HUMANIDADES

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Impressões de alegria

Nas páginas das revistas Fon-Fon e Careta o Carnaval carioca consolidou a contestação democrática

GONÇALO JÚNIOR | ED. 151 | SETEMBRO 2008

 

O humor é, sem dúvida, a maior das subversões. O riso sempre desconcertou e desafiou regimes totalitários ou sociedades mais conservadoras. Pela charge e pela caricatura na imprensa ou por meio de programas de rádio e TV, muito se tem dito e criticado nos dois últimos séculos com mais eficiência até do que um sisudo editorial de jornal ou revista. Muito menos que no passado, o Carnaval ainda serve também para protestar com blocos de foliões que usam fantasias e carregam faixas. Caricaturas carnavalescas: Carnaval e humor no Rio de Janeiro através da ótica das revistas ilustradas Fon-Fon e Careta (1908-1921), tese de Fabiana Lopes da Cunha, volta aos primórdios do século XX para resgatar um dos períodos mais fascinantes e participativos da imprensa de humor e do Carnaval carioca.

A partir da análise de textos e ilustrações elaborados por grandes nomes da caricatura e da literatura e de jornalistas que ficaram no anonimato, explica Fabiana, é possível perceber a importância do Momo na vida desses homens de letras e pincéis e quão importante foi a contrapartida que eles forneceram não apenas ao público leitor. É possível também, acrescenta ela, resgatar e reconstruir através dessas publicações não apenas a história da festa, mas compreender o contexto do período, os problemas políticos, a moda, as inovações e as mudanças na vida da população carioca. “O Carnaval e o humor eram importantes não apenas para a saúde financeira das empresas jornalísticas e editoriais, pois a abordagem e o tema agradavam o público leitor, mas, em especial, na vida de escritores e artistas que escreviam com irreverência e participavam ativamente de cordões. Portanto, eles mesmos eram também artífices dessa história.”

Um exemplo da utilização da folia como negócio para a imprensa era o Jornal do Brasil, que possuía um elenco talentoso de ilustradores como Julião Machado, Raul Pederneiras e Amaro Amaral. O diário, diz a pesquisadora, auxiliou na popularização e no consumo das charges, sendo o responsável pela divulgação de um determinado tipo de Carnaval entre a população de nível social mais baixo. “As tiragens nos dias de festa aumentavam extraordinariamente.” A cobertura era completa e entusiasmada. Os repórteres e redatores, conta Fabiana, empenhavam-se ao máximo para pegar informações. Faziam a ronda entre blocos e cordões, publicavam os nomes de seus diretores e dos carnavalescos que os freqüentavam, estampavam em suas páginas a gravura dos estandartes dessas agremiações e, ainda, promoviam concursos para premiar essas manifestações carnavalescas mais populares.

Professora assistente doutora da Unesp-Ourinhos, Fabiana defendeu mestrado e doutorado na linha de história social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP. Ela faz ressurgir com sua meticulosa e reveladora pesquisa os nomes de literatos, jornalistas, caricaturistas e de alguns músicos como Olavo Bilac, Artur Azevedo, Calixto Cordeiro, J. Carlos, Raul e Mário Pederneiras, Martins Fontes, Emílio de Menezes, José do Patrocínio Filho, Olegário Mariano, João do Rio, Coelho Neto, Bastos Tigre, Lima Barreto, Luiz Edmundo, Luiz Peixoto, Eduardo das Neves e Xisto Bahia, dentre outros colaboradores de Fon-Fon e Careta. Outro ponto que a autora considera curioso foi o fato de que, apesar de ter lido em um livro recente onde se afirmava que Bilac tinha aversão ao Carnaval, ela concluiu que o jornalista e poeta, ao menos durante certo período de sua vida, foi um folião ativo e um escritor freqüente de crônicas relacionadas à folia momesca.

Apesar das duas revistas terem sido em parte responsáveis pela propagação e inserção de novas formas de brincar e de “ver” o Carnaval carioca e em todo país, estimuladas pela importação de “estrangeirismos” e pelos modismos provenientes de países como a França ou a Itália, principalmente durante a belle époque, Fabiana percebeu que a realidade muitas vezes traduzida na irreverência da própria festa ou por meio de textos e caricaturas impressas nas revistas se transformava em comédia. “O Carnaval e o humor difundidos através de seus carros de crítica ou nas fantasias de mascarados avulsos que insistiam em brincar pelas ruas da cidade traduzem uma identidade com a nação e com seu cotidiano e política muito peculiares e que são muitas vezes traduzidas através do sarcasmo e da irreverência de críticas feitas em momentos de festa”, observa a pesquisadora.

Assim, ela mostrou como os caricaturistas e articulistas acabavam expressando, nas revistas ilustradas, não apenas suas opiniões, mas também aquilo que já era um consenso pelas ruas da cidade e, por conta disso, tornavam-se motivo para a confecção de fantasias e máscaras sobre o assunto. Tais sátiras estavam, portanto, associadas a uma forma carnavalesca de representar estes temas que faziam parte do cotidiano da população ou de parte da intelligentsia, que contribuía com textos humorísticos para as duas publicações. “Dessa forma, parece-nos que esse tipo de humor se manifestava principalmente em momentos de lazer, diversão e em tempos de festa. Talvez porque nesses a crítica feita de forma irreverente fosse mais palatável, momentos em que certas posturas eram dilatadas e o riso fluía mais facilmente.”

Em certas situações, ressalta Fabiana, as brincadeiras momescas, aliadas a sentimentos de contrariedade e de insatisfação de parte da população, acabavam extravasando com o próximo. No caso, com desafetos que faziam parte de um grupo carnavalesco rival e quando estes se encontravam pelas ruas. Então as grosserias verbais muitas vezes extrapolavam para a agressividade física. A pesquisadora afirma, porém, que não quer com essas observações insinuar que o riso e a sátira fossem formas típicas de o brasileiro se manifestar política e socialmente. “Mas o fato é que, ao menos durante a belle époque, a representação humorística foi extremamente usada e importante pa-ra a co-munidade e também para a elite intelectual expressar seus anseios de modernidade.”

No primeiro momento, observa Fabiana, sua tarefa foi analisar os dois periódicos até o ano 1930. Deparou-se com um material muito rico e revelador sobre a vida cotidiana e política da capital do Brasil. Em especial, quanto à postura que as duas revistas tomavam com relação à política e a certas práticas relacionadas ao Carnaval. Outra fonte documental importante para ela foram as próprias canções da época, que possuem material rico em humor e sátira, apesar de a pesquisadora não se propor a analisá-las em sua forma como fez em seu mestrado. “Sabemos que muitas dessas composições não eram feitas especificamente para o Carnaval, mas a sátira política e a de costumes faziam muito sucesso pelas ruas da cidade, principalmente nestes dias de festa em que a liberdade e os excessos possibilitavam e estimulavam a crítica e o riso.”

A documentação impressa foi utilizada por Fabiana para mostrar como os caricaturistas e articulistas acabavam expressando nas revistas ilustradas tanto suas opiniões quanto aquilo que já era um consenso na cidade. Por conta disso, tornavam-se motivos para a confecção de fantasias e máscaras sobre o assunto. “Tais sátiras estavam, portanto, associadas a uma forma carnavalesca de representar esses temas que faziam parte do cotidiano da população ou de parte da intelligentsia que contribuía para estas edições.” Além de Fon-Fon e Careta, ela recorreu a algumas revistas ilustradas como O Mequetrefe, Revista Ilustrada e o diário Gazeta de Notícias, entre outros. “Através de uma charge em que K.lixto retrata o Barão do Rio Branco como um cozinheiro que prepara uma omelete, cujo fogo é alimentado por sacos de dinheiro, é possível saber que além de muito popular o ilustre ministro também era famoso por seus banquetes e pela grande quantidade de dinheiro despendida em tais recepções.”

Através desta caricatura, prossegue Fabiana, associada a várias outras que tratam da personalidade política e de sua famosa política de diplomacia, juntamente com textos, músicas e peças de teatro que são publicados ou propagandeados, pode-se compreender a importância que o Barão do Rio Branco e sua política possuíam para a população carioca. Tais documentos denotam também que essas referências humorísticas possuíam um misto de indignação com os gastos e de admiração pelas sucessivas vitórias diplomáticas que teve o barão em sua vida pública. “É o que percebemos no final do texto: ‘Ao frigir dos ovos, eu passo a perna fraternal nos povos’.

O estudo de Fabiana identificou vários outros exemplos de imagens e textos que revelam as diversas facetas com que a sociedade carioca, durante a belle époque, via os festejos de Momo e como estes eram representados em duas das principais revistas semanais do período. “A ótica mostrada foi principalmente aquela elaborada pelos literatos e caricaturistas do período, que retratavam tais festejos com grande dose de humor e crítica.” A pesquisadora trata de vários aspectos dessa sociedade que foram “carnavalizados” pelos colaboradores das revistas. Foi possível para ela ver as mudanças ocorridas na cidade: as reformas, a introdução dos bondes elétricos, dos automóveis, dos cafés e seu deslocamento em freqüência para os salões literários, o teatro e sua popularização com a implementação das sessões, a moda, com seus chapéus, entravées e jupes-coulottes.

Foram identificadas também as modificações que aconteceram na política e no Carnaval. Fabiana estudou ainda como este último foi utilizado de forma pedagógica pelos literatos, através dos desfiles e dos temas dos carros de crítica que difundiam seus ideais. “Com a proclamação da República e a desilusão de grande parte dos literatos frente a ela, os mesmos carros que antes eram usados para imprimir uma ideologia à população, objetivando a abolição e o fim da monarquia, seriam utilizados num primeiro momento para elogiar as reformas implementadas com uma rapidez e um autoritarismo sem precedentes.” No entanto, observa a pesquisadora, tal sentimento de euforia duraria muito pouco. Logo o humor e a sátira passariam a se voltar novamente para as personalidades políticas e para certos modismos que então imperavam. Tudo dentro do espírito e da irreverência que fizeram da folia momesca uma grande celebração das liberdades.


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