HUMANIDADES

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Trabalhadoras do Brasil

Doutorado traça perfil de Darcy Vargas, mulher de Getúlio, precursora das políticas sociais na Presidência

GONÇALO JÚNIOR | ED. 150 | AGOSTO 2008

 

Getúlio Vargas

Getúlio Vargas (1882-1954) teve o cuidado de criar para si uma trajetória de vida das mais gloriosas, narrada em livros, enquanto tentava torná-la real no dia-a-dia. Em especial, quando se tornou ditador, a partir de 1937. Estabeleceu uma máquina eficiente de propaganda em torno de sua imagem, por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), inspirada em Adolf Hitler e Benito Mussolini, líder fascista italiano e seu ídolo declarado. Ficaram famosas entre as crianças de sua época as aventuras heróicas de político que regularmente o Ministério da Educação mandava para as escolas ou iniciativas como a do editor Adolfo Aizen (1907-1991), pioneiro das histórias em quadrinhos no Brasil, que produziu em sua homenagem um gibi vendido em bancas em 1942. Sua biografia, no entanto, foi encerrada pela tragédia do suicídio, em agosto de 1954.

Não se sabe exatamente por que a vida de Getúlio conseguiu ofuscar a de uma pessoa que foi fundamental para seu êxito político: Darcy Vargas, a esposa de toda vida. Uma injustiça histórica que começa a ser corrigida com o lançamento de Mulher e política – A trajetória da primeira-dama Darcy Vargas (1930-1945), da Editora Unesp, resultado do doutorado de Ivana Guilherme Simili, da Universidade Estadual de Maringá, Paraná, realizado na Unesp entre 2000 e 2004. Ivana focou seu estudo no primeiro mandato de Vargas, que se estendeu da Revolução de 1930 ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, prolongado pela implantação da ditadura do Estado Novo.

O trabalho vai além da política em si e do varguismo. Mapeia no decorrer da narrativa um importante momento de emancipação feminina no país, uma vez que Darcy colocou a mulher na vida política nacional por meio da mobilização solidária – é preciso lembrar que somente em 1928 o sexo feminino passou a ter direito de voto no Brasil, depois de uma campanha de 11 anos. Nesse ano também foi eleita a primeira prefeita do Brasil, Alzira Soriano de Souza, no município de Lages (RN). Essa aproximação seria avançada a partir de 1961, quando surgiram as organizações femininas que legitimariam o golpe militar de 1964, graças às marchas da família por elas organizadas – tema que não faz parte da pesquisa de Ivana.

Darcy Vargas em visita à Casa Maternal e da Infância Leonor Mendes de Barros

A personagem revelada pela pesquisadora construiu uma história própria e paralela à do marido. Getúlio e Darcy se casaram em 1911 e tiveram quatro filhos, todos nascidos na década de 1910 e já falecidos. O nome da esposa começou a se destacar nacionalmente durante o movimento revolucionário que anulou a eleição do presidente Júlio Prestes e levou seu marido ao poder em outubro de 1930. Imediatamente, ainda durante o levante golpista, Darcy criou a Legião da Caridade, associação de mulheres que deveriam produzir roupas para os revolucionários e distribuir alimentos às famílias daqueles que acompanharam Vargas. A conclusão de Ivana é que, nos 15 anos seguintes, da participação e expressividade das ações de benemerência social de dona Darcy dependeu boa parte dos sucessos políticos obtidos pelo governo de Vargas, considerado por muitos o maior estadista brasileiro de todos os tempos.

Nesse contexto, além de traçar a personalidade de Darcy, a tese aponta sua contribuição para a criação de um modelo de atuação da mulher na vida pública. Seu gesto mais importante foi a criação da Legião Brasileira de Assistência (LBA), em 1942. Segundo a autora, ao envolver-se com as questões sociais ocorridas com o ingresso do país no conflito mundial, ela fazia surgir no cenário nacional a primeira instituição pública de assistência social e marcava de forma decisiva sua participação na história da política assistencial. “Mais que isso, é possível dizer que, no período de 1942 a 1945, as mulheres que se tornaram voluntárias da LBA escreveram um capítulo importante da história das mulheres na guerra” – um dos pontos marcantes do livro.

Em 1938, com a Fundação Darcy Vargas, e, em 1942, com a LBA, ela desenhou seu percurso filantrópico-assistencial. As iniciativas da primeira-dama, diz Ivana, sempre estiveram articuladas com os empreendimentos políticos do marido. E sugerem, também, como as lutas e conquistas masculinas são fatores que mobilizam e envolvem as mulheres – esposas, mães, filhas. “Em suma, elas se transformam em questões da família.” A imagem possível de ser obtida de Darcy nesse contexto é a de uma esposa e mãe dedicada à família – ao marido e aos filhos. O mesmo empenho observado na vida privada, no entanto, a primeira-dama levou para o espaço público, na criação e na administração das entidades filantrópicas e assistenciais para cuidar dos “outros” – a lista inclui desde pequenos jornaleiros aos soldados mobilizados pela guerra e suas famílias. “Nos empreendimentos sociais e assistenciais ela se mostrava como uma mulher que não media esforços para conseguir seus intentos.”

A primeira-dama dirigindo, da cadeira do marido, reunião no Palácio do Catete

O poder de mobilização de Darcy Vargas, ressalta a autora, é um elemento a ser destacado. Basta lembrar que ela conseguiu envolver nomes importantes do universo social, cultural, político e artístico da época. E os levou a participar de suas realizações. Desse modo, contou com o apoio e a adesão das mulheres da elite nos projetos filantrópico-assistenciais, algo inédito na época. “O poder que detinha, pelo lugar ocupado no cenário nacional, facultou-lhe a possibilidade de fazer uso da máquina administrativa em nome da filantropia.” Tratava-se, sem dúvida, afirma Ivana, de uma mulher com personalidade composta por alguns ingredientes: diplomata no trato com as pessoas para conseguir o que queria, determinada nos seus empreendimentos e sedutora na conquista para atingir seus objetivos. “Os retratos de Darcy Vargas possíveis de ser obtidos pela documentação consultada revelam que ela era uma mulher dominada pelo marido. Entretanto, conforme diz Chartier, existem algumas fissuras nas relações sociais e de poder que inauguram possibilidades aos sujeitos para mudar as regras do jogo.”

Nos jogos estabelecidos entre o casal e entre pais e filhos, diz a autora, Darcy Vargas encontrou espaço para influenciar e fazer valer suas vontades. “Embora seja preciso ressaltar que os jogos familiares trazidos à tona são versões de Getúlio e de Alzira para os fatos relatados – foram consultados, em especial, os diários de Vargas e a biografia deste, escrita pela filha “, podemos exemplificar a afirmação com a confissão feita pelo governante no diário de que em determinado momento da vida conjugal a esposa pediu a “separação de camas” e que a opinião da mãe numa contenda familiar, descrita por Alzira, fora fundamental para que o pai se convencesse e permitisse que ela se tornasse motorista.- Em seu relato, Alzira usa a expressão “o poderoso apoio da mãe” para falar da força materna no âmbito familiar. “Quanto à influência da personagem no circuito das decisões políticas, se elas aconteceram, não foram objeto de registros.”

Chamou a atenção de Ivana ao focalizar a trajetória da personagem o modo pelo qual o casamento pode ser um elemento diferenciador no percurso de uma mulher, de modo a criar mecanismos para a ascensão social e política. A história de Darcy Vargas é exemplar nesse sentido. Nas palavras da autora, pelo casamento ela foi inserida no universo da política; e pelas relações conjugais foi levada a participar das encenações do poder. “Não resta dúvida de que nos jogos públicos e políticos a primeira-dama foi estratégica para Vargas na fabricação de imagens e representações para o governo e governante, mas ela também soube aproveitar os benefícios oferecidos pelo poder.” Desde sua chegada no Rio de Janeiro em 1930 e até 1945 as fotografias mostram a mudança no seu visual, transformando-se numa mulher bem-vestida e atualizada na moda. “Com as criações filantrópicas e assistenciais, ela produzia um modelo de atuação e de participação da esposa na política.”

Dona Darcy na ativa, momento a momento…

No seu percurso inscrevem-se também as formas de atuação e de participação dos segmentos da elite no desenvolvimento de projetos e programas dedicados à maternidade e à infância promovidos pela primeira-dama. A autora não tem dúvida em afirmar: “Ou seja, Darcy Vargas pode ser tomada como representante da presença do maternalismo na construção do Estado brasileiro e das políticas públicas para mulheres, crianças e adolescentes. Finalmente é preciso lembrar a contribuição da LBA, sob a administração da primeira-dama, para alavancar a profissionalização do serviço social no país”.

Ruth
A tese de Ivana começou a brotar em 1997, influenciada pelas leituras de historiadoras das mulheres e de gênero. Surgiu então a vontade de trabalhar com questões relacionadas à mulher na política. Primeiro pensou em estudar Ruth Cardoso e o Programa Comunidade Solidária, surgido na década de 1990. Algumas leituras começaram a indicar que havia uma relação entre a Legião Brasileira de Assistência, extinta por Fernando Henrique Cardoso em 1995, e o programa de Ruth Cardoso, lançado logo em seguida pela mulher do presidente. “Dei então início a um estudo comparativo entre as duas primeiras-damas – Darcy Vargas e Ruth Cardoso. No decorrer da investigação, percebi que havia uma lacuna a ser explorada pela história das mulheres e pela história política brasileira, a qual dizia respeito ao papel desempenhado por Darcy na história política, particularmente a assistencial.”

A bibliografia consultada contribuía para a pesquisadora se definir. Colaboraram nesse sentido as poucas menções à personagem na literatura histórica que cobriam temas, personagens e questões do governo e governante; a maneira como a primeira-dama era descrita quando aparecia nos relatos, particularmente nas biografias criadas para ela, as quais falavam de sua dedicação às ações assistenciais com início em 1930, com a Legião da Caridade, substituída pela Fundação Darcy Vargas (1938), e, por fim, o nascimento da Legião Brasileira de Assistência (1942). E ainda os estudos da assistência social que vinculavam sua participação na política assistencial ao criar a Legião Brasileira de Assistência, a primeira instituição pública de assistência social, que surge no cenário assistencial com o ingresso do país na Segunda Guerra Mundial – com o objetivo de “amparar os soldados mobilizados e seus familiares”. Tudo isso confirmava a impressão de que a trajetória da primeira-dama podia esclarecer aspectos importantes sobre o relacionamento da mulher com a política.

recebendo doação de livros, entregando-os para a autoridade escolar e…

No trabalho sobre Darcy Vargas, desenvolvido no doutorado, Ivana buscou conhecer os meandros percorridos pela personagem Vargas no seu relacionamento com Getúlio e suas “políticas”. Um dos questionamentos foi qual o significado que o casamento com Getúlio Vargas teve para a sua vida. Ou como ela havia convivido com a carreira política do homem público. A autora se indagou também de que maneira a política participou de sua vida e que participação que ela teve no percurso de Vargas e suas “políticas”. “Enfim, tratei de descobrir a diferença que o casamento e a convivência com Getúlio tinha feito na sua vida, criando para ela formas de atuação e de participação na vida pública brasileira.”

Damismo
Ivana acredita que seu estudo produziu uma história para a personagem, a qual permite entender aspectos significativos da atuação das primeiras-damas e, por conseguinte, o processo de construção do primeiro-damismo no Brasil e da participação das mulheres dos homens públicos nos circuitos do poder. A principal dificuldade encontrada para a realização do trabalho foi com relação às fontes. Darcy Vargas não deixou nada ou quase nada escrito de próprio punho. Dela, a autora encontrou apenas uma carta manuscrita, a qual tratava de aspectos relacionados a um dos momentos mais dolorosos de sua existência: a morte do filho, Getulinho, em 1943, aos 26 anos de idade. Nos acervos da imprensa e de memória era possível encontrar a personagem. “Ela estava nas notícias, nas obras memorialísticas, nas imagens fotográficas, nos documentos escritos de vários tipos e estilos (atas, boletins, relatórios). Entretanto, o modo como ela se apresentava e era apresentada intrigava e inquietava. Posso afirmar que o silêncio e a maneira impenetrável como Darcy Vargas se mostrava na documentação se transformaram no motor da pesquisa.”

…por fim, presenteando marinheiro com exemplar

Para contornar os problemas das informações das fontes, Ivana desenvolveu algumas estratégias narrativas. Como, por exemplo, a composição de cenários com a bibliografia sobre mulheres e política, em suas múltiplas perspectivas. As diferenças nas informações obtidas pelas fontes de consulta, explica ela, também foram determinantes na narrativa. No diário de Getúlio e no livro Getúlio meu pai, escrito pela filha Alzira Vargas do Amaral Peixoto, captou as representações para mãe e esposa; os materiais da imprensa, as fotografias e os outros documentos forneceram as pistas para perseguir a primeira-dama nas múltiplas formas de sua atuação como mulher pública – esposa e presidente das instituições. “Foi a história possível de ser escrita sobre o percurso da personagem que o livro oferece aos leitores.”

Darcy Vargas morreu no Rio de Janeiro, em 1968. Após o suicídio do marido, em 1954, ela permaneceu morando no Rio de Janeiro e continuou na administração da fundação que leva o seu nome. No mesmo ano da morte da idealizadora da entidade, a filha Alzira Vargas assumiu seu lugar na direção. Em 1992, quando Alzira morreu, a neta dos Vargas, Edith, filha de Jandira, assumiu os trabalhos e responde pela instituição até hoje.


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