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Ficção

Campo em branco

Para Julia

Na rodoviária, ele recusou o táxi, a bagagem era pouca e a empresa tinha arrumado uma pensão no centro, não deve ser longe. Sumiu pela rua lateral, de calçamento de pedra e um barulho distante de gente bebendo e falando, as fileiras de casas velhas e iguais faziam os telhados subir iguais, por cima de janelas e sacadas de ferro que se repetiam até o céu, todas iguais. Em menos de meia hora, uma mesma ladeira voltou de novo e de novo (a cidade é pequena, confusa). Economizou dinheiro jantando um misto-quente e no escuro do quarto o ventilador trepida, parece que vai se soltar do teto e cair feito um boeing.

Não muda muito e acontece assim: 1) a visita ao hospital da cidade; 2) a falsa apresentação como familiar; 3) o papo informal com o médico; 4) e se tudo corre bem, uma cópia do histórico de consultas e internações do morto. No caso do avô da Raquel foi fácil, o doutor Benaglia nem sequer fez perguntas. Com indiferença, abriu uma gaveta e entregou os documentos que comprovavam a doença cardíaca omitida pelo velho, tudo carimbado, em duas vias – o doutor Benaglia tinha os dedos tortos. Estendeu a mão, pegou os papéis, agradeceu e antes de sair, tossindo, lembrou da garganta, aproveitou pra falar da garganta, que estava irritada e doendo desde cedo. O médico vasculhou o bolso do jaleco, tirou um bloco desbotado e num garrancho, sem vontade, receitou algo (difícil de ler). Então se despediram. Na rua de novo, tentou não se perder; a casa da Raquel fica na parte antiga, do outro lado. Na passagem estreita, olhou o mapinha, seguiu pelo muro, ouvia um tambor, as vozes pareciam perto, ali, na rua, depois da igreja.

A Raquel perguntou se ele aceitava um café. Na casa, de dois andares e uma árvore cinza na frente, ela e o avô moravam sozinhos. O avô era reitor da universidade, consertava pianos (ou algo assim). Tinha morrido há cerca de um mês. De acordo com o registro 91.937 da seguradora, o velho sofrera uma cirurgia para a retirada de um rim, há três anos. Depois, nada mais. Tinha a saúde perfeita. Mas ela devia saber, não tocou no assunto, devia saber do coração do velho, o avô mentiu para a seguradora, ela provavelmente está mentindo também. A Raquel gesticulava com a coluna inclinada: “O lugar do meu vô era ali, naquela cadeira do canto”. Ela era bonita, usava grampos no cabelo fino e foi abrindo a cortina enquanto falava, “estávamos assistindo um filme na tevê, e acho que fui até o quintal ver por que o cachorro não parava de latir, quando voltei, meu avô estava ali, no chão”, pela janela, na rua, as crianças pulavam, o ar pontilhado de confetes, “demoraram pra chegar do hospital e abracei o corpo, o rosto, as mãos. Porque aquilo ali era meu vô, mas já não era, entende?” Ela parou. Ele apoiou a pasta sobre a mesa, a mão no braço dela: estou aqui pra te ajudar (lá fora, as crianças apostavam corrida, faziam guerra), tossiu e tirou a papelada: vou estar agilizando o processo, o dinheiro deve chegar em um mês, no máximo dois. O que precisava era da assinatura dela, e tossiu: a caneta, disse, e apontou o campo em branco.

Vai chover e choveu. Apesar disso o calor seguia forte. Sem camisa, deitado na cama, ele prestava atenção nas turbulências do ventilador, nas hélices que trepidavam, afundavam e pareciam rir (de soluçar), da sua magreza provavelmente. Rangiam, como se fossem despencar, dividindo-o em dois ? e nenhum daqueles seria ele. Quis mais de uma vez avisar o rapaz da recepção, mas teve preguiça. Estava cansado. A luz pálida dos primeiros postes se acendeu e pela vidraça um finzinho de sol pingava no vão antes da noite, sua última na cidade. A chuva foi passando, passando. Pensou em tomar banho, talvez dar uma volta.

Chapéus pontudos, cabeças de ave, de caveira, Neros e Césares, o bloco do rabanete, um corso de nuvens, de mulheres-fantasma, sereias, princesas e piratas, cameleiros e sufis, uma cortina de garoa morna? a Raquel. Forçou a vista, era ela; o batuque cresceu e a Raquel, ele tentava segui-la entre ombros, por cima de um casaco desbotado; ela surgia borrada, duplicava-se, depois sumia. Acendia, apagava. Não entravam em acordo, a Raquel que – os tambores, aquele amontoado de relâmpagos a carregou. Ele forçou na direção oposta, porque de repente também era empurrado pra dentro e dentro lideravam a correnteza um estandarte prateado e um homem vestido de touro com chifres de dois andares parecendo um ciclone que aumentava rodopiando, rodopiando, rodopi –

Sentiu um puxão no braço. Quase morreu de susto e a Raquel riu (a franja na testa, os olhos escuros de sombra), tentou falar e precisou berrar porque todo um clarão de conexões, batidas, vozes, trombones, mulheres de bigode, homens de saia, os encurralava (confuso e impossível de explicar assim, aqui, desse jeito). Ela disse, tentou dizer, que uma amiga, acho que se chamava Marina, Maria, ou não era nada disso também, estava dando uma festa e que – alguém gritou e ele não entendeu, mas ela falou alguma coisa como ter sido legal conhecer você, que a amiga, a festa, vamos com a gente, e obrigada por tudo, obrigada mesmo.

Estava quase amanhecendo quando na frente da casa da Marta ele se despediu da Raquel. Desceu uma ladeira, e a noite voltava – a competição de vinho ruim na cozinha, a história sobre um homem que convertia leões ao cristianismo, a Raquel dançando, girando, pessoas falando ao mesmo tempo, quase que, você tem um cigarro?, quer dizer a, quando eu era criança, isso, discutindo, não dá pra saber, outra cidade, sem nenhuma razão, a Raquel descobrindo comigo o telhado, deve ser, ou ele sim, só meu pai que, minha mão no meio das coxas dela, e no fim nós, é, claro, não tinha ninguém, nada, ninguém. Desceu uma ladeira, duas, se apressou. Nas calçadas, restavam os bêbados e no lugar dos piratas e índios, a carcaça de uma poltrona velha jogada no meio da rua. Pensou em ligar para casa, não aparecer na empresa. Tomar um banho, talvez dar uma volta. Ou simplesmente ficar assim, aqui, deitado no quarto, as mãos por trás da cabeça, olhando pra cima – a competição de vinho ruim, o homem que convertia os leões, a Raquel dançando, girando, descobrindo comigo o telhado. As coxas, o vestido curto. Tudo de contornos imprecisos, girando: um tipo de mancha. Apagada, mortificada, embranque – ele tossiu, e a garganta, o ventilador acabava com ela.

Emilio Fraia é jornalista, co-autor com Vanessa Barbara de O verão do Chibo (Alfaguara, 2008) e colabora com as revistas Trip e piauí.

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