PESQUISA INOVATIVA EM PEQUENAS EMPRESAS (PIPE)

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Desinfecção poderosa

Sistema de limpeza de endoscópios terá também aplicação na agricultura e na indústria de alimentos

DINORAH ERENO | ED. 138 | AGOSTO 2007

 

Endoscópio com sonda iluminada: água superoxidada à base de sal é fungicida e bactericida

Um sistema de desinfecção de endoscópios que tem como base uma solução de água e cloreto de sódio, mais conhecido como sal de cozinha, está em fase final de desenvolvimento pela empresa Ibasil Tecnologia, instalada no bairro do Butantã, em São Paulo. O novo desinfetante é atóxico, de ação rápida e não agride o ambiente. Ele traz benefícios para pacientes, médicos e enfermeiras que utilizam a endoscopia para controle e diagnóstico de doenças do aparelho digestivo. O sistema inovador também poderá ter aplicação em outras áreas como fungicida em frutas e legumes, bactericida na indústria alimentícia ou desinfetante na avicultura e pecuária. Inicialmente, o produto vai atuar na limpeza de endoscópios porque a complexidade desses equipamentos, que por meio de uma sonda introduzida na boca do paciente chega ao estômago, envolve múltiplos canais e válvulas, favorecendo o acúmulo de materiais orgânicos e inorgânicos, possíveis fontes de infecção por microorganismos. Por isso, entre um exame e outro, é necessário fazer uma rigorosa limpeza e assepsia no aparelho para evitar o risco de transmissão de doenças como tuberculose, hepatite e Aids.

Atualmente, o desinfetante mais utilizado em hospitais e clínicas é o glutaraldeído na concentração de 2%, uma substância química com alto poder bactericida e fungicida. “O produto, porém, é cancerígeno e agressivo ao ambiente. O tempo de ação dele é de 30 minutos para a desinfecção, diante de apenas sete minutos do nosso sistema”, diz Luís Iba, diretor da Ibasil. Estudos comprovam que o vapor liberado pelo glutaraldeído é irritante para o sistema respiratório, pode causar dermatites de contato, além de ser tóxico para o organismo. Por isso, em outros países ele está sendo gradativamente substituído por substâncias menos agressivas.

O projeto desenvolvido pela Ibasil tem o apoio financeiro do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe), da FAPESP, e é coordenado pelo engenheiro químico Gerhard Ett, da empresa Electrocell, que desenvolve células a combustível para produção de energia elétrica a partir do hidrogênio, sediada no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), na Cidade Universitária, em São Paulo. “O convívio e a cooperação dentro do Cietec (a Ibasil também estava incubada no mesmo local) e o nosso conhecimento sobre automação, controle de sistemas e, principalmente, geradores eletrolíticos que possuem tecnologia similar às células a combustível permitiram a parceria”, diz Ett. “Esses geradores transformam a solução de água com sal em outros compostos.” Também participa da pesquisa e desenvolvimento do produto a bióloga Débora Moreira, com bolsa da FAPESP.

O equipamento, que deverá estar disponível para uso médico dentro de um ano, é baseado em um processo eletroquímico que gera, a partir da eletrólise, uma corrente elétrica numa mistura de água e cloreto de sódio, um poderoso desinfetante composto de 12 substâncias. O ácido hipocloroso, o peróxido de hidrogênio, o óxido cloreto, o ozônio e o ácido perclórico são os oxidantes de maior ação bactericida da mistura, também chamada de água superoxidada. “Um agente potencializa a ação do outro. Os 12 juntos têm ação desinfetante comprovada em testes”, diz Iba.

Testes no HC
O primeiro teste para avaliação da água superoxidada em bactérias isoladas de aparelhos destinados à endoscopia foi realizado no Serviço de Endoscopia do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em agosto de 2006. Foram coletadas amostras de seis aparelhos de endoscopia utilizados no HC, após eles terem passado pelo processo de lavagem mecânica com água. O material colhido foi semeado em meio de cultura apropriado, em estufas laboratoriais, e colocado em contato com a água superoxidada por sete minutos. Após esse intervalo de tempo, novas coletas foram realizadas. O resultado é que, antes do contato com a água superoxidada, foram isolados vários microrganismos, como as bactérias Escherichia coli e Pseudomonas aeruginosa, esta um dos mais prevalentes agentes de infecção hospitalar. “Após o contato com a água superoxidada, não houve nenhum crescimento microbiano”, diz Débora Moreira. Na próxima etapa da pesquisa será feita a análise da eficácia contra o vírus da hepatite B e C.

Para a produção da célula eletroquímica foram construídos eletrodos de grande área superficial, separados por membranas de polímeros. “A célula eletroquímica é basicamente composta por membranas, anodos e eletrodos de titânio”, diz Gerhard Ett. Durante o processo de eletrólise há a produção de dois líquidos. De um lado da célula eletroquímica sai a água ácida, o desinfetante oxidante, e do outro a água alcalina, que não é usada. Para não haver danos ao ambiente é feita a neutralização dos dois subprodutos antes do descarte. “O desinfetante, antes de ser eliminado para o esgoto, é misturado à água alcalina originando uma solução inofensiva para o ambiente”, diz Iba.

Antes do desenvolvimento do novo sistema de desinfecção de endoscópios, a Ibasil já tinha experiência na área. Quando ainda estava incubada no Cietec, de fevereiro de 2002 a abril de 2005, a empresa projetou e construiu um equipamento automatizado para limpeza de endoscópios chamado Endolav, que teve a patente do produto e da marca comprada pela empresa Lifemed, do Rio Grande do Sul (ver Pesquisa FAPESP nº 113). Foi nessa época que houve a aproximação com a Electrocell, que participa do projeto atual.

A próxima etapa da pesquisa prevê a participação do Instituto Biológico do Estado de São Paulo, do Instituto de Tecnologia de Alimentos e do Instituto Agronômico de Campinas nos testes bacteriológicos. Os pesquisadores querem ampliar os estudos visando à aplicação do produto na avicultura e na pecuária. O sistema poderá ser utilizado para descontaminação dos galpões onde ficam os animais, no processamento de carnes e na desinfecção de maquinários. Na agricultura poderá ser usado como fungicida e bactericida para frutas e legumes e também para limpeza de instalações, caminhões e máquinas. Na indústria alimentícia tem potencial de uso como desinfetante no processamento de sucos e alimentos.

O Projeto
Desinfectora automática de endoscópios equipada com gerador eletrolítico de desinfetante oxidante a partir de água e sal (NaCl) (nº 05/55934-1); Modalidade Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe); Coordenador Gerhard Ett – Ibasil; Investimento R$ 71.241,06 (FAPESP)


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