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Ivana Arruda Leite

A bola azul de Gagarin

danilo zamboniNo dia do fim do mundo eu acordei com uma barulheira infernal na calçada. Centenas de pessoas tomavam a rua aos gritos e choro, especialmente as mulheres e crianças. A brigada de soldados ia na frente arrebentando os portões e entrando na casa de quem, por ventura, ainda estivesse dormindo. Na minha, tiveram que pôr abaixo a porta do quarto pra me arrancar da cama.

Eu andava com insônia há dias e havia tomado um remedinho pra dormir. Coisa leve. Mas forte o suficiente para achar que os gritos que eu ouvia faziam parte do meu sonho, onde um batalhão de homens fardados entrava no meu quarto.

Acordou-me o mais alto deles, arrancando-me da cama num safanão.

— Levante-se imediatamente e desça já para a rua. O mundo está acabando.

O susto foi tão grande que eu quase morro ali mesmo, antes do fim do mundo.

Moro na mesma casa desde o dia em que nasci. Enquanto meus pais eram vivos, morávamos os três aqui. Depois que eles se foram, passei a ser o único ser vivente neste casarão. Tentava desesperadamente dizer isso ao homem que vasculhava os cômodos da casa sem me dar ouvidos.

Tenho sessenta e dois anos e nunca homem nenhum me viu nesses trajes. De camisola. Uma camisola de cambraia totalmente transparente. Por mais que eu tentasse esconder os seios, era inútil. Não me deixaram nem apanhar o peignoir que estava sobre a cadeira. Por sorte os chinelos estavam ao pé da cama. O cabelo, que sempre mantenho preso como convém a uma mulher da minha idade, foi solto mesmo. Uma velha descabelada, de camisola, sentada na calçada esperando o fim do mundo. Era isso que eu era.
O que tenho eu a ver com o fim do mundo?, eu me perguntava espremida entre uma mulher que amamentava um bebê de poucos meses e outra que dizia à filha que seríamos engolidos por uma falha geológica que se abrira não sei onde. A falha não seria maior do que a boca da menina diante da explicação da mãe.

Mais e mais gente chegava à calçada trazida pelas brigadas. A multidão lotava as ruas do bairro à espera do fim do mundo.

Não é de hoje que ouço essa conversa. Desde que o mundo é mundo, seu fim se anuncia. Nem sei quantas vezes ouvi na escola ou no catecismo as meninas apavoradas dizendo que o fim do mundo estava próximo. Vai ser esta semana. Até o fim do mês, é certeza. Desse ano não passa. Chegava em casa desesperada e me pendurava no pescoço de papai.

Ele enxugava minhas lágrimas e me consolava:

— Sossegue, Lenita, o mundo não acaba tão cedo. Nós todos morreremos e ele continuará existindo por milhões e milhões de anos – a ideia de que eu morreria, de que toda a minha família morreria e o mundo continuaria de pé me dava um certo alívio.

Mas eis que no meio da madrugada, quando eu já nem pensava mais no assunto, chegou o temido dia. Parece que de hoje não passamos.

À tarde não haverá mais pôr de sol nem alvorecer na manhã do dia seguinte. Nunca mais haverá dia seguinte. Não é triste isso?

Só não entendo o porquê de tanto escarcéu. O mundo não podia terminar com cada um deitado na própria cama, no conforto de sua casa?

Falha geológica, fogo vindo do céu, oceano engolindo continentes – as informações são totalmente desencontradas. Cada um fala uma coisa. Bomba H, terceira guerra mundial, uma nuvem de gases tóxicos, explosão nuclear, tsunami, terremoto, maremoto. As opções são muitas sem que ninguém se decida por qual será. Castigo divino? Línguas de fogo descendo dos céus? Era assim que as freiras diziam que o mundo terminaria. Nossos pecados eram tantos que a ira de Deus nos transformaria em pó e fumaça. Será esse o nosso fim?

Nunca acreditei nessa história de extraterrestres, de vida inteligente fora da terra, mas, e se fosse verdade? Será uma invasão alienígena? E se o tempo todo eles estavam por aqui só esperando o momento certo do ataque? Seremos resgatados por algum deus de outra galáxia? Teremos uma segunda chance longe daqui?

Não poucas vezes perguntei a Bernardo, meu sobrinho geólogo.

— Até quando a terra suportará tantos maus-tratos?

— Ora, Dinda — ele me dizia —, não é fácil explodir a bola azul de Gagarin. Nós voaremos pelos ares e ela continuará vagando solitária por milhões e milhões de anos.

Se ao menos ele estivesse aqui para me explicar o que está acontecendo. As pessoas se desesperam com a falta de notícias.

Ontem à noite eu ouvi todos os noticiários e em nenhum deles comentou-se nada sobre o fim do mundo. Ao final, despediram-se como de costume: “Boa noite e até amanhã”.

Se eu soubesse que era hoje o dia, teria me agarrado à vida de outro jeito. Com muito mais voracidade. Morrer sem ter cometido nenhuma vilania, nenhuma insensatez? Sem ter perdido sequer a castidade? Presenciar o fim do mundo desse jeito? De camisola, descabelada, longe de Bernardo, sem nenhum conhecido por perto?

A brigada nos manda ter calma. Sento no meio-fio e espero. Afinal, a paciência foi sempre a minha maior virtude. Pelo visto, inútil.

Ivana Arruda Leite nasceu em 1951, em Araçatuba. É mestre em sociologia pela Universidade de São Paulo. Publicou livros de contos: Falo de mulher, Ao homem que não me quis; a novela Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60 e dois romances: Hotel Novo Mundo e Alameda Santos. Tem o blog www.doidivana.wordpress.com

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