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Carta da editora | 192

Aritmética do cérebro

Resta alguma dúvida entre os neurocientistas sobre a real importância da determinação exata do número e da distribuição espacial dos neurônios para o avanço do conhecimento de um dos mais fascinantes objetos de pesquisa científica em qualquer tempo: o cérebro humano. Quantificar e mapear essas células certamente pode ajudar a compreender como o cérebro funciona. Mas parece insuficiente deter-se em tais dados para desvendar o que há de intrigante nesse órgão que um cientista como António Damásio, por exemplo, procura apaixonadamente devassar em seu recente E o cérebro criou o homem, recorrendo – sem se preocupar com fronteiras entre disciplinas – a todo o arsenal de conhecimento disponível que lhe permita avançar em seu intento.

Nosso editor de ciência, Ricardo Zorzetto, leva isso em conta na reportagem de capa desta edição. Dá a palavra no texto a quem adverte sobre quão importantes, talvez mais que os neurônios em si, são as conexões efetivas que essas células estabelecem, criando redes que processam a informação de forma distribuída. E faz isso para contextualizar cientificamente o objeto central da reportagem de capa desta edição: uma técnica brasileira que permitiu uma recontagem mais precisa dos neurônios e de outras células cerebrais humanas e, em decorrência, uma investida contra alguns dogmas da neurociência.

A técnica desenvolvida por pesquisadores do Rio de Janeiro, sob a liderança do respeitado neurocientista Roberto Lent, permitiu a afirmação de que há 86 bilhões de neurônios no cérebro humano, e não 100 bilhões como se acreditava. E que eles estão acompanhados por 85 bilhões das chamadas células da glia, em vez de 1 trilhão delas como alardeado antes. Para facilitar o trabalho, os pesquisadores desenvolveram inclusive uma máquina, o fracionador celular automático, cujo modo de funcionamento constitui sem dúvida um belo achado, mesmo que descrito em detalhes possa embrulhar estômagos mais sensíveis. Vale a pena se inteirar desse lado quantitativo dos avanços no estudo do cérebro.

Vou me permitir aqui exercitar uma certa liberdade do gosto pessoal, ao requisitar atenção especial do leitor para dois textos que não estão entre os destaques da capa e, portanto, não são os mais importantes desta edição. São, no entanto, saborosos, interessantes, e conto com a cumplicidade do leitor para entender a minha escolha. O primeiro é a pequena entrevista de Rajendra Pachauri, presidente há 10 anos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), concedida a nosso editor especial Carlos Fioravanti. Entre muitas outras batalhas que vem enfrentando no cargo, Pachauri fala sobre a mais recente, a da comunicação. Sua pretensão é fazer com que os resultados do painel cheguem a públicos mais largos que os círculos científicos, razão por que contratou como coordenador de comunicação, em 1º de dezembro passado, o jornalista Jonathan Lynn. O segundo texto é uma reportagem do jornalista Salvador Nogueira sobre recentes achados a respeito da chamada deriva continental, a movimentação dos grandes blocos de rocha que formam os continentes, que reforçam a hipótese de que foi por pouco que o atual nordeste brasileiro não se tornou parte do atual território africano. “O Carnaval de Salvador teria de ser brincado do outro lado do oceano”, brinca um dos autores do estudo com espírito pré-carnavalesco. Boa leitura!

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