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Ficção

Relato de uma pesquisa

AZEITE DELEOSEra a primeira vez que eu me aproximava de um homem, tão perto, de carne e osso. No início, senti certo medo, um friozinho correu nas costas e os pelos ficaram em alerta. Meu cheiro exalava forte. Da sua pele, conseguia ver apenas a mão esquerda, estendida ao longo da calçada. E o rosto, em perfil, sugerindo uma expressão quieta, quase congelada. O corpo estava vestido em terno cinza, talvez preparado para alguma cerimônia. Agora estava ali, deitado na calçada, ao meu dispor.

Cutuquei-lhe a mão, e nada. Nem um tique de reação. Outra vez, e mais nada. Continuava inerte. Já na terceira vez, ferrei as minhas unhas direitas no punho dele. Resposta alguma. Bom sinal, pois assim eu poderia seguir adiante. Mas preferi não correr riscos. Voltei a furar a mão no mesmo ponto, até saírem algumas gotas de sangue. Nenhum dos dedos se mexeu.

O curioso, porém, é que o corpo respirava normalmente. Estaria dormindo em sono profundo? Teve algum ataque do coração ou coisa assim? E o que fazia naquela rua, deitado? Não eram perguntas que me interessavam. A resposta estava ali, imóvel. Não ia desperdiçar oportunidade tão rara com as premissas do receio. O acaso me oferecia uma oportunidade única.

Aproximei-me dos sapatos, em couro fino, e subi pela barra da calça. Facilmente me instalei na parte de cima da perna. Bem devagar, com cautela, para ficar atento a qualquer movimento dos músculos. Parados. Devia ser alguém bem posto na vida, a se julgar pela qualidade do tecido do terno. Parecia linho. Simples de enfiar as unhas, e ter a primeira impressão daquela carne que pulsava por baixo do pano.

Segui pela canela e subi para o joelho. Parei. Confesso que ainda sentia por dentro uma pequenina bolha de temor. Sentimento inexplicável naquelas circunstâncias, eu sei, mas que fugia ao controle. Tinha de escolher alguma ação, eu bem sabia. Mas, em algum canto da minha cabeça, ainda me perguntava: qual será o nome dele? Quantos anos? Para onde caminhava? Questões sem importância, que só atrapalham o raciocínio.

Minha curiosidade maior era conhecer aquela pele escondida, vestida quase por completo. Ali podia fazer a primeira experiência. Por que não? Decidido. Enfiei os dentes e puxei com as unhas até rasgar a calça um bocado. Coloquei mais força, fiz um rasgo maior e apareceu um recorte de pele clara, com poucos pelos. Aproximei-me do joelho e vi a carne enrugada, feia, seguida pela brancura e maciez da coxa.

Era um fim de tarde. Últimos raios de sol. A rua deserta. E o corpo continuava respirando, imóvel como uma estátua. Desacordado por causa desconhecida, ou algo assim. Pouco interessa. A ponta de receio que ainda resistisse dentro de mim, que estourasse de vez. Sem vacilo.

Para me certificar de que a situação era realmente favorável, deliberei que tinha de pôr à prova aquela epiderme aparentemente inocente. Preparei as unhas, apertei-as com força contra a carne debaixo, pus mais força e assim foi. Nem esperei o sangue aparecer, preferi correr para a ponta da gravata. Nenhum gesto. Resistência alguma.

Sem pensar muito, enfiei-me por debaixo do paletó, farejei as primeiras pegadas e avancei. Felizmente, havia folga para deslizar sob o tecido. Pude perceber um aroma cítrico, mistura de suor e perfume, e avancei sobre a camisa branca com algum gosto.

Logo notei uma marcação contínua que só confirmaria as evidências: o coração batia. Normalmente. Meus pressentimentos estavam certos, portanto. Aquele homem ainda respirava e continuava com vida. Mas… súbito interrompi qualquer sinal de dúvida. Pelo contrário. Era melhor que assim fosse, pois desse modo a empreitada se tornava ainda mais auspiciosa.

Fui para o lado esquerdo do paletó, abotoado que estava, e deparei com o bolso da camisa. Um tanto grande, aliás, a ponto de eu poder enfiar a ponta da cabeça. Num dos cantos havia uma caneta e um bloquinho de papel, com alguma coisa escrita. Fucei mais um pouco naquele ninho involuntário, senti calor. Bem que gostaria de ficar ali por algum tempo, pensei.

Virei de lado, buscando o conforto, e foi então que li a provocação rabiscada no papel. Simplesmente uma palavra: “metáfora”. Nada mais. Senti um choque inesperado. Ora, que coisa mais irritante. Depois de chegar a esse ponto, fazer todo o esforço, superar as cargas do medo e tal, era isso que eu tinha como recompensa? Tamanha desfeita e ironia?

Não, não me venham dizer que isso aconteceu por acaso, coincidências involuntárias, pois isso nada tem a ver com o espírito lógico. Palavras são palavras, têm o seu peso. Aquela mensagem estava diretamente direcionada para mim. Fiquei furioso, por certo. Sufocado. O que fazer? Sem resposta na cabeça, saí por cima do paletó e deparei com o pescoço. O rosto era a última parte que faltava explorar.

Apoiei-me no queixo para dar uma espiada. Via-se bem o corte dos lábios finos e os vastos cabelos grisalhos. O nariz formava a parte mais alta, por onde entrava e saía o ar, em ritmo compassado. Eu podia sentir aquela brisa também. Quanto aos olhos, escapavam à primeira vista, recolhidos num pequeno vale do rosto. Escalei o queixo e subi. Pisei nas bochechas fartas e movimentei-me em volta do nariz, com cuidado. O melhor que faria era me assentar sobre a testa, pouco espaçosa. Qualquer descuido me levaria ao chão.

Finalmente deparei com os olhos. Estavam abertos e absolutamente calmos. Castanhos e vivos. Isso mesmo. Porque era certo que as duas pupilas se movimentavam lá dentro, atentas, como se estivessem me observando. Será possível? Sim, aquele olhar estava me analisando. Prova material e definitiva. Aproximei-me e vi a minha imagem refletida. Eles seguiam-me, curiosos e vigilantes. E novamente senti o calor alarmante me corroendo a carne.

Estaria esse homem, então, me considerando uma simples metáfora? Queria o confronto? A prova dos nove? Está bem. Confesso que tive um primeiro impulso de fugir, tão insuportável era a sensação de estar sendo espiado, estudado. Mas não, permaneci observando as imagens refletidas na pupila. Que profissão teria? Resvalou ainda a questão, enquanto crescia o furor dentro de mim.

O absurdo estava tão próximo, inevitável, quem sabe pedisse uma doce conclusão. Mas não foi possível: tomado de impulso súbito, pus-me a roer aqueles olhos castanhos e suas pálpebras. Rápido e voraz. Tinha de ser assim. Devorar aquilo, até que o último resíduo do olhar desaparecesse por inteiro. Curiosamente, nenhuma gota de sangue saiu das estrias da carne – nem um pingo de vermelho. Roí tudo, sem deixar nada no fundo. Parecia mesmo que a falta dos glóbulos se tornara natural.

Cego, ele já não perturbaria mais ninguém. A ironia estampada em sua boca tornara-se grotesca com os buracos na cara. Dentro de mim, a agitação e o receio transformaram–se num coágulo transparente e leve. Sumiu no ar. Voltei a ficar tranquilo.

O último detalhe que me lembro foi ter pulado do rosto para o chão. E me enfiei no bueiro mais próximo.

Fernando Paixão é escritor e, a partir do segundo semestre, assume o cargo de professor de literatura do IEB-USP. Dentre vários livros publicados, o mais recente é A parte da tarde (Ateliê Editora, 2005).

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