FICÇÃO

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Emulação

ALEXANDRE AMARAL RODRIGUES | ED. 151 | SETEMBRO 2008

 

Conheci Péricles quando ingressamos na faculdade de letras. Eu namorava Samira, uma morena bonita e um tanto pueril. Para mim, a gente de Péricles parecia de outro planeta: cultos e um tanto formais, tinham, no entanto, opiniões e hábitos próprios de bichos-grilo, o que não deixava de ser uma novidade atraente, um discreto charme.
Logo Péricles passou-me em um ano na faculdade. Fiz menos matérias que ele, para alcançar a excelência – mal sabia que isso valeria tanto! No mais, dividíamo-nos entre os nossos interesses comuns e a intimidade. Samira achava Péricles divertido, e a presença dele arejava a vida de casal.
Em 1994 Péricles ingressou no mestrado. Um ano depois igualei-o. Essa diferença me incomodava, confesso, mas era inveja benigna, emulação entre amigos. Além disso, consegui um bom emprego numa universidade privada. Na mesma época, convidei Péricles a juntar-se a mim na cadeira de literatura brasileira, cujo titular era meu orientador, que havia me prometido a coordenadoria para breve.
Algum tempo depois, Péricles chamou-me em particular. Estava em sua sala, esbaforido e suarento, e desviava o olhar. Após algum prelúdio, foi ao ponto:
— Escuta, eu termino o mestrado no semestre que vem. Falei com o seu orientador, que disse que não consegue me manter aqui, a não ser que eu assuma a coordenadoria. Pois bem, você disserta daqui a um ano, por isso pensei em assumir o cargo, garantir você aqui e, depois do seu mestrado, colocar você de vice-coordenador. Em dois anos vou para a Europa e lhe passo o cargo. Assim, um segura a barra do outro. Que acha?
Eu estava meio chocado. Manifestei que eu já contava com o cargo.
— Olha, eu sei – retrucou Péricles –, mas as coisas se precipitaram e… Pense no caso, depois a gente conversa. Agora tenho de ir.
Mais tarde, soube que já estava tudo acertado. Seria a melhor solução. De que nos serviria a demissão de Péricles? Deveriam ter discutido a questão comigo, mas, paciência, isso não devia apoquentar-me. A perda era pouca. Se tudo corresse bem, assumiria a coordenação em um ano. Eu me tornara parte da equipe de Péricles.
Enquanto isso, Samira tornava-se cada vez mais inoportuna, e pouco depois do mestrado separamo-nos. Péricles foi para a França, de onde voltaria com a tese qualificada. Assumi a coordenação, e o salário era maior do que imaginava. Além disso, tinha liberdade. Péricles era impositivo, não fazíamos as coisas de forma partilhada.
Depois de um ano licenciei-me do cargo. Entrara para o doutorado e viajaria para o velho continente. Tivemos bons momentos por lá. A amizade com Péricles se renovara. Quando ele voltou para o Brasil, senti-me só. Mas no fim de minha residência estava não só com a tese pronta, como também apto para prestar concurso para a universidade pública.
Ao retornar, soube que Péricles concorreria à vaga de professor adjunto na nossa velha universidade pública. Surpreendi-me. Sabia que cedo ou tarde haveria um concurso, porém não tão cedo. Pretendia concorrer ao cargo, mas naquele momento seria impossível. Todos apostaram em Péricles; ele fez jus às apostas. Senti-me traído, mas sob exame sereno o sentimento mostrou-se injustificado. Como ainda não defendera a tese, eu não poderia candidatar-me. Quem poderia? Melhor que fosse Péricles. Fazíamos parte de um mesmo projeto. Sim, fazíamos. E logo haveria nova oportunidade. Só estranhei que não fosse o próprio Péricles a me contar as novas. Mas ele era assim mesmo: nunca alardeava seus planos mais ousados, e quando os atingia, pouco se gabava. Verdade que às vezes eu tendia irracionalmente a me irritar com essa modéstia. Por sorte, a irracionalidade, em mim, é passageira.
Um mês depois defendi minha tese. Um novo concurso só se abriu em um ano. No departamento queriam uma guinada para outra linha, que não a nossa. Arejar o pensamento, diziam. Chegou-se a um acordo: nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Mas em conversa privada garantiram-me que eu teria grandes chances. O departamento era predominantemente ortodoxo, e meu orientador presidiria a banca. Tudo era favorável.
O concurso foi difícil. Meu concorrente era forte. No fim de quatro dias extenuantes, saíram os resultados: não fora reprovado, mas estava em segundo lugar. “Foi a nota da banca”, disse-me o orientador. Fiquei chateado. Todos sabiam que as notas eram influenciadas pela tendência do presidente da mesa. Como era possível que meu orientador e Péricles, que ciceroneara professores da banca, não houvessem conseguido assegurar-me melhor situação?
— Entenda, Jacinto – explicou-se Péricles –, o concurso não pode ser parcial. Seria um escândalo.
— Uma pinóia! Vocês asseguraram que eu passaria. E agora? Como virar essa página?
— Você é injusto. Dissemos que havia grandes chances, não que era garantido. Deu zebra. Eu tentei…
— Então por que paparicar os professores?
— Olha, todos sabem que somos do mesmo grupo. Inclusive mencionei você algumas vezes. Aparentemente, você se daria bem. Mas eu também preciso, se o senhor não achar ilegítimo, ganhar prestígio.
— Sabe o que eu acho? Acho que vocês quiseram aparecer bem, mostrar que estão abertos às novas tendências. Acho que fui traído, usado.
— O quê? – Péricles estava vermelho. – Eu nem vou comentar isso! Melhor parar por aqui. A banca achou o outro melhor e ponto. Sinto muito. – E virou as costas.
Conformei-me. Pelo menos tinha dinheiro bastante. Procurei Samira para chorar as mágoas. Ela não me estendeu o ombro. Fez-me ver que eu agira mal com Péricles. Examinando de perto, nada me certificava que houvesse manipulação do processo. E como suspeitar dele, que sempre se mostrara excelente amigo? Como eu, que sempre militara pela lisura nos concursos universitários, poderia reclamar por não ter sido beneficiado? Não era de espantar que ele se irritasse.
Certa vez fui com uma aluna não brilhante, mas muito atraente, a um restaurante no largo do Arouche. Samira e Péricles estavam lá. Achei melhor ser discreto, e apenas acenei-lhes. Observei que gargalhavam às vezes. De que riam? Aquele jantar não me fez bem. E, francamente, a menina me aborreceu. Soube depois que Samira ingressara no mestrado e conseguira ser professora em uma universidade privada, bem melhor, diga-se, que aquela em que se graduara. Admirável superação.
Uma semana mais tarde soube que Péricles assumiria a chefia de todo o departamento na universidade em que eu lecionava. Agora sou seu subordinado. Não tenho como participar de um projeto comum. Sim, talvez seja uma felicidade ser subordinado de um amigo, e poder confiar que, acima de tudo, nossos interesses comuns estão assegurados na universidade. É um modo de pensar. As aulas que sigo dando como autômato e o diagnóstico da depressão pus na conta dos contratempos acadêmicos. Grande amigo, o Péricles. Ele saiu na frente. Estou sereno. Confio na ciência.

Alexandre Amaral Rodrigues
é mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo e tradutor de obras filosóficas.


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