Imprimir PDF

Jayme Serva

Derme

danilo zamboni— Não, não faz o menor sentido.

— Mas, doutor, a medicina tem avançado tanto, será que uma cirurgia como essa é tão difícil assim? Já se faz transplante de coração e pulmão, já se faz homem virar mulher, já se faz até transplante de rosto. Eu não estou pedindo para virar o Robert Redford, eu só quero voltar a ser eu mesmo.

— Mas você não entende…

— Não, doutor, se eu entendesse não estaria aqui. Quem entende é o senhor, é por isso que eu estou nesta sala lhe pedindo uma solução.

— Mas é uma coisa, me perdoe, sem muito cabimento, eu não sei por que tanto sacrifício.

— Doutor, eu já lhe contei.

— Mas não me convence.

— Está bem, vou lhe contar outra vez.

“Nem preciso descrever minha família, o senhor a conhece desde antes de eu nascer. Talvez não conheça detalhes. O fato de eu ser o terceiro filho me dava uma sensação ambígua de liberdade e abandono. É assim em família de médico: o primogênito já nasce médico, da mesma especialidade do pai; o segundo pode escolher outra especialidade; o terceiro – quem é o terceiro?

“Como ninguém prestava muita atenção em mim, enquanto meus irmãos se ocupavam das notas altas, encantando papai e mamãe com seus boletins e sua dedicação, eu brincava no piano de armário. Com o tempo, fui conseguindo imitar musiquinhas. Já na adolescência, tinha uma certa destreza no teclado que um e outro adulto chegaram a qualificar como talento, imagine.

“O fato é que cheguei aos 17 anos tocando razoavelmente, mas com uma avaliação generosa dos meus amigos. E, vale dizer, das minhas amigas também. O senhor sabe como são as meninas quando fazem uma avaliação generosa: em pouco tempo, eu tive de enfrentar a situação terrível de revelar meu segredo mais íntimo: a pinta.

“Aquilo era indisfarçável, qualquer relação que evoluísse à intimidade me obrigaria a mostrá-la. A pinta ocupava, o senhor sabe, algo como vinte e cinco por dez centímetros. Muito escura. E peluda, fartamente peluda. Dona do lado direito da minha coxa direita.

“Com isso, retardei o quanto pude – e como era sofrido, que tortura –, retardei ao máximo minha primeira relação sexual. Foi uma experiência terrível, eu já namorava havia uns três ou quatro meses, ela era um ano mais velha, a lógica era que a gente já tivesse ido para a cama. Uma noite, não deu para evitar. Estávamos na casa de uns amigos dela, tudo como manda o figurino, um quarto vago, um clima. Acabei fazendo sem tirar as calças, um horror. Ela me achou um animal, mas o que teria achado se tivesse visto ou tocado aquela coisa peluda?

“Com o tempo, e a muito custo, fui permitindo que vissem. Mas eu ficava para morrer. Não conseguia ir para a cama mais do que três ou quatro vezes com a mesma mulher, a vergonha ia crescendo, ficava insuportável e eu então dispensava a moça – com algumas delas eu teria mesmo me casado, não fosse pela pinta.

“Ganhei fama de Don Juan. Isso gerou ódios, tanto das mulheres que eu deixava como dos homens que as desejavam, mas também gerou fascínio. Parecia que, para cada namorada que eu deixava, apareciam quatro ou cinco novas interessadas.

“A sensação de carregar a pinta era cada vez mais insuportável e se agravava com uma reação comum entre as mulheres: elas queriam me fazer acreditar que aquela coisa horrenda as excitava. Faziam carinhos nos pelos, gemiam olhando para aquilo, falsas, falsas, falsas.

“Foi por essa época que eu me lembrei do senhor, o amigo da família, a referência em dermatologia, o profissional ético e discreto. Quando eu vim aqui pela primeira vez, havia uma razão a mais, o senhor sabe: ela, que era a mais encantadora das mulheres deste mundo, eu não podia perdê-la – e não podia tê-la enquanto tivesse aquela deformidade horrorosa.

“Sim, o senhor me atendeu muito bem, muito rápido e com muita discrição. Eu menti a ela, disse que ia tirar um fibroma, mas que a primeira coisa que faria depois da alta era levá-la para jantar. Fizemos a operação, o senhor se lembra da minha alegria quando vi pela primeira vez a perna sem o pelame, livre daquele negrume, apenas com a cicatriz que, mesmo grande, me parecia um sinalzinho, perto do que havia antes no lugar.

“Uma semana depois da alta, liguei. Combinamos sair dali a dois dias. Eu estava exultante, mal podia esperar. Na noite combinada, lá estava eu, todo arrumado, perfumado, quinze minutos adiantado – eu, que sempre me atrasava para qualquer encontro. Quando ela chegou, quase uma hora depois, a recebi como uma rainha, servi o champagne, beijei-lhe as mãos, derramei elogios e mesuras. Durante o jantar, contei detalhes da minha vida de músico, fingi modéstia e exagerei talentos. Ela riu muito, falou do quanto era bom estar ali, perguntou da cirurgia, apenas para ouvir mais uma mentirinha. Na sobremesa, já sabíamos onde a noite ia acabar – e eu havia reservado um quarto alto, dois degraus acima da minha conta bancária.

“Chegamos aos beijos, tinha mais champagne ao lado da cama, uma noite de sonhos. A primeira noite em que fiquei nu, na frente de uma mulher, sem nada a esconder. A primeira noite em que me deitei com uma mulher fria. Ela até que cumpriu a agenda da ocasião, mas eu nunca senti distância como aquela. Não fui capaz de entender, atribuí a ela o problema – não dizem por aí que uma em cada quatro mulheres é frígida?

“Mas o que veio depois é que todas as mulheres com que cheguei a ficar nu me trataram como uma nota falsa, me olharam com decepção ou desprezo. Demorei para entender que era a pinta, e não eu, o que as encantava. Eram os pelos repugnantes o que as seduzia. Aquele pedaço de pele negra, cabeludo, quase independente de mim, intruso, era o que fazia a diferença. Não, ninguém me disse, eu percebi. Não sei se havia comentários, mas por que alguém diria qualquer coisa de bom sobre aquela pinta? Só o que eu sei é que preciso tê-la de volta.”

— Você há de entender que não há como.

— Há, sim, precisa haver. Doutor, eu tenho ouvido falar de tanta coisa.

***

Johannesburgo, … de … de 20…

Meu caro Doutor,

Escrevo para contar-lhe em primeira mão as boas-novas e, na medida do possível, saber de suas impressões. Estou muito entusiasmado com esta estada, abriram-se novos horizontes, ao que parece, para logo. Não há – e perdoe-me a franqueza – o excesso de pruridos que tanto retardou uma solução aí no Brasil.

Eles são muito criativos por aqui, não é à toa que o transplante de coração foi inventado nestas terras. Afinal, numa mistura entre África e Holanda, parece que tudo pode,  que não existe pecado.

O médico que me recomendaram tem uma solução que me parece muito engenhosa e adequada, e que, embora não restitua toda a área de minha pinta, pode dar um aspecto semelhante. O que ele propõe é que eu implante, no lugar em que ficava a pinta original, uma secção de pele de uma doadora negra – o que devolveria a coloração do local – e de uma parte do corpo naturalmente rica em pelos – o púbis.

Eu acho que pode ser uma grande solução. Há uma doadora disposta a fazer o negócio (não é barato) e eu quero o quanto antes resgatar a minha pinta, ou ao menos parte dela.

O que o senhor acha? Por favor, me responda o mais breve que puder. Preciso ter certeza de que as peles são compatíveis, de que a pigmentação se mantém. Eles me dizem que os pelos crescem. Crescem?

Afetuosamente seu,

Jayme Serva é diretor da Editora Neotropica, de São Paulo, e roteirista de documentários. Tem colaborações publicadas em diversos veículos de comunicação.

Republicar