HUMANIDADES

Print Friendly

Arquiteta da mudança

Reunião de ensaios em livro ressalta a essência do pensamento humanista de Lina Bo Bardi

GONÇALO JÚNIOR | ED. 162 | AGOSTO 2009

 

Masp em construção (1968)

A italiana Lina Bo Bardi (1914-1992), nascida Achillina Bo, já faria parte da história da arquitetura brasileira “apenas” pelos cartões postais que criou e projetou, principalmente em duas importantes cidades brasileiras – São Paulo e Salvador. Quase duas décadas depois de sua morte, suas obras, uma notável mistura de arquitetura moderna e arte visual, ainda fascinam seus colegas de profissão e a população que circula por entre os espaços que criou. Na capital paulista, são seus os projetos do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e do SESC-Pompéia. Na Bahia, entre os anos de 1986 e 1990, a arquiteta fez um importante plano de recuperação para o centro histórico de Salvador, em que defendia a preservação da “alma popular” da cidade, manter a população residente: a recuperação da Ladeira da Misericórdia, com o bar Coati; o Belvedere da Sé; o projeto Barroquinha; a Casa do Benin; a casa do Olodum e o Teatro Gregório de Mattos. Só para citar alguns exemplos. No entanto, quando perguntada qual o seu melhor projeto, declarava: “Talvez, a mais importante seja a capelinha miserável em Uberlândia, feita sem dinheiro, com os padres franciscanos e as prostitutas”. Lina, porém, além de ajudar a formar a história arquitetônica, mudava tudo à sua volta por diversos outros meios. Era agitadora cultural e pensadora de destaque, e procurava debater temas mais importantes da cultura urbana moderna.

A grande imprensa e as revistas especializadas foram fundamentais para a propagação do pensamento de Lina. Em Milão, com pouco mais de 25 anos, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ela se juntou aos colegas Bruno Zevi, Giò Ponti e Ernesto Rogers para escrever artigos seminais em defesa de uma visão contemporânea e crítica sobre o habitar urbano. Também divulgou as conquistas da arquitetura e das artes contemporâneas em publicações como Domus e Lo Stile. Não foi diferente quando se mudou para o Brasil depois do conflito. Em São Paulo, com o marido Pietro Maria Bardi (1900-1999) – com quem fundou o Masp –, dirigiu a revista Habitat, que se tornou um importante periódico das décadas de 1950 e 1960. Em suas páginas  defendeu as vanguardas artísticas europeias. Em Salvador, ao lado de intelectuais e estrangeiros ligados à Universidade da Bahia, semeou ideias que seriam as bases para os movimentos do Cinema Novo e da Tropicália.

A grandiosidade e a extensão de tudo que Lina criou e produziu ainda são desafios para muitos pesquisadores. Parte dessa lacuna começou a ser preenchida nos últimos anos com teses e, agora, com o lançamento do livro Lina por escrito, uma seleção de 33 artigos publicados entre as décadas de 1940 e 1990, selecionados por Silvana Rubino, professora do Departamento de História da Unicamp e conselheira do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional); e pela arquiteta e mestranda da FAU-USP Marina Grinover. O volume traz desenhos originais, fotografias e obras gráficas da própria arquiteta, incluindo alguns leiautes feitos por ela especialmente para a publicação original de seus textos.

Em São Paulo: escadas da casa de vidro

Considerada esparsa ou inacessível, a produção intelectual chama atenção pelo modo claro e inteligente com que a arquiteta procurou, como dizem as organizadoras, sensibilizar o público para a poética do simples, não como uma forma de constatação da miséria, mas representativa da riqueza de diversidades e de cultura do país. Assim, ela explorava questões do espaço de convivência entre homens livres, da memória edificada, da cultura popular, ao mesmo tempo que contemplava os temas que permea­ram sua ação profissional: o design industrial, a construção de habitação, sua aproximação com a arte popular, a museografia, a cidade como um todo, a preservação da memória urbana e do patrimônio histórico.

Silvana Rubino conta que seu contato com Lina – que não conheceu pessoalmente – é de quem se especializou na sua obra e trajetória. “Claro que antes havia uma admiração minha, mas meio irrefletida, pois edifícios como o Masp fizeram parte da minha experiência urbana e cultural.” Uma exposição sobre Lina, acompanhada do livro editado por Marcelo Carvalho Ferraz (Lina Bo Bardi, Editora Imesp), despertou nela a vontade de estudá-la. A pesquisadora conta que a seleção de artigos nasceu de conversas com Cristina Fino, que era responsável pelos livros da área de arquitetura da Cosac Naify. “Eu tinha defendido um doutorado (ainda não publicado) sobre a trajetória de Lina e, conversando com ela sobre lacunas ligadas à arquitetura no meio editorial, percebemos que fazia falta um livro que trouxesse seus artigos na íntegra.”

No primeiro momento, as duas dividiram os textos por temas. “Mas concluímos que ficaria um tanto desproporcional do ponto de vista editorial dessa forma e decidimos colocar tudo em ordem cronológica, o que permite ao leitor acompanhar os movimentos de reflexão da arquiteta no decorrer de seis décadas.” Foram excluídos 17 artigos – de um total de 60 – porque repetiam ideias ou temas de modo que tinham pouco a acrescentar. Alguns, diz a pesquisadora, tornaram-se verdadeiros “clássicos” da moderna arquitetura brasileira. Outros eram menos conhecidos. “Optamos por uma mescla de escritos que falassem de arquitetura, museus, cultura popular, patrimônio cultural etc. publicados em diversos momentos da carreira de Lina.”

São pensamentos que falam de temas diversos como educação, habitação, arte popular etc. “O arquiteto é um intelectual, pensar um edifício, uma cidade não deixa de ser um pensamento sobre a sociedade em que ele vive.

Lina Bo Bardi restaurando uma carranca do rio São Francisco

As preocupações de Lina eram de um intelectual de seu tempo”, avalia Silvana. O mais revelador, prossegue ela, é a constante tomada de posição de Lina em relação à arquitetura, àquilo que seus contemporâneos faziam. Dentre os artigos, um dos preferidos de Silvana é “Teoria e filosofia da arquitetura”. “Quando li essa aula, manuscrita, com algumas palavras meio italianizadas, levei um susto. Era puro Antonio Gramsci traduzido para os arquitetos! A partir dessa aula passei a ver com outros olhos o que ela discutia a respeito, por exemplo, da arte popular e, principalmente, a vê-la como uma artista que transitava entre diversos saberes.”

Outro ensaio que Silvana considera relevante é “Cinco anos entre os brancos”, que a professora descreve como uma espécie de carta-testamento. Trata-se, diz Silvana, de “uma análise ácida, corrosiva, sem anestesia”, das promessas feitas anteriores ao golpe de 1964, que não puderam ser cumpridas por causa da ditadura que se estabeleceu. “Roberto Schwartz escreveu que o Brasil estava irreconhecivelmente inteligente no começo da década de 1960 e Lina, de algum modo nesse texto, assina embaixo.” Não fala de arquitetura, mas das “esperanças coletivas que não serão canceladas”. O artigo foi publicado em 1967. “É belíssimo.”

Marina Grinover participou da preparação do livro porque os textos de Lina – sua fortuna crítica, em especial – são o objeto de seu mestrado na USP. Como o acervo é grande, Marina diz que há conteúdo para se organizar outros volumes. O instituto tem a maioria das revistas, jornais e catálogos onde os textos foram publicados desde 1941. Abriga ainda um acervo pessoal, cujos manuscritos e cartas estão em fase de organização. “Ao ler o conjunto de textos selecionados pela professora Silvana é possível entrar em contato com o universo temático de Lina e perceber que há um acento sempre propositivo de ideias que permearam a geração de arquitetos da qual ela fez parte”, avalia a pesquisadora. São pensamentos relacionados à cultura moderna e seus paradigmas. “Lina sempre acreditou no potencial emancipador que a arte (e podemos incluir aí a arquitetura) tem de nos fazer elaborar a existência (a vida enfim) coletiva e particular.”

Quem conhece bem os textos de Lina é a professora Vera Santana Luz, da PUC de Campinas, que em 2004 defendeu o doutorado em arquitetura e urbanismo na USP, Ordem e origem em Lina Bo Bardi, com orientação de Rafael Antonio Cunha Perrone. Na época, ela consultou inicialmente o acervo formalizado para consulta de Lina, montado pela professora Sophia da Silva Telles, da PUC de Campinas, acessível a pesquisadores. “A edição em livro de seus textos é das mais relevantes porque amplia o leque de acesso e de possibilidades para interessados em estudar sua obra e suas ideias.”

Vera chama atenção para o fato de que não existe paradoxo entre o discurso intelectual e a práxis de Lina. “Seu pensamento e realização de projetos e obras se tornaram um dos paradigmas da arquitetura moderna no século XX, não só por sua visão particular da arquitetura que poderia se realizar no Brasil como também do movimento moderno internacional.” A sua visão de mundo do papel da arquitetura, acredita a professora, é evidenciada em tudo que ela disse, escreveu e criou. “Acho que Lina conseguia aliar universalidade e especificidade – que em meu doutorado denomino ordem e origem, respectivamente – nos termos mais amplos que essas expressões podem alcançar, sem cair em esquematismos regionalistas ou de generalização vazia.”


Matérias relacionadas

URBANISMO
Área urbana abrange menos de 1% do território brasileiro
ARTE
Conheça os ensaios fotográficos dos premiados na categoria Arte
JOSÉ MARCOS PINTO DA CUNHA
Cidades de Campinas se unem para resolver problemas em comum