FICÇÃO

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Estímulo e resposta

CARLOS CASTELO | ED. 201 | NOVEMBRO 2012

 

Rebeca Richardson resolvera agora apoiar a mão direita sobre o queixo.

A posição na mesa da biblioteca era incômoda. Precisava esticar-se de quando em vez, alongar bem a coluna para poder voltar à leitura.

É bastante difundido o estudo do efeito de liberação de alimento a intervalos de tempo fixo e variável em pombos promovido por Skinner. Os animais foram dispostos numa caixa. E, desconsiderando seu comportamento, um alimento era liberado para que o consumissem.

Iniciava-se a temporada do calor úmido em São Paulo, ambiente bem diverso do Finsbury Park londrino de onde viera para o Brasil há dois anos, recém-casada e recém-formada em psicologia.

O psicólogo notou que, por um tempo determinado, os pombos agiam como se o alimento fosse associado ao que faziam. Um deles, por exemplo, começou a mexer a cabeça para um lado e para o outro. Um segundo animal promovia volteios na gaiola. E assim por diante.

A tese de mestrado na universidade a fizera tomar contato com autores e conceitos que não eram propriamente de sua preferência, para dizer a verdade. A maioria eram ideias comportamentais de Burrhus Skinner.

Esse padrão de comportamento das aves foi cunhado por Skinner de supersticioso. Tal trabalho de investigação comportamental foi extremamente valioso para toda uma geração de pesquisas relativas à superstição em psicologia experimental.

Largou o livro pesadamente sobre a mesa iluminada apenas por um spot. A intensidade do gesto foi tal que os outros pesquisadores a olharam de modo reprovador.

A frase “os pombos podem ser supersticiosos”, em especial, a deixara mais irritada que o normal. Sua formação como psicóloga a fazia sempre pensar nas entrelinhas, nos sonhos e outros meandros da existência. E ela sabia que o fato de lançar a brochura daquela maneira tão inadequada não era apenas uma prosaica neurastenia.

Desde que o tema “comportamento operante” entrara por seus olhos verdes e míopes, encharcara sua pele branca e aveludada, que tudo se transformara numa crônica falta de paciência.

O fato é que preferia a escola de Carl Rogers, diametralmente oposta ao pensamento determinista skinneriano. Não podia aceitar que fatores como controle e previsibilidade sobrepujassem os de liberdade e realização pessoal. Mais: que a clássica teoria do “estímulo-resposta” pudesse ainda hoje conviver com estudos mais contemporâneos. Notava que, ao começar a folhear aqueles livros – os de Pavlov também –, suas faces abrasavam-se. A raiva ganhava fortes contornos e, de uns dias para cá, a acompanhava até depois que deixava a biblioteca e ia para casa.

As lembranças da família em Londres, as dificuldades em se relacionar com os locais e especialmente as relações com o marido a irritavam de maneira despropositada. A sorte – se é que isso não é uma superstição – era Jim ser muito paciente. Tratava-a como uma princesa. Sua fala era calma e pausada, ainda agora quando Rebeca dirigia-se a ele de modo áspero.

Moravam há um tempo considerável em São Paulo, mas ainda não tinham um núcleo fixo de amigos. Talvez fosse o que apoquentava a esposa, prejulgava Jim – que era físico e bem menos afeito que ela às idiossincrasias da mente humana. Por isso tinham ido àquela festa dias atrás.

Ambos viviam para os estudos. Era preciso extravasar um pouco de vez em quando. Aconteceu no apartamento de Ximenes, um funcionário do Departamento de Biologia da universidade. Algo bem simples, cada um levava suas latinhas de cerveja e algum petisco. Rebeca preparou um britânico kidney pudding, que ficou totalmente esquecido sobre a mesa da cozinha, ao lado de garrafas de vinho, vodca, cascos de cerveja e cinzeiros cheios de pontas de cigarros de maconha.

Rebeca inicialmente desgostou-se com os sons altíssimos provenientes das caixas. A música era boa, mas os hábitos dos brasileiros, suas danças extravagantes, meneios e a excessive familiarity cansavam-lhe a alma.

Deixou Jim na cozinha experimentando uma caipirinha preparada pela namorada de Ximenes e encostou-se numa quina da sala para observar a movimentação. Alguns casais dançavam colados, outros mais soltos. O calor que emanava de seus corpos suados e em movimento embaçava os vitrôs do vetusto apartamento. Depois de alguns minutos de frenesi, a música cessou e um rapaz moreno, troncudo e com uma tatuagem de cobra no antebraço pegou do violão e entoou uma dolente canção.

O intermediate Portuguese de Rebeca não conseguiu compreender quase nada da letra, mas a repetição do refrão e o tom a deixaram inebriada. O rapaz moreno cantou mais três peças.

Rebeca, até então distante e calada, decidiu perguntar a uma estudante de serviço social, que aguardava a vez de ir ao banheiro, quem era o cantor.

— É o Toni, ele é de Pernambuco e tem uma banda. Vão se apresentar só essa semana em São Paulo. Depois voltam pro Nordeste.

Jim, que se embriagava com facilidade, veio abraçar Rebeca dizendo com voz pastosa: time to go. Para sua admiração, a esposa, que raramente bebia, respondeu o pedido com um sorriso radiante:

— Just one for the road?

Ficaram até Toni pegar o violão e sair andando pela calçada, o sol nascendo como moldura.

Os livros de Skinner agora tinham que ser deixados quase que instantaneamente de lado após uma breve leitura. A irritação à simples visão do termo “behaviorista” transformava-se em ódio quase físico. Mesmo o fato de continuar estudando psicologia passou a ser colocado em xeque. Discutira isso com Jim certa noite e acabaram por se machucar bastante com as palavras. Passaram-se alguns dias e o silêncio continuava insistindo em pesar entre os dois como uma pedra fundamental.

Num final de tarde, na biblioteca da universidade, Rebeca decidiu digitar num programa de busca o nome da banda de Toni. A nota de um portal de cultura saltou na tela informando que ainda se apresentavam em São Paulo. E muito perto de onde ela estava. Sem pensar levantou-se, pegou um táxi e dirigiu-se ao teatro.

Assistiu ao show anonimamente.

Quando teve início a música que Toni cantara na festa, Rebeca levantou-se da poltrona e postou-se numa quina do teatro. Na mesma posição em que a ouvira aquela noite no apartamento de Ximenes.

Haveria ainda mais duas apresentações da banda. Rebeca compareceu a todas. E, sempre que aquela canção começava, repetia o gesto de ir para a quina do teatro para ouvi-la de pé. Na saída do último espetáculo deixou que Toni a notasse.

Ele a olhou como se tivesse uma lembrança remota de que a conhecia. Ela respirou fundo, venceu a inércia da timidez e foi até ele. Falou, firme, com seu sotaque habitual:

— Eu te vi cantando no apartamento e agora vim te ver no show.

Toni deu um meio sorriso. Beijou-lhe a bochecha, quase fraternalmente e voltou ao camarim carregando a tatuagem de cobra no antebraço.

Rebeca e Jim voltaram a se falar, planejam agora ter um filho quando ela terminar sua tese de mestrado sobre a confluência entre Wilhelm Reich e a semiótica. E, para evitar aborrecimentos, ela nunca mais leu sequer uma linha de Skinner.

Carlos Castelo é escritor, compositor e um dos criadores do grupo musical Língua de Trapo. Autor, entre outros, de O caseiro do presidente (Nova Alexandria) e Orações insubordinadas (Ateliê Editorial).


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