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Pesquisadores mapeiam epidemia de malária na Amazônia

Dos municípios analisados, 543 registraram mais de 300 mil casos da doença em 2010. Populações indígenas e de assentamentos são as mais vulneráveis

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 12:49 6 de julho de 2013

 

Transmissão da malária se dá pela picada da fêmea do mosquito Anopheles. Somente em 2010, 338 registraram situação de epidemia.

A malária é transmitida pela picada da fêmea do mosquito Anopheles contaminada pelo parasito do gênero Plasmodium. Somente em 2010, 338 cidades da Amazônia brasileira registraram situação de epidemia.

Um levantamento conduzido em nove estados da Amazônia brasileira pode contribuir para a detecção precoce das epidemias de malária e, assim, ajudar no controle epidemiológico da doença no Brasil. Em um estudo publicado na edição de maio da revista Cadernos de Saúde Pública, pesquisadores de diferentes instituições realizaram um mapeamento dos casos de malária registrados em 807 municípios da região em 2010. Eles verificaram que 543 cidades notificaram juntas mais de 300 mil casos da doença, registrando-se situação de epidemia em 338 delas. Os resultados permitiram aos pesquisadores desenvolverem um sistema de algoritmo, chamado Sistema de Monitoramento de Casos de Malária na Amazônia Brasileira (Simam), que poderá ajudar na caracterização de situações de epidemia.

A expectativa é que essa ferramenta facilite o monitoramento das epidemias em tempo real e a adoção de medidas mais rápidas de contenção da doença. “O sistema deve possibilitar o acompanhamento da incidência da malária em cada um dos municípios da Amazônia, sem perder o foco de conjunto”, diz Rui Moreira Braz, da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) e autor principal do estudo. “Toda vez que a incidência da malária ultrapassar os limites estatisticamente esperados (acima de 75% da série histórica mensal de casos da doença ocorridos), o programa emitirá relatórios com a lista de municípios afetados para que os gestores possam intensificar as medidas de controle”, explica.

A proposta é de que o Ministério da Saúde adote o algoritmo como um módulo do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Malária (Sivep-Malária), atual sistema de informação responsável pelo registro dos casos individuais da doença. “Assim será possível processar os dados já existentes e transformá-los em relatórios e gráficos devidamente detalhados e de fácil acesso (via internet) aos gestores do Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz Braz. Isso também possibilitará o aprimoramento do Programa de Controle da Malária, além melhorar as ações de controle e a regularidade das intervenções em nível local, já que o sistema hoje não adota parâmetros estatísticos para definir a intensidade da transmissão da doença de modo a identificar a ocorrência ou não de epidemias.

No estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública, os casos de epidemia foram caracterizados segundo a espécie do plasmódio (Plasmodium vivax, P. falciparum e P. malariae), duração dos surtos e as áreas com populações indígenas e as que vivem em assentamentos, garimpos ou próximas a fronteiras com outros países, sempre mais vulneráveis. De acordo com os pesquisadores, as infecções causadas somente pelo P. falciparum, e também as causadas tanto pelo P falciparum quanto pelo P. vivax (infecções mistas), representaram 14,1% dos casos notificados. Já as infecções por P. vivax corresponderam a 85,8% das ocorrências da doença.

Dos 338 municípios epidêmicos, 24,3% registraram surtos de epidemias de média duração (de cinco a oito meses) e 17,4% de longa duração (nove meses ou mais). Em algumas regiões as epidemias começaram antes de 2010, estendendo-se por mais de 12 meses, como nos municípios paraenses de Santa Cruz do Arari, onde a epidemia durou 42 meses, e de Goianésia do Pará, com 46 meses epidêmicos. Ao todo, os pesquisadores registraram 477 municípios com áreas com populações indígenas, garimpos, assentamentos ou de fronteiras. Em 243 deles foi verificada situação de epidemia, sendo registrados mais de 244 mil casos da doença.

O CASO REMANSINHO
Um estudos, conduzido pelo parasitologista Marcelo Urbano Ferreira, da Universidade de São Paulo (USP), também se debruçou sobre a transmissão da malária em áreas com registros de epidemias, como a do assentamento agrícola de Remansinho – com cerca de 250 moradores –, no município de Lábrea, Amazonas. “Ao iniciarmos o estudo em março de 2010 a prevalência de infecção da doença na população era de 13.5%”, conta Ferreira. Ao estudar aquela população nos três anos seguintes, o grupo verificou aumento da incidência da malária no início (outubro e novembro) e no final (março e abril) da longa estação chuvosa, o inverno da Amazônia, fato que pode ser atribuído à maior disponibilidade de criadouros para reprodução dos mosquitos vetores nessas épocas do ano.

Mas explicar as flutuações na transmissão de malária e seus determinantes continua sendo um dos principais desafios relacionados ao planejamento de ações de controle e erradicação da doença no Brasil. “O estudo de Rui Moreira Braz busca fazê-lo em escala regional, contribuindo para a detecção precoce das epidemias em municípios amazônicos. Já o nosso estudo em Remansinho busca identificar determinantes locais de risco de infecção, tanto no plano individual quanto no coletivo”, diz.

Segundo Ferreira, as causas para o recente declínio da incidência de malária em Remansinho após o pico de outubro de 2011 ainda não estão claras. Ele acredita que o avanço do desmatamento pode ter criado condições ambientais menos favoráveis à multiplicação dos vetores. Outra possibilidade para o declínio da incidência da doença é a distribuição maciça de mosquiteiros impregnados com inseticidas a partir de agosto de 2012 a toda a população do assentamento. “Esses mosquiteiros foram adquiridos pelo governo brasileiro para distribuição nos municípios considerados prioritários para o controle da malária.” Em Remansinho, 93% das famílias receberam esses mosquiteiros e 86% dos indivíduos os utilizam regularmente.

A população de Remansinho será acompanhada até o final de 2014. O objetivo é verificar se o declínio da incidência da malária se mantém e extrair lições que possam ser aplicadas no controle da doença em outras áreas. “Assim poderemos estimar com mais precisão a vulnerabilidade das áreas sujeitas às medidas de controle das epidemias e desenvolver estratégias para sua prevenção”, diz o parasitologista. Para Rui Moreira Braz, é importante que novos estudos sejam realizados periodicamente para acompanhar a evolução da situação nessas regiões, já que, ao identificar a espécie de plasmódio que produz a doença, o tratamento pode ser mais específico.

Artigos científicos
BRAZ, R. M.; DUARTE, Elisabeth Carmen; TAUIL, Pedro Luiz. Caracterização das epidemias de malária nos municípios da Amazônia Brasileira em 2010. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro, v. 29, n. 5, mai, 2013.

LIMA, N. F., et al. Plasmodium vivax: Reverse transcriptase real-time PCR for gametocyte detection and quantitation in clinical samples. Experimental Parasitology, v. 132, n. 3, nov, 2012.

SILVIA-NUNES, M., et al. Amazonian malaria: Asymptomatic human reservoirs, diagnostic challenges, environmentally driven changes in mosquito vector populations, and the mandate for sustainable control strategies. Acta Tropica, v. 121 n. 3, mar, 2012.


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