FICÇÃO

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Iniciação científica

JOÃO CARLOS RIBEIRO JR. | ED. 204 | FEVEREIRO 2013

 

1. Descobri o que era iniciação científica quando já estava no segundo ano de faculdade e com um indecoroso 6.1 de média ponderada.

1.1. Eu estava prestes a procurar emprego porque a grana da venda do Monza do meu avô estava acabando.1 Fui alertado do transtorno que uma média ponderada baixa poderia me causar em projetos pós-graduados futuros. Fiquei uma noite inteira fazendo contas de quanto precisaria tirar em todo o resto do curso para alcançar, ao menos, 7.5. Perdi minha série favorita na tevê.

1.2. Aproveitei a calculadora e fiz contas para descobrir as chances do meu time no Brasileiro. Era muito difícil.

1.2.1. A vaga de iniciação científica era em sociologia da tecnologia digital.

1.2.2. Na entrega do trabalho de seleção, gaguejei diante do professor, cuja fama de rigoroso atravessava departamentos e congregações. Depois me contaram que o único que não se intimidou na entrevista foi o cara mais velho que já era formado em economia.

2. A bolsa de iniciação científica valia um pouco menos do que um salário mínimo. Era o suficiente pra mim. Minha mãe me dava o vale-transporte dela.

2.1. O professor de sociologia da tecnologia digital falou que eu não poderia obter a bolsa porque minha média ponderada era menor do que 7.5. Eu disse que tinha tirado 8.5 na matéria dele sobre sociologia do amor virtual e me achei muito perspicaz.

2.1.1. Poucos tinham tirado mais de 8.5. Nenhum deles queria bolsa de iniciação científica em sociologia da tecnologia digital.

2.1.1.1. O economista mais velho achou o valor da bolsa um acinte e não compreendeu a exigência de exclusividade.

2.1.1.2. Eu falei que lia em inglês e em espanhol numa boa, mas francês não. Fiz meu currículo Lattes.

3. Meus amigos não se interessavam por sociologia da tecnologia digital. Eu também não, mas ganhava quase um salário mínimo.

3.1. Não precisei procurar emprego e pude participar do movimento estudantil, onde fiz meu principal círculo de amizades.

3.1.1. E de inimizades, sobretudo.

3.2. Eu não conversava sobre política com meu orientador, mas, quando sozinho, usava o telefone de seu escritório para convocar reuniões ordinárias e extraordinárias.

3.2.1. Também usei sua sala para contatar Michelle, uma ex-estudante da Química que se envolveu na luta armada. A única vez que a vi foi num documentário disponível no youtube. Disse que o nome, obviamente, tinha a ver com os Beatles.

4. Meu time estava sob risco de rebaixamento.

5. Michelle perguntou qual era o sentido do debate e eu disse que queríamos rediscutir a lei da anistia, colocar o tema em pauta. Dar visibilidade, afinal. Mencionei o exemplo argentino.2

5.1. Entusiasmada, Michelle disse que escrevia um livro sobre o período e que só teve coragem de iniciá-lo vinte e três anos após sua volta do exílio.3

5.2. Não havia rigidez de tempo, mas esperava-se uma exposição de até 40 minutos para que houvesse perguntas ou intervenções dos presentes. Após a fala inicial de Michelle, fariam comentários um professor que pesquisava o luto em narrativas literárias e uma professora especialista em legislação sobre direitos humanos.

5.2.1. Os dois eram professores doutores e riram quando perguntei se era assim que eles queriam ser nomeados no cartaz de divulgação.

5.2.2. Na maioria das salas dos professores as plaquinhas de identificação registram o “Dr.”, por isso perguntei.

6. Ao fim do semestre, a minha média ponderada já tinha saltado para 6.9. O professor de sociologia da tecnologia digital me propôs um projeto sobre os efeitos do uso do celular na sociabilidade dos jovens em idade escolar no ensino fundamental II. Eu achei a ideia interessante, mas preferia fazer um trabalho ligado ao período da ditadura militar.

6.1. Ouvi que a ditadura militar já era muito estudada e que outros problemas sociais ainda precisavam de um empurrão teórico para ensejar soluções. Eu contra-argumentei, mesmo sendo difícil para um graduando dobrar um professor doutor convicto.

6.1.1. Insisti.4

6.1.2. Ele disse que eu tinha pegado o espírito.

7. Michelle não pôde comparecer ao debate porque estava com uma grave pneumonia.5 Ela enviou a introdução do livro que escrevia e seu texto comoveu a maioria dos presentes, seguramente.6 Usei um trecho desse texto como epígrafe do meu novo projeto de iniciação científica.

8. Meu time safou-se de ser rebaixado na últi-ma rodada. Eu estive no estádio para apoiá-lo e na saída foi a maior festa. Uma torcida organizada levou seus tambores para a rua e uma pequena multidão a acompanhou, interrompendo o trânsito. A polícia agiu com rapidez e saí de lá quando as primeiras bombas de gases tóxicos foram lançadas.7 Já um tanto afastado, fui informado por telefone de que meu amigo Celso tinha sido preso. Corri para a delegacia porque é notória a severidade dos espancamentos nesses ambientes.

NOTAS
1. O Monza 1985 foi uma herança. Quando meu avô já não conseguia descer escadas, eu era responsável por ir à garagem e ligar o motor por dois ou três minutos para não descarregar a bateria.

2. O fim da ditadura militar na Argentina ocorreu em 1983. Dois anos depois, um longa chamado A história oficial foi lançado. Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, ele trata do roubo e a adoção de filhos de militantes assassinados pelo regime. Neste mesmo ano, a sociedade argentina mobilizada julgou e condenou por crimes contra os direitos humanos os ex-presidentes Jorge Rafael Videla e Roberto Eduardo Viola, entre outros chefes militares. Em 1990 eles foram perdoados pelo presidente recém-eleito Carlos Menem, que governou o país até 1999 e legou ao seu sucessor uma crise econômica que redundou num vórtice político. Em 2001, os panelaços argentinos tornaram conhecida mundialmente a palavra de ordem Que se vayan todos, muito efetiva: as manifestações derrubaram quatro presidentes em 13 dias. Após o curto período presidencial de Eduardo Alberto Duhalde, foi eleito em 2003 Néstor Carlos Kirchner, ex-governante da inexpressiva e gelada província de Santa Cruz. Ele determinou a revisão da lei de anistia. O tema do roubo de crianças pelo regime de exceção ainda rendeu outros filmes tocantes, como Infância clandestina, de 2012.

3. Ela demorou muitos meses para achar a forma adequada de narrar os dias que passou na geladeira, um tipo de tortura em que o preso era colocado nu em uma sala pequena o bastante para impedir que ele conseguisse ficar em pé. A temperatura da cela era controlada e os torturadores variavam-na absurdamente, do calor ao frio insuportáveis. Alto-falantes emitiam ruídos enervantes.

4. A despeito de minha média ponderada, meus contatos do movimento estudantil me permitiram publicar um artigo curto na revista argentina Espacio sociologico e o professor doutor ficou muito satisfeito. O texto não tinha nada a ver com sociologia da tecnologia digital. Eu disse que poderia publicar em outras revistas, que tinha fôlego para ao menos um por semestre. Ademais, se desenvolvesse o tema no mestrado, batalharia para que cada capítulo da dissertação fosse publicado separadamente.

5. A ditadura brasileira contou com assistência médica frequente em sessões de tortura. Os médicos tanto orientavam os torturadores a utilizar técnicas que não deixavam marcas quanto assinavam laudos fraudulentos sobre a causa mortis de muitos que expiraram nos porões. Não raro, militantes que perdiam a consciência durante as agressões eram reanimados para que a tortura continuasse.

6. Como fui responsável pela leitura, pude conferir as reações.

7. A granada lacrimogênea utilizada para dispersar os torcedores era igual à que foi lançada em manifestantes gregos que protestavam em junho de 2011, na cidade de Atenas, contra os ajustes econômicos impostos pela União Europeia e o FMI ao país. No Bahrein, em janeiro de 2012, ativistas antimonarquia denunciaram a morte de uma criança por intoxicação com os gases desta arma, considerada não letal. As cláusulas de confidencialidade dos contratos de exportação destes artefatos autorizam o silêncio da fabricante brasileira: a empresa Condor.

João Carlos Ribeiro Jr. é editor e publicou contos nas revistas Cult, Mouro, Cronópios e no jornal Brasil de Fato.


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