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Novos materiais

Fibra bactericida

Mistura de celulose de cana e quitosana resulta em fibra com propriedades medicinais

Eduardo CesarA partir da esquerda: celulose do bagaço, quitosana e a fibra híbridaEduardo Cesar

As possibilidades do uso do bagaço de cana-de-açúcar se ampliam. Uma das mais recentes é uma fibra têxtil com propriedades medicinais elaborada com a celulose desse resíduo e quitosana, um polímero produzido a partir da quitina, uma substância extraí­da da carapaça de caranguejo, camarão, lagosta e outros crustáceos. Essa combinação resultou numa fibra para uso em curativos com propriedades cicatrizante, fungicida e bactericida, além de apresentar conforto e resistência. O estudo coordenado pelo professor Adalberto Pessoa Júnior, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), contou com a pós-doutoranda Sirlene Maria da Costa, atualmente pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), e a engenheira química Silgia Aparecida da Costa, professora do Curso de Têxtil e Moda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, que fez a sugestão da pesquisa depois de ter desenvolvido fibras semelhantes com celulose comercial de madeira e quitosana.

“Queremos criar uma fibra têxtil tecnológica e, a partir dela, construir tecidos para fabricação de bandagens e vestuário para portadores de deficiên­cia física, como paraplégicos, idosos com baixa mobilidade e pacientes que ficam muito tempo no leito e estão sujeitos ao desenvolvimento de úlceras de pressão na superfície da pele”, diz Silgia. “Como a nossa fibra age na cicatrização e combate a bactérias e fungos, talvez nem todos os pacientes precisem, no futuro, usar pomadas ou fazer curativos nos ferimentos.” Segundo a pesquisadora, embora boa parte do bagaço e da palha da cana seja queimada para geração de energia elétrica, ainda resta um excedente que poderá ser transformado nessa fibra têxtil especial.

O projeto rendeu a elaboração de uma patente pela Agência de Inovação da USP. O desenvolvimento das fibras já foi finalizado e agora estão sendo realizados testes físicos, químicos e biológicos. “Queremos comprovar a resistência da fibra para a construção de tecidos, malhas ou outros materiais com capacidade para absorver a umidade da secreção das feridas e apresentar ação bactericida e fungicida.”

Além da fibra híbrida com quitosana, também estão sendo desenvolvidos outros tipos de fibra em que são testadas a incorporação de enzimas como a lisozima, encontrada na clara do ovo de galinha com propriedade bactericida, e bromelina, enzima extraída do abacaxi e capaz de limpar ferimentos. A expectativa do grupo é de que os ensaios sejam concluídos dentro de um ano, quando o produto estaria pronto para ser fabricado em escala piloto. “Nossa intenção é que exista interesse das empresas tanto do setor têxtil quanto farmacêutico para desenvolver a tecnologia”, diz Silgia.

Os projetos
1. Desenvolvimento de novas fibras têxteis à base celulose regenerada e quitosana para aplicações médicas (nº 06/56970-4); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Co­or­de­na­dora Silgia Aparecida da Costa – USP; Investimento R$ 70.048,97 e US$ 17.356,00 (FAPESP)
2. Desenvolvimento de fibras têxteis a partir de celulose de bagaço de cana-de-açúcar com a incorporação de fármacos e enzimas para aplicações médicas (nº 07/53577-2); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Co­or­de­na­dor Adalberto Pessoa Júnior – USP; Investimento R$ 90.787,33 (FAPESP)

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