ARTE

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Construir a música

Textos de pesquisadores compositores trazem reflexões sobre a criação sonora contemporânea

JOÃO MARCOS COELHO | Edição 198 - Agosto de 2012

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Escultura sonora de Marco Scarassatti: Tzimtzum – Palácio e refúgio

Vão longe os tempos heroicos em que o compositor travava duríssima batalha para “edificar a grande obra revolucionária”. É assim que o compositor Marco Scarassatti, paulista de Campinas, 41 anos, professor na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), abre sua reflexão sobre o Ofício do compositor hoje (Perspectiva, 2012), coletânea de 14 ensaios, coordenado por Lívio Tragtenberg. A maioria dos textos preocupa-se em demarcar território. Scarassatti, ao lado do compositor paulista Silvio Ferraz, 52 anos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), são dois pesquisadores que pensam de modo consistente a criação musical de hoje.

“O campo de atuação do compositor hoje tornou-se muito mais vasto e abrangente do que a capacidade do conceito música de se expandir. A música torna-se apenas mais uma das artes ligadas ao sonoro ou à arte sonora”, escreve Scarassatti. “Meu trabalho se insere muito mais no campo da arte sonora do que na música.”

Autor do excelente Walter Smetak, o alquimista dos sons (Perspectiva, 2008), sobre o “escultor sonoro” suíço radicado na Bahia que formou gerações de músicos eruditos e populares, Scarassatti diz que também gosta de “construir a música materialmente, com as minhas próprias mãos”. Como Smetak, ele inventa instrumentos musicais com pedaços de objetos abandonados, junta fragmentos conceituais de outras culturas e molda essa junção com práticas de exploração sonora através da improvisação dirigida. Seu grupo Sonax cria esculturas musicais e intervenções sonoras com live electronic. Os materiais são caixas de madeira, tubos de PVC, sucatas, polias, molas, cordas, cravelhas etc. “Meu interesse é o som acústico, a invenção de novos instrumentos conjugando a busca de novas sonoridades com a forma plástica.”

Várias esculturas sonoras são reproduzidas no livro. Seu sonho é “viver da coleta de objetos e fragmentos de objetos ao nosso redor. Compor e recompor utensílios, aparelhos, artefatos em geral (…) só haveria negociação e permuta. Feira de trocas”.

Negociação da escuta, feira de trocas. Pode ser acaso, mas não parece. 
O artigo de Silvio Ferraz, intitulado “Escutas e reescritas”, constrói-se em aforismos que se interligam. “Escrever música corresponde a fazer passar em um só momento, em um punhado de espaço-tempo sonoro, um tanto de vida, de pessoas e de lugares.” Silvio propõe “silenciar os códigos” aferrados “à ideia de arte, e arte confunde-se com belo, com útil, com importante, com nobre, com revolucionário”.  Marco e Silvio rejeitam “a grande obra revolucionária”. Querem interagir com “vida, pessoas, lugares” (Silvio); compor/recompor o mundo a partir de junções de pedaços de objetos (Marco).

Tubal cretino

Silvio aponta para outros vértices. Alerta que “no jogo de escrever música talvez o mais difícil seja manter-se como potência livre, como linha solta que conecta mais de um coletivo, que delimita um espaço ao mesmo tempo que se abre para outros”. Compara a arte do compositor à do enxame. No centro, as abelhas são mais lentas; na borda, mais soltas, em maior velocidade.

“A arte de um compositor está em ora encontrar o centro e perder sua velocidade de invenção, ora colocar-se na borda e livrar-se dos códigos determinantes do coletivo.” Um paradoxo, pois ao mesmo tempo que “está feliz por ter seu trabalho aceito”, ele “questiona essa aceitação, reconhece que perdeu a força que lhe dava velocidade”.

Assume o movimento pendular entre vanguarda e tradição, ciente de que, “passado o tempo, muitas vezes o conforto da receptividade de um coletivo é mais do que reconfortante, é sufocante. Nesse ponto nasce o compositor, aquele que inventa novos modos de fazer entrar o oxigênio”.

Marco e Silvio guiam-se pelo que o primeiro chama de “desterritorializar o que se concebe como música, desmecanizar as relações já prontas e preestabelecidas”. O outro remete ao mergulho de Guimarães Rosa “no dizer do homem do sertão para ligar o homem à onça, a onça ao som, como se uma língua estivesse nascendo enquanto estamos lendo. Talvez seja este ponto que a música deva buscar, o ponto em que se inventa uma língua, que se desdobra e se inventa ao mesmo tempo que é escutada, sempre pela primeira vez”.

Para ouvir e ler:

CD Sonax, com Marco Scarassatti, Nelson Pinton Filho e Marcelo Bomfim, selo Creative Sources, 2008, Portugal

CD Trópico das repetições, com obras de Silvio Ferraz, selo Sesc, 2008

Walter Smetak, alquimista dos sons, de Marco Scarassatti, livro + CD, Ed. Perspectiva, 2008

Música e repetição, de Silvio Ferraz, Educ, 1998

Livro das sonoridades, de Silvio Ferraz, Editora 7Letras, 2005

O ofício do compositor hoje, Lívio Tragtenberg (organizador), Ed. Perspectiva, 2012

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