HUMANIDADES

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A arca humana num dilúvio de dados

Encontro discute potencial da eScience e afirma papel importante das humanidades

CARLOS HAAG | ED. 208 | JUNHO 2013

 

Para alguns cientistas, o nó górdio no desenvolvimento de suas teorias é que elas superam os dados e as novas ideias não podem ser testadas por falta de instrumental ou de tecnologia. Para outros, como os pesquisadores da genômica ou da astronomia, a angústia vem justamente da abundância: a reunião de dados é tão rápida que excede a capacidade de analisar, validar e guardar as informações. Para lidar com esse dilúvio de informações é que está surgindo a eScience, que pretende aumentar a capacidade de análise de grandes volumes de dados gerados por projetos de pesquisa por meio da criação de softwares capazes de dar conta das informações coletadas.

No mês passado, a FAPESP e a Microsoft promoveram em São Paulo o Latin American eScience Workshop 2013 para discutir o avanço desse instrumental. “Os telescópios espaciais, como as máquinas de sequenciamento genético e aceleradores de partículas estão gerando um volume de dados até então nunca visto. Para lidar com esse fenômeno e permitir que os cientistas possam manipular e compartilhar os dados precisamos de uma série de tecnologias e ferramentas da ciência da computação que possibilitem fazer ciência de forma melhor, mais rápida e com mais impacto”, explica Tony Hey, vice-presidente da Microsoft Research.

“Temos grandes expectativas em relação à eScience. Se soubermos usá-la adequadamente ela poderá trazer grandes avanços não só em pesquisas, mas na própria maneira de fazer ciência”, diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP na abertura do workshop, quando avisou que a instituição pretende lançar em breve um programa para apoiar pesquisas em eScience. “Temos a clara convicção de que um papel importante da FAPESP é estar na vanguarda da inovação e do conhecimento e consideramos muito importante o apoio à pesquisa em eScience, cuja aplicação em áreas como as de meio ambiente é inequívoca, mas também tem um grande potencial de utilização nas ciências humanas, por exemplo”, afirma Celso Lafer, presidente da FAPESP. Prova disso é que o workshop foi encerrado com a palestra do historiador Chad Gaffield, presidente da Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (SSHRC), para quem a grande questão da era da tecnologia é saber o que nos faz humanos.

Para os especialistas o Brasil não pode ficar de fora desse movimento que pretende transformar as práticas de pesquisa pelo pensamento computacional, com instrumentos científicos movidos por computadores que farão deles amplificadores universais. A ideia pode não parecer tão nova: basta lembrar de Darwin e  de sua rede de correspondentes. Mas se no passado os cientistas trabalhavam sós ou com poucos colaboradores, a ideia é que eles possam, a partir de agora, compartilhar projetos com centenas de colegas em qualquer lugar do planeta em redes internacionais de colaboradores.

A presença de um grupo de 54 estudantes de pós-graduação oriundos da Europa, América do Norte, América Latina (Brasil inclusive), Ásia e África deu um ar jovem e globalizado à plateia do workshop. Os alunos, em geral mestrandos ou doutorandos, foram escolhidos entre 240 candidatos de todo o mundo que participaram do processo de seleção do evento. A bioinformata indiana Angana Chakraborty, que faz doutorado no Indian Statistical Institute, em Calcutá, por exemplo, trabalha no desenvolvimento de novos algoritmos capazes de explorar a “inteligência” das máquinas para acelerar o processo de análise de sequências genéticas.

Pesquisas como essa, nota Hey, mostram que será preciso reestruturar a cultura científica para integrar ciências biológicas, físicas e sociais com engenharias, num movimento interdisciplinar de reunião de criação e uso de conhecimento. Em meio a todo esse movimento, nota o pesquisador, é preciso também refletir sobre as questões como ética, privacidade e segurança cibernética. “Avanços importantes nas ciências precisam ser colocados num contexto social maior pelas humanidades e pelas artes”, observa Hey.

Na palestra Big Data, Digital Humanities and the New Knowledge Environments of the 21st Century, o canadense Chad Gaffield defendeu justamente a centralidade das ciências humanas nesses novos tempos, já que elas seriam as responsáveis pelas ideias, métodos e profissionais que impactam nas indústrias cujo input primário de conhecimento vem das chamadas “ciências duras”. “O novo modelo de inovação integra invenção tecnológica num contexto social e, com isso, aumenta a necessidade e o valor de pesquisa sobre grupos individuais e sociedades”, explica o pesquisador.

Para o historiador, entender tecnologia é compreender o pensamento humano e o seu comportamento, porque fazemos o que fazemos e o que nos faz mudar ou permanecer os mesmos. Segundo ele, as pesquisas mostram que a tecnologia não é apenas outra ferramenta, ao contrário do que Bill Gates disse uma década atrás. Tecnologias e culturas se misturam e interagem para determinar o crescimento econômico e a competitividade, a coesão social e o engajamento, bem como a qualidade de vida.

Gaffield avisa que, como sociedade, devemos reconhecer que temos o dever de entender as implicações sociais e humanas de nossas descobertas, mesmo que essas pareçam ser primariamente científicas ou tecnológicas. É preciso entender os impactos da inovação seja em questões éticas, como o uso de células-tronco, ou de comportamento humano, como no caso da crise econômica recente, fruto de escolhas individuais, financeiras e governamentais.

“Reconhecer essa complexidade é perceber que a construção do futuro não é mais uma questão de pílulas mágicas, drogas milagrosas, arranjos tecnológicos e soluções fáceis. O significado de uma tecnologia agora depende das relações com o meio a que ela se liga. A sociedade importa e a tecnologia depende do contexto que traz significado a novas formas de fazer as coisas”, diz o historiador.

Assim, afirma ele, a economia da internet não pertence mais aos construtores da estrutura que possibilitou a era digital. A tocha foi passada adiante: o futuro agora pertence, ao menos igualmente, aos que usam a tecnologia, às pessoas criativas, aos provedores de conteúdo, aos servidores, a todos que aprenderam a pegar imagens, sons, ideias e conceitos e dividi-las digitalmente.

“Basta ver as colaborações interdisciplinares de filósofos com biólogos, engenheiros e artistas para interpretar as dimensões éticas, legais e estéticas das tecnologias biomédicas; geógrafos em conjunto com demógrafos e economistas repensando políticas públicas para a agricultura; empresários identificando questões críticas a serem pesquisadas por estudiosos do desenvolvimento sustentável”, lembra Gaffield.

O canadense, então, propõe uma nova forma de se pensar a era tecnológica em que vivemos. “Uma nova maneira de entender essas mudanças profundas por que passamos é repensar o que é ser humano”, afirma. Para que as ciências humanas deem conta dessa tarefa elas também precisam estar adequadas aos novos tempos. Gaffield defende que é preciso redefinir o ensino e a pesquisa. Nos programas que ele desenvolve com seu grupo estão sendo abandonadas as velhas distinções entre pesquisa pura e aplicada e de pesquisa estratégica e aquela presumidamente não estratégica. Eles também rejeitam qualquer hierarquia de tipos de atividade de pesquisa em termos de prestígio ou importância.

O mesmo vale para a expansão da contribuição acadêmica para além da ênfase familiar nos artigos em revistas acadêmicas ou livros, para incluir formas diversas de mobilizar o conhecimento dentro e para fora do campus. Segundo o pesquisador, a pesquisa deve ser redefinida de uma epistemologia da especialização para “múltiplas epistemologias”: as humanidades digitais estão se perguntando agora como é possível interpretar 1 milhão de livros.

Até pouco tempo atrás, nota Gaffield, os estudiosos das humanidades achavam que compartilhar o seu conhecimento com não especialistas era um rebaixamento. Os acadêmicos de hoje reconhecem que a comunicação efetiva para além de grupos especializados é um desafio retórico complexo. Os novos professores estão se especializando no uso das possibilidades da era digital. Assim, além de escrever para colegas e para alunos, mais e mais acadêmicos agora proveem o público com conteúdo de cursos on-line, podcasts e mídias sociais para difundir informação, estimular o debate e fazer avançar o conhecimento e o saber.

No futuro, acredita o pesquisador, os estudantes não verão mais uma linha divisória entre trabalhar com humanidades ou tecnologia. Como resultado das novas redes e acesso à informação, a graduação está rapidamente se transformando num grau de pesquisa, ao menos nas universidades que querem preparar os seus estudantes para os desafios deste século.

Para ele, até recentemente o fluxo global dominante era de mão única, com antigas colônias e países em desenvolvimento olhando para os centros cosmopolitas para liderar esforços de pesquisa e educar os seus melhores estudantes. Agora as correntes são multinacionais e não claramente distribuídas. Os líderes das antigas instituições de prestígio sabem que estas podem ficar para trás. Ao mesmo tempo novos talentos e o desenvolvimento de conhecimento em outras regiões podem ajudar na construção de sociedades na nova era que não estejam sujeitas ao velho circuito do saber. Em outras palavras, para Gaffield, a internacionalização da educação e da pesquisa se transformou na característica central das estratégias nacionais do século XXI.

O pesquisador ressalta a observação feita no OECD Global Science Forum Report on Data and Research Infrastructure for the Social Sciences 2012, intitulado New Data for Understanding the Human Condition: “As agências nacionais de amparo à pesquisa precisam colaborar internacionalmente para dar recursos aos pesquisadores a fim de propiciar o potencial necessário e desenvolver novos métodos de compreender as oportunidades e limitações oferecidas pelas novas formas de dados e tecnologias para dar conta de importantes áreas de pesquisa”. Entre os temas fundamentais, insiste Gaffield, está a descoberta do que nos faz humanos. “Esta é a questão que nunca foi respondida adequadamente e que está no centro desta nova era em que vivemos”, avisa.


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