Imprimir PDF

Cultura

O homem da esperança

Aos 82 anos, o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna ainda acredita que não se vive sem sonhos

Suassuna: “Arte para mim é missão, vocação, festa”

Leonardo Colosso/Folha Imagem Suassuna: “Arte para mim é missão, vocação, festa”Leonardo Colosso/Folha Imagem

Em meio a tanta e tão resistente comoção popular, pode-se ter a certeza de que houve alguém que não deve ter chorado a morte do cantor americano Michael Jackson (1958-2009): o paraibano de nascimento, mas pernambucano de coração, advogado, professor, teatrólogo e romancista Ariano Suassuna. Do alto de seus 82 anos, completados em 16 de junho passado, Ariano avisava a todos que quisessem ouvir que, se o vissem comprando um disco do pop star, é porque tinha perdido o juízo de vez. “Não é possível que queiram exigir que eu ache o Michael Jackson e a Madonna com a mesma importância de um Herman Melville [1919-1891] ou de um Euclides da Cunha [1866-1909]. Não aceito que os brasileiros, equivocados, queiram, em nome da nossa bela e fecunda diversidade, acolher também esse lixo cultural como se fosse coisa importante.” Mas o desprezo do mestre não tem apenas alvos “fáceis” como o rock. “Uma vez li um ensaio do Martin Heidegger [1889-1976] e no fim do texto o homem escreveu que ‘enfim, a essência da poesia é a poesia da essência’. Sujeito chato! Eu, perder tempo para ler uma besteira dessas, rapaz? Que cabra chato!”, foi como definiu, sem papas na língua, o filósofo alemão. Afinal, entre Thriller e o Dasein não haveria nada a agradar Ariano? “Olha, meu amigo Capiba [1904-1997], este sim um grande compositor, ficava indignado quando diziam que cachorro gosta de osso. Ele dizia: ‘Só dão osso ao cachorro, depois dizem que ele só gosta disso. Bote um osso e depois um filé, para ver qual ele escolhe’. Agora não estão deixando a juventude brasileira entrar em contato com o filé. Só dão osso.”

Suassuna fez sua parte e nos legou, em suas obras para teatro, romances e poesias e no Movimento Armorial, iniciado nos anos 1970 no Recife, um belo “filezão” para quem tiver bons dentes e apetite para devorá-lo. Aliás, ele continua em ação pela cultura nacional com suas chamadas “aulas-espetáculos”, conceito inventado por ele na sua gestão como secretário de Cultura de Pernambuco, durante o governo de Miguel Arraes (hoje Suassuna é secretário Estadual de Cultura de Pernambuco), uma aula diferente que é ministrada com o auxílio de músicos e bailarinos. Daí como artista de circo ele circula o Brasil todo, todo o tempo, o que, se é bom para a cultura nacional, não o foi para a confecção deste perfil, já que foi impossível para o vencedor do Prêmio Conrado Wessel de Cultura 2008 arranjar tempo para ser entrevistado. Contabilizamos essa dificuldade ao pedido que ele registrou em Metade rei, metade palhaço: “Faço um apelo a todos vocês, pedindo que compreendam minha situação e me deixem sossegado para escrever”. Muito merecido; nós todos ganhamos com isso. Criatividade é a alma dos personagens de Ariano e foi preciso usar a nossa para descobrir, em seus escritos, falas e entrevistas, trechos que pudessem servir para dar ao leitor um pouco do jeito Suassuna de ser e pensar.

“A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto. Nunca vi um gênio com gosto médio”, diz. “Arte para mim não é produto de mercado. Podem até me chamar de romântico. Arte para mim é missão, vocação, festa.” Acima de tudo, para Ariano, a arte é do povo, mais do que o céu é do avião, embora ele avise que não pretende “colocar a cultura brasileira numa redoma, o que, além de impossível, é absolutamente indesejável”. Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 1989, ele lembrou os Brasis já antevistos por Machado de Assis que explicariam os bens e os males da nossa cultura. “As maiores doenças nossas têm origem no Brasil oficial e a cura só lhe pode vir do Brasil real”, acredita. Há tempos, aliás, desde o dia 18 de outubro de 1970, quando lançou oficialmente, no Recife, em meio a um concerto e uma exposição de arte, o Movimento Armorial, do qual é uma das principais inspirações. Então já preconizava que era preciso valorizar a cultura do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares nordestinas. “A arte armorial é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos ‘folhetos’ do romanceiro popular do Nordeste, a literatura de cordel, com a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha os seus cantares”, escreveu num artigo em 1975 para celebrar os cinco anos do “filho”.

Daí a importância, para ele, de tudo que venha do povo, sem falsos entusiasmos ou hipocrisia de letrado condescendente com as raízes populares. Daí, para Suassuna, da especial simbologia do “armorial”, conjunto de insígnias, brasões e estandartes e bandeiras, a heráldica, segundo ele, paradoxalmente, “uma arte mais popular do que qualquer coisa, e a adoção para o movimento deixou claro o desejo de ligação com essas raízes heráldicas culturais brasileiras”. Povo, para Ariano, não é pouca coisa, não. “Goethe, Cervantes, Dostoiévski, Gorki e Tolstói eram um pessoal que fazia uma arte profundamente ligada à terra e ao povo deles. Assim, eu recebo a influência deles, junto com a do cordel, no sentido de procurar ser fiel ao meu país e ao meu povo. Esses criadores todos são meus parentes”, afirma. Pena que o Brasil tenha começado só em 1500, sem ter tempo de nos ter legado o gostinho de uma Idade Média. Mas, na falta de uma nacional, Ariano, juntando toques de barroco e dos romanceiros espanhóis do tempo de Cervantes e Calderón de la Barca, criou a Idade Média não apenas brasileira, mas nordestina.

Foi preciso, porém, uma tragédia para aproximar Suassuna desse povo e de seus mitos e fantasias. Nascido Ariano Vilar Suassuna, em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, em 16 de junho de 1927, é filho de João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, presidente da Paraíba entre 1924 e 1928, assassinado no Rio de Janeiro, então capital da República, nos últimos dias que antecederam a deposição de Washington Luís com a Revolução de 1930, cujo gatilho foi a morte do então governador João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas e integrante do grupo político oposto ao do pai de Suassuna. A família mudou-se do Rio para Pernambuco e em seguida para Paraíba, a mãe, Rita Vilar Suassuna, e nove filhos, na Fazenda Acahuan, onde Ariano passou sua infância.

A morte do pai, então, levou-o mais perto dos temas e formas de expressão artística que, mais tarde, seriam fontes do seu universo ficcional ou, palavras suas, do seu “mundo mítico”. O convívio com a narrativa oral e a poesia sertaneja, que assimilou com naturalidade, permitiu ao jovem Ariano mesclar suas raízes de família rica com os “causos” e contos, poemas populares e romances, que permeiam sua obra. “Eu acho que arte é o acréscimo que a gente faz ao real. Eu gosto muito do fantástico e, no cordel, o fantástico está muito unido ao realismo. Para Goethe, quem pinta um cachorro do jeito que ele é apenas acresce um cachorro aos outros já existentes e a função da arte não é fazer isso.” A arte, para Suassuna, está ligada ao mote de Calderón, para quem “a vida é sonho e os sonhos vida são”, num “trocadilho” que, ao contrário da inversão de Heidegger, Ariano aprovaria. “O que é muito difícil é você vencer a injustiça secular que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos. Eu digo sempre que, das três chamadas virtudes teologais, eu sou fraco na fé e fraco na caridade; só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança.” Para isso também serve a fantasia.

Montagem de O auto da compadecida, de 1957, no Rio

Arquivo/AE Montagem de O auto da compadecida, de 1957, no RioArquivo/AE

A magia, no entanto, ficou guardada na cabeça do moço quando ele entrou, em 1946, na Faculdade de Direito do Recife, e só deu o ar da graça, enfim, no ano seguinte, quando escreveu sua primeira peça, Uma mulher vestida de sol. Ele até advogou por alguns anos, mas a imaginação foi mais forte do que a Justiça e, em 1955, cinco anos após se formar bacharel, criou o Auto da compadecida, considerada pelo crítico Sábato Magaldi o “texto mais popular do moderno teatro brasileiro”. Originada de um auto popular nordestino, com forte influência moura na origem de sua história, o Auto da compadecida revela, pela primeira vez, em todo o seu colorido, a notável mistura da cultura popular com o picaresco, o satírico dos graciosos do teatro de Calderón, de Lope de Vega, das criações imortais de Cervantes, entrelaçados com cordel, mamulengo, oralidade, desafios de cantadores e os autos populares religiosos publicados em folhetos no Nordeste. “Nós e o barroco temos muito a ver, pois foi durante o século XVI que começou a se formar isso a que nós chamamos de Brasil. Mas tudo foi feito com a intenção de ser universal, porque eu acredito que o ser humano é o mesmo, em todos os lugares e todos os tempos.” Vieram, a seguir, outras criações: O casamento suspeitoso (1957), O santo e a porca (1957), A pena e a lei (1959), Romance d’A pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta (1971), um “romance armorial popular”.

Vieram também muita poesia, textos críticos de estética, de quando lecionou na Universidade Federal de Pernambuco, e passagens pela política e pela cultura dita oficial, como secretário de Cultura da sua cidade e do seu estado. Como nas grandes tragédias que faziam o prazer do menino no sertão, tudo aquilo havia começado com a morte do pai. “Ainda menino, no sertão da Paraíba, o palco mágico e festivo do teatro, com seus violentos contrastes, povoado de assassinatos, zonas de luz cheias de gargalhadas, todo esse mundo me foi revelado, ao mesmo tempo, pelo circo, pelo auto popular e pela ribalta.” Suas obras chegaram ao grande público ao se transformarem em séries televisivas. “Mas não fui eu que me rendi à televisão. Foi a televisão que se rendeu às minhas peças.”

O homem que tanto apreciou o sonho dos outros também tem lá os seus. “Sem sonho a gente não vive. Acho que é necessário ao ser humano um sonho colocado lá na frente, para que a gente não se acomode e procure aquele ideal, aquela verdade maior. O Brasil com que eu sonho seria um lugar onde a gente realizasse, pela primeira vez na história humana, a fusão de justiça e liberdade.”