PESQUISADORES EM EMPRESAS

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Expansão mineral

Vale completa 70 anos investindo em projetos de longo prazo com foco em desenvolvimento sustentável e mineração

DINORAH ERENO | ED. 198 | AGOSTO 2012

 

A partir da esquerda, Regina Bronstein, Sandoval Carneiro, Roberto Dal’Agnol, Cláudia Diniz, Luiz Eugênio Mello, José Oswaldo Siqueira e Hugo Resende, todos ligados ao Instituto Tecnológico Vale

Em sete décadas a Vale passou de uma pequena mineradora de Itabira, em Minas Gerais, ao posto de líder mundial na produção de minério de ferro, além de ser a segunda maior produtora de níquel. Espalhada por 38 países dos cinco continentes, a mineradora atua ainda nos setores de logística, que engloba ferrovias, terminais portuários e navegação de cabotagem, energia e fertilizantes. Essa posição de destaque está ancorada em grandes investimentos destinados a tecnologias de ponta e em pesquisa e inovação. As demandas imediatas dos clientes são apoiadas por três centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D), dois no Brasil e um no Canadá. Outras pesquisas, com visão de longo prazo em diversas áreas, são feitas por meio do Instituto Tecnológico Vale (ITV), criado em 2009.

As primeiras discussões para a criação de um instituto sem fins lucrativos começaram em 2007, mas o projeto só ganhou corpo no final de 2008, com a contratação de Luiz Eugênio Mello, neurofisiologista que na época exercia o cargo de pró-reitor de Graduação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e hoje ocupa o cargo de diretor-executivo do ITV. “No ano passado a Vale investiu US$ 1,7 bilhão em P&D. Apenas no ITV foram quase R$ 23 milhões aplicados”, diz Mello, ex-coordenador adjunto da diretoria científica da FAPESP. Em 2011, o lucro líquido da mineradora foi de US$ 22,8 bilhões, evolução de 32% em relação a 2010.

Desde a sua criação, o ITV fechou 97 convênios de P&D e fez parcerias com 36 instituições nacionais e internacionais, como Embrapa, Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça, entre outras. O instituto também tem parcerias com a FAPESP e as fundações de amparo à pesquisa de Minas Gerais e do Pará, no valor de R$ 120 milhões, destinados a projetos de pesquisa nas áreas de mineração, energia e ecoeficiência.

Duas unidades de pesquisa com focos distintos, Desenvolvimento Sustentável, em Belém, no Pará, e Mineração, em Ouro Preto, Minas Gerais, são responsáveis por pesquisas nas áreas de mudanças climáticas, gestão de águas, sustentabilidade na indústria da mineração, biodiversidade, energia e tecnologia para monitoramento ambiental, definidas como prioritárias em workshops realizados em 2010 pela Vale, com a participação de pesquisadores de diversas instituições e áreas do conhecimento.

À frente do ITV Desenvolvimento Sustentável desde novembro de 2010 no cargo de diretor científico está Luiz Carlos de Lima Silveira, médico de formação e neurocientista. Atualmente 33 pesquisadores das mais diversas formações conduzem pesquisas em seis áreas: biodiversidade, focada em microbiologia do solo e biotecnologia de plantas; mudanças do clima; manejo de águas; bioenergia e fotossíntese; sustentabilidade na mineração; e monitoramento ambiental. Duas áreas – arquitetura e urbanismo sustentável na Amazônia e sustenômica, definida como a ciência do desenvolvimento sustentável – perpassam as outras seis.

Imagem de computador mostra o novo projeto de beneficiamento de minério em Carajás

Silveira, criador do programa de pós-graduação em neurociências e biologia celular da Universidade Federal do Pará (Ufpa), avalia seu trabalho atual como uma espécie de continuidade da vivência acadêmica. “Ao longo da minha carreira como pesquisador ganhei experiência administrativa com a implantação de dois grupos de pesquisa, um de ciências básicas e outro em neurociência de medicina tropical”, pondera. “Essas credenciais me conduziram para a atual função”, diz Silveira, formado em medicina pela Ufpa, com mestrado e doutorado em biofísica pela Universidade do Rio do Janeiro (UFRJ) e pós-doutorado em neurociência pela Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Fenômeno urbano
Na sua avaliação, criar um grupo de pesquisa no Brasil exige uma série de habilidades, em particular na Amazônia, onde há disparidades regionais e é preciso fazer a integração com o resto do Brasil. No ITV de Belém mais de 10 projetos de pesquisa estão sendo conduzidos atualmente em colaboração com instituições locais, como Ufpa e Embrapa Amazônia Oriental, e internacionais, como o Instituto de Biotecnologia de Flandres, na Bélgica, e o Instituto Weizmann de Ciências, de Israel.

A escolha de Belém como um dos eixos físicos da rede de pesquisa é estratégica. A capital do estado do Pará, onde a Vale tem uma grande operação de extração de minério de ferro na serra dos Carajás, tem 2 milhões de habitantes. Só as minas de Carajás respondem por 36% do minério de ferro produzido pela Vale atualmente, que em 2011 chegou a 322,6 milhões de toneladas. “Belém é uma metrópole situada geográfica e temporalmente sobre forças que se equilibram na fronteira entre a Amazônia e o Atlântico, com uma riqueza de biodiversidade que tem de ser estudada”, diz Silveira. Duas pesquisas já estão bastante avançadas, uma sobre urbanismo chamada projeto Urbis, dedicada ao fenômeno urbano na Amazônia oriental, e outra sobre os impactos climáticos das operações da Vale.

O Urbis é coordenado por Ana Cláudia Cardoso em parceria com o engenheiro espacial Antonio Miguel Monteiro, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). “A nossa ideia é trabalhar uma visão multidisciplinar para o fenômeno urbano do Pará”, diz Ana Claudia, formada em arquitetura e urbanismo pela Ufpa, com mestrado em planejamento urbano pela Universidade de Brasília (UnB) e doutorado em arquitetura pela Universidade de Oxford Brookes, na Inglaterra. A proposta é entender como as grandes atividades econômicas, como mineração, pecuária e exploração da madeira, estão influenciando não só a metrópole, mas também as cidades médias e pequenas localidades situadas nas áreas de conversão da floresta, assim como as vilas no limite das estradas e na beira dos rios. Do projeto participam economistas, urbanistas e ecólogos, de instituições como Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fundação Getúlio Vargas e outras, que vão analisar com ferramentas específicas os padrões de ocupação do estado. “As taxas de migração do Pará são quatro vezes as do Brasil em alguns municípios, por conta da dinâmica de investimento da própria Vale e também pela influência da agropecuária”, diz Ana Claudia.

Pátio de estocagem do minério de ferro em Carajás

No grupo de pesquisa em mudanças climáticas estão um físico e dois meteorologistas, coordenados por Luiz Gylvan Meira Filho, ex-presidente da Agência Espacial Brasileira. Luís Antônio Lacerda Aímola faz parte desse grupo desde que saiu de Israel, onde trabalhava como pesquisador na área de mudanças climáticas e modelagem, diretamente para Belém. Formado em física pela Unicamp, fez doutorado em ciência ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado no Instituto Weizmann. “O que me atraiu foi a visão inovadora de uma empresa de criar um centro de excelência em pesquisa voltado para a área de desenvolvimento sustentável com possibilidade de desenvolver pesquisa de longo prazo”, diz Aímola.

Eventos climáticos
Desde maio do ano passado, ele trabalha em um projeto que procura integrar os aspectos físicos – como possíveis alterações no regime de chuvas na região tropical devido ao aquecimento global – aos econômicos na modelagem climática. “Se houver modificações significativas pode mudar inclusive a dinâmica da floresta amazônica”, diz. Como a mineração depende dos regimes de chuva, as operações podem ser prejudicadas por eventos climáticos extremos. “Trabalho tanto nos aspectos físicos do clima como nos possíveis impactos climáticos futuros para a economia das regiões tropicais.” Um dos meteorologistas do grupo estuda os impactos das mudanças climáticas nas operações da Vale na Amazônia oriental e o outro traça um modelo climático para a Amazônia.

O ITV Mineração está em processo de implantação na cidade mineira de Ouro Preto. As áreas definidas como prioritárias são infraestrutura, metalurgia, processamento mineral, mineração e exploração, prospecção e geologia e recursos hídricos. Um dos projetos, coordenado pelo engenheiro agrônomo e professor aposentado da Universidade Federal de Lavras (Ufla) José Oswaldo Siqueira, contratado pelo ITV há um ano, tem como tema a tecnologia de produção de fertilizantes. “A agricultura começa na mineração”, diz Siqueira. As matérias-primas extraídas da rocha são a base para a produção de fertilizantes. “O nosso grande desafio é trazer a demanda da agricultura e da produção de alimentos para dentro de uma empresa de mineração”, diz Siqueira, graduado pela Escola Superior de Agricultura de Lavras, atualmente Ufla, com mestrado e doutorado pela Universidade da Flórida e pós-doutorado pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Para isso, é preciso encontrar novos processos tecnológicos para aumentar a eficiência da extração de matérias-primas e obter produtos de qualidade e ambientalmente corretos.

“Quase toda a tecnologia utilizada hoje para a produção de fertilizantes foi desenvolvida entre 1950 e 1970”, relata. A estagnação se deve ao reduzido interesse dos países desenvolvidos em consequência de políticas agrícolas e o baixo preço histórico dessa commodity química. Mas o cenário mudou nos últimos cinco anos. E a única saída para o Brasil é aumentar a competência tecnológica em toda a cadeia de produção.

Fronteira mineral
“É uma questão estratégica, pois o país importa cerca de dois terços da quantidade de fertilizantes que consome.” O fosfato, por exemplo, é essencial para a produção agrícola dos trópicos, mas as reservas desse mineral são extremamente limitadas no mundo todo. A Vale já produz fertilizantes como fosfato e potássio, mas sua estratégia é se tornar uma grande produtora de matéria-prima para fertilizantes em escala global. Para isso, fez grandes investimentos no Brasil e no exterior, como na África, Peru, Argentina e Canadá, com a compra de novas jazidas e empresas. Além da tecnologia para produção de fertilizantes, o ITV Mineração trabalha com outras 11 linhas de pesquisa, entre as quais está a fronteira mineral do fundo oceânico. As pesquisas estão sendo realizadas em colaboração com a Ufla, com a USP e com universidades como a de Queensland, na Austrália.

Após 25 anos na Embraer, o engenheiro aeronáutico Hugo Resende aceitou, em outubro do ano passado, o convite para estruturar uma área com foco em incubação de novos negócios de base tecnológica, ligada ao ITV. “O desafio é identificar oportunidades de start-ups de novos negócios de base tecnológica a partir das pesquisas feitas não só no ITV como também nos outros centros de pesquisa da Vale”, diz Resende, formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com mestrado e doutorado pela Universidade Stanford. Na Embraer, trabalhou no desenvolvimento de aeronaves, de softwares aeronáuticos e como gerente de desenvolvimento tecnológico, até assumir o cargo de cientista-chefe, responsável por fazer parcerias com universidades e pela identificação de projetos de interesse da empresa.

Experimentos no Centro de Desenvolvimento Mineral, em Minas Gerais

O convite da Vale foi aceito como um novo desafio. “Era o que faltava na minha história profissional. Identificar oportunidades para transformá-las, de fato, em negócios”, diz Resende, que já ocupou alguns cargos na diretoria da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), entre os quais a presidência em 2006. A expectativa é que em 2013 a incubação de novos negócios comece a operar. A atividade está inserida dentro do modelo escolhido como referência no processo de criação do ITV, que é o do MIT. “O MIT tem como foco a transferência de tecnologia para empresas e a formação de empreendedores”, diz Mello.

Resposta imediata
Três grandes laboratórios são os responsáveis por encontrar as soluções para as demandas tecnológicas que necessitam de respostas imediatas. O Centro de Desenvolvimento Mineral (CDM) e o Centro de Tecnologia em Ferrosos (CTF) estão instalados em Minas Gerais. O terceiro, dedicado à tecnologia de níquel e metais de base, está no Canadá. Fundado em 1965, o CDM é considerado o primeiro salto tecnológico da empresa, pelo desenvolvimento de uma tecnologia própria de beneficiamento de minérios com baixo teor de ferro ainda na década de 1960, o que permitiu aumentar a vida útil das minas da Vale. Já o CTF, criado em 2007, desenvolve pesquisas em toda a cadeia de uso do minério de ferro, da mina ao aço. “Trabalhamos com foco na indústria siderúrgica”, diz o engenheiro metalúrgico Rogério Carneiro, gerente-geral do CTF, com graduação e mestrado pela UFMG. “Vários laboratórios e modelos matemáticos que simulam os processos siderúrgicos permitem o desenvolvimento de soluções para os nossos clientes”, diz Carneiro, que desde 2001 está na Vale. Antes disso, trabalhou durante 17 anos em uma indústria siderúrgica brasileira, coordenando pesquisas com foco em minério de ferro, sinterização e alto-forno. Do total de 120 empregados e terceirizados do CTF, 30 são pesquisadores com mestrado ou doutorado, entre os quais estão engenheiros metalúrgicos, de minas e geólogos. É possível testar no centro desde diferentes rotas de beneficiamento até o comportamento do minério nas siderúrgicas. “Temos no CTF equipamentos que reproduzem uma siderúrgica”, relata Carneiro.

As tecnologias inovadoras aplicadas na produção de minério de ferro constituem um diferencial da Vale para garantir sua posição de destaque no cenário mundial. Uma delas é o transporte de minério de ferro por uma estrutura composta por escavadeiras e britadores móveis, no lugar dos caminhões, que faz parte de um projeto para Carajás chamado de S11D. Eles farão a extração e o transporte do minério até a usina de beneficiamento. “O processamento do minério de ferro a partir da umidade natural, sem acréscimo de água, é outra tecnologia que minimizará os impactos ambientais”, diz o engenheiro de minas Stephen Potter, diretor de Planejamento Integrado e Desenvolvimento Tecnológico da Vale, formado pela Escola Real de Minas em Londres, onde também fez mestrado “Além de reduzir o consumo de água, vai permitir a recuperação do material lavrado na mina”, diz Potter, inglês que trabalha há 20 anos em mineração e desde 2009 está na Vale. As partículas mais finas, eliminadas no processo convencional, vão se misturar ao produto final. Também não haverá necessidade de jogar os resíduos do processo em uma barragem construída para essa finalidade, como é feito atualmente. “Haverá menor impacto no ambiente sem a circulação dos caminhões carregados.” A Vale obteve recentemente a licença ambiental prévia para implantação do projeto.


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