineiridade, procurei identificar as raízes de Minas, a dicotomia mineira, os lados contrastantes que há na alma mineira, que às vezes é aberta, esperançosa, progressista, livre; às vezes, é reacionária, rancorosa, repressiva, obscurantista. Procurei, então, na poesia e no ensaio, sublinhar esses dois pólos do paradoxo mineiro”, explica. Nisso é “filho” da geração de 45, embora menos nas questões formais (à exceção de sua paixão pelo soneto) e mais nas políticas, na sensibilidade pelos assuntos polêmicos da sociedade brasileira. “A depuração ascética na arte de escrever só veio a delinear-se em sua obra no período histórico ‘quente’, entre 1954 e 1967, ao cabo de uma busca teórica, em torno do nexo da palavra poética com a ação política, então demandadas pela pressão ideológica da realidade”, anota Nunes. Daí sua ação na revista Tendência, plena de referenciai sociológicos acrescidos de outros extraídos da realidade próxima, mineira, “em estado de alienação econômico-política, mas feita modelo ou miniatura da realidade brasileira maior, a ser reconhecida, assimilada, recriada e transformada pela palavra poética”. A poesia, porém, nunca foi utilizada por Affonso como mero veículo político; antes era parte do “processo de descoberta, de reformulação da realidade”, como escreveria em 1963, como um dos signatários do Manifesto da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, também assinado pelos concretos paulistanos, que se viam como engajados.

O poeta também edita a revista Barroco e é pesquisador do tema. Aos 80 anos, segue produzindo

gláucia rodriguesO poeta também edita a revista Barroco e é pesquisador do tema. Aos 80 anos, segue produzindogláucia rodrigues

A chegada da ditadura militar fez com que Ávila se voltasse cada vez mais para o grande referencial a seu redor, o Barroco mineiro, que, nota Nunes, “foi redescoberto não apenas como estilo artístico, mas expandido no que teve de estilo de vida, insinuante desde o século XVII, de concepção do mundo e de norteamento poético, em especial por intermédio do livre uso do jogo verbal”. O encontro com o Barroco se deu quando da criação dos livros Código de Minas e Resíduos seiscentistas, escritos entre 1967 e 1969. “Acho que é uma questão de gênese, de cultura familiar, tribal, já que sou de uma região marcada pela formação histórica mais remota de Minas, muito impregnada do espírito barroco. Pesquisava um apoio documental para certo tipo de pensamento meu na área de poesia e esbarrava com uma série de informações e de provas de que havia alguma coisa a mais para estudar na linha de nossa ancestralidade”, explica. Assim, a visão crítica passou a alimentar a visão poética e viceversa. Ambas na direção de um sentimento “neobarroco” ou “pós-moderno”. “O homem barroco e o do século XX são um único e mesmo homem agônico, perplexo, dilemático, dilacerado entre a consciência de um mundo novo e as peias de uma estrutura anacrônica que o aliena das novas evidências da realidade, ontem a contra-reforma, a Inquisição, o absolutismo, hoje o risco de guerra nuclear, o subdesenvolvimento das nações pobres e o sistema cruel das sociedades altamente industrializadas”, escreveu Affonso em O poeta e a consciência crítica, de 1969.

O poeta chega a propor uma “linha de tradição brasileira”, que iria de Aleijadinho a Niemeyer, um elo inventivo que uniria e espelharia a nossa cultura. Para ele, nesse contexto, a grande obra de ficção moderna nacional seria Grande sertão: veredas, “de compleição nitidamente barroca em sua grandeza cervantina”. João Cabral, continua, “teria um remordimento formal barroco”; Jorge de Lima faria uma “poesia de desinência barroquista”; a “angústia barroca da paixão contida” poderia ser identificada mesmo em Carlos Drummond de Andrade e no neoclássico Cláudio Manoel da Costa. “O Barroco foi o primeiro traço de tradição realmente válido para nossa pretendida arte brasileira”, acredita Ávila. De olhos no passado, mas com os sentidos no futuro, o poeta tentou um diálogo com o concretismo, tendo em vista a formação de uma “vanguarda participante”. Mas, ainda nos anos 1960, já temia uma “involução” das vanguardas pela acomodação dos futuros criadores. “Os jovens poetas precisam estar atentos aos perigos da mistificação estagnadora da arte, ao aceno de facilidade e de promoção e divulgação. É preciso resguardar o processo de nossa poesia de todas as possíveis modalidades de dopagem”, escreveu. Prova de que ele seguiu seus próprios conselhos está no caráter sempre inovador de suas obras: Código nacional de trânsito, de 1972; Cantaria barroca, de 1975; Discurso de difamação do poeta, de 1978; Delírios dos cinquent’anos, de 1984. Ao mesmo tempo, não descuidou da pesquisa e do ensaísmo, como revela a criação, em 1969, da revista Barroco, publicada pela UFMG, e de obras como O lúdico e a projeção do Barroco, de 1971, e O Modernismo, de 1975.

Em 1991 Affonso recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia pelo livro O visto e o imaginado, e sua poesia torna-se progressivamente mais experimental, em termos formais e de conteúdo. “Em crise, o poeta de hoje procura mostrar o que a poesia enuncia. E que outro meio melhor de mostrar do que fazer ver? Essa maneira de fazer da leitura uma maneira textual de ver (ou de ler como se víssemos o que as palavras significam), da poesia de Affonso Ávila, é a marca de sua originalidade, no que tem de inimitável e sem parecença com qualquer outra”, anota Nunes. Mesmo quando, diz Affonso, o “poeta é um plagiário”.

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