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Ficção

Tales

LUANA GEIGEREra uma ideia romântica, mais ou menos desmiolada e sem dúvida nenhuma suicida. Algo que, no entanto, fez o gosto dos estudantes e o levou a representar o grêmio três semanas depois. O clima não estava preparado, ao contrário do que vieram a afirmar mais tarde. Nada disso. O discurso em que Tales lançou sua plataforma exuberante pegou todo mundo de surpresa. “Monarquia”

A ideia só podia ter nascido do seu charme. Com gosto mediterrâneo para roupas e sorriso constante à la revolución, era um tipo irresistível. Tinha opiniões que sempre pendiam levemente para cá ou para lá do consensual, conseguindo assim espaço para exibir seu conhecimento enciclopédico sobre assuntos diversos, como futebol e cinema, toda vez que surgia uma brecha. Era copiado por alguns estudantes, que tentavam sem sucesso passar aquela imagem de despreocupação que só ídolos do samba e cineastas esquerdistas da década de 70 conseguiam ostentar sem afetação. Bem, cineastas, sambistas e Tales, claro.

Frases grandiosas e dramatização de momentos históricos agradavam a imaginação de Tales de uma maneira toda especial. Naqueles dias, mais intensamente. Imaginava-se em uma toga branca observando Sócrates debater com um tabaréu, enquanto espiava a expressão admirada e invejosa (ele emprestava algo de seu ao panorama) do menino Platão, sentado a seu lado. Ou então via-se lado a lado com um camponês de frases claudicantes, com as mãos jogadas em sinal de desistência ou exaustão, caminhando sobre os escombros deixados por Napoleão numa cidadezinha qualquer da França. Ele diria para o coitado, num francês de época e sotaque irretocáveis: “Como se sente?”, e em seguida já se punha a imaginar a formulação exata, as palavras que o homem escolheria para sintetizar o que ele, Tales, desejava ouvir: que nada do que a história nem a filosofia, quiçá a geologia e seus testes de solo, nada daquilo sobre o que o conhecimento atual se sustenta é verdadeiro. Como seria sublime – e para lá imediatamente conduzia seu poder visionário – invadir um simpósio internacional de Estudos Franceses do Século XIX aos berros de “não era assim!”. Como seria reconhecido para sempre como aquele que mostrou a todos que, na verdade, “o povo” achava Napoleão isso, e não aquilo. A prova seria a clareza com que o verdadeiro francês-testemunha havia comunicado a ele que tal e tal; faria com que todos no auditório se calassem, humilhados em seu conhecimento sem vida e pilhas de conclusões assentadas em palafitas de sal, que agora se dissolviam na água límpida, no oceano de verdades contidas na simples declaração de um camponês “ouvido”, ou melhor, “revivido” por Tales em sua pesquisa. “Impressionante…”, e lá ia ele buscar o adjetivo exato que os grandes homens usariam para descrever sua revelação no futuro, “acho que eles dirão ‘impactante…'”.

Foram visões como essas que prepararam seu espírito para a grande empreitada. Buscando algo mais apropriado ao momento histórico, infelizmente mesquinho, das eleições do grêmio, iniciou-se no caminho cujo final era a tal Monarquia Estudantil. Como quem puxa a linha de volta para ver o que a isca traz, ia enrolando intenções num carretel: “Ser diferente, chamar a atenção dos alunos…”, ele testava a linha antes de puxar, “deve haver uma maneira de fazer isso”. Mais tarde percebeu que teria de “fazer algo que os deixasse com tanta raiva que se sentiriam obrigados a votar”. Foi então que a coisa se fez clara. Deu um tapa no colchão: “Monarquia!”, e começou a rascunhar uma proposta para o dia seguinte, quando as chapas seriam apresentadas formalmente.

Os Dinossauros (que, na condição de time de futebol sem gols, eram vistos com desconfiança pelos eleitores), a chapa Anarquia! (que nunca apresentou qualquer proposta que não o próprio nome) e a indefectível Mu-Dança (apoiada pela estranha classe de eternos primeiranistas que militavam contra o “projeto neoliberal da reitoria” e a favor do “ensino público, gratuito, de qualidade e para todos e todas”) estavam a postos na manhã de terça-feira. Cada um dos representantes se preparava para discursar na escada da cantina, onde por força da arquitetura mirrada era evidente que teriam quórum. Tales procurou cumprimentá-los como um político veterano e se colocou de lado, mas ninguém se deu ao trabalho sequer de estranhar a sua presença. A invisibilidade, no entanto, não combinava com ele. Vinte minutos depois demonstrou cientificamente esse fato. Tales havia nascido para falar ao povo:

“Não vou me estender para não cansar vocês, que nunca se interessaram pelo que acontecia aqui. Que nunca se deram conta do que faziam em seu nome, e por isso sempre ouviram tranquilamente discursos como esses que acabam de ser proferidos aqui nessa escada”. Tales considerou que havia cometido um erro, a palavra “escada” dava um ar de pouca importância ao evento, prometeu a si mesmo caprichar mais. “Nessa praça de debate, nesse instituto”, ele prosseguiu, orgulhoso da guinada que sua rápida intervenção conferiu ao discurso, “vocês votaram ano após ano em propostas iguais: ‘aumento do aluguel da cantina’, ‘investimentos massivos na biblioteca’, ‘equipagem das salas de estudo’, ‘liberação das cervejadas no campus’. Eu não proponho nada disso. A minha ideia é simples, e tão simples que vai parecer nova. Mas não é. Eu quero ser rei de vocês e, como todos aqueles que tiveram essa sorte antes de mim, quero levar vocês a me derrubar. A dar o golpe. A acabar com a gestão fraudulenta e sucateadora”, e aqui já não havia mais ninguém que não prestasse atenção nele, nem mesmo os mais politizados, que agora se sentiam roubados em seu vocabulário operário e em sua vocação para tratar com as massas: “Eu quero que vocês acabem comigo. Votem em mim para Cristo Redentor deste departamento. Muito obrigado”.

Por um desses milagres universitários que acontecem e geram lendas repetidas por toda uma geração, um estudante de filosofia havia conseguido falar ao coração de alguém. A bem da verdade, a muitas pessoas, e isso sem seguir um script muito popular. Havia discursado sobre algo que não entendia, havia menosprezado publicamente todos que entendiam e, numa jogada espantosa, havia se candidatado a um cargo religioso – um cargo espiritual, mais que isso, vocacional! um cargo intransferível e, e em todo caso, já preenchido – e esse estranho coquetel paralisara expressões, cativara a autoconfiança sempre em baixa dos calouros, trazendo para perto da escada até mesmo pós-graduandos dos mais ocupados, em suas camisas polo e bolsas de couro atravessadas no peito. O passado se fez imediatamente, e colocou Tales dos Santos no início dos tempos. Agora seria antes e depois dele.

Que deu um sorriso, depositou o megafone no degrau e passou imediatamente a distribuir santinhos, reproduzidos em xerox, com sua plataforma romântica, desmiolada e suicida. A expressão de espanto divertido dos estudantes não foi exatamente como lhe pareceram, em suas divagações, os rostos graves dos apóstolos ao ouvir de Jesus que um deles o trairia. Mas Tales oferecia-se ao abate da mesma forma, embora com propósitos bastante diversos. Tinha sido um discurso e tanto, “Impressionante”, ele ia repetindo baixinho, “Definitivo”, concluiu enquanto abria caminho na multidão de fiéis.

Beatriz Antunes, formada em filosofia, é editora de livros e publica seus textos em www.noticianenhuma.blogspot.com