FICÇÃO

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O símio, meu símile

BRUNO ZENI | ED. 211 | SETEMBRO 2013

 

092-093_Conto_211Uma caminhada distendida, percorrida desde longínqua localidade, me trouxe aos altos muros deste castelo sem torres ou campanelas.

As areias que deixei para trás se enevoam rumo ao céu e desenham cortinas de ocre contra o azul da manhã.

Aqui, onde aportei por meus próprios pés, fitei a altura das grandes amuradas brancas contra o sol que nelas incidia, inclemente. Apesar da superfície limpa de suas paredes claras, a construção se deixou galgar, e em poucos minutos eu havia atingido o topo da muralha.

§

De cima, avistei ao longe o símio — um chimpanzé macho, ao que me parecia. Encolhido junto à parede oposta do grande pátio central, ele demonstrava ter me visto, sem ter se perturbado, porém, com minha presença.

Sóbrio chimpanzé, sem indício de humor ou alegria. Visto assim, ao longe, com camadas e camadas de ar — denso e ao mesmo tempo límpido ar entre mim e ele —, visto assim no fundo do pátio interno da edificação, parecia o meu colega um tanto irreal, ou distante, ou ainda mais introspectivo. Entretanto, seus movimentos vagarosos e comedidos não me induziram à dúvida; sugeriam, enfáticos, que estava vivo e que gozava de boa saúde.

§

Não parecia enfermo nem ansioso, tampouco irritadiço. Pensei em lhe acenar, estabelecendo contato.

As areias em torno da construção se estendiam por todos os lados. A nossa edificação, minha e do macaco, erguia-se solitária no meio da seca.

§

Eu havia caminhado por dias, sem parada, e restava ainda um pouco d’água em meu cantil. Pensei em oferecer o resto de bebida — límpida e fresca — ao meu companheiro, recém-encontrado.

Se nem me havia considerado, contudo.

Impassível. Imóvel. Ensimesmado. Esperei.

§

Ventava e fazia calor, o silêncio era completo nos arredores, a não ser pelo assovio do vento contra os grãos de areia que subiam e desciam em vagas em torno dos dois personagens.

Éramos dois ou ele era eu? E eu, uma projeção rebaixada da essência simiesca evoluída?

Por alguns minutos perdi-o de vista.

§

Entenderia a linguagem de sinais, meu símile símio? Perceberia a mim como um igual ou como ameaça? Ser evoluído, ele era? Quanto a mim, de seu ponto de vista, seria sucessor ou antepassado na escala evolutiva dos melhores símios?

Meu ser em negativo, mais evoluído. Metade maior que um dois avos. Avô evolutivo, antepassado contemporâneo, filho adotivo, meu ser mais essencial.

§

Se gozava de boa saúde, já não sei. Ficou imóvel durante todas as horas que despendi em minha recomposição física. Teria eu, agora, quanto tempo nesta paragem? Andei junto à superfície interna do castelo. Sobre a areia, pés afundados no solo ao mesmo nível do símio, eu ia rente ao muro, palmilhando a amurada da edificação desconhecida.

§

Consegui abrigar-me do sol, ainda alto, mas que já apontava a trajetória costumeira, como se podia verificar pelas sombras ligeiramente maiores na ala esquerda da amurada. Pensava tratar-se de um castelo, mas a ausência de estruturas internas ou ruínas — pelo que pude verificar, salvo alguns exemplares espaçados de pedras sem indício de lavor — me fizeram supor outros usos, templo ou observatório astronômico rudimentar. Teria sido altar de sacrifício em vez de abrigo fortificado? O amplo espaço vazio entremuros fora reservado a cerimônias e holocaustos ou teria sido apenas abrigo propício a meditação e reza? Algo além? Observação e prece, conjugadas?

§

O símio executou alguns movimentos, saindo de sua localização inicial, ao norte, e migrando alguns passos a leste, evitando o sol.

Se eu dispusesse de meus instrumentos de navegação e localização… Por que saí em viagem sem tê-los portado em meu alforje? Não sei dizer. Meu caderno de campo, extraviado ao longo da jornada? Minhas pesquisas anteriores, meus experimentos-controle, onde foram parar? Minhas planilhas e anotações sobre o comportamento animal, minhas especulações sobre a psicologia humana, nunca mais reencontradas?

§

Tive medo de me aproximar.

Quanto mais reflito e me esmero em estudar as virtualidades do ser simiesco — porventura mais capaz que o ser que me habita —, mais hesito em testar suas capacidades de atenção e vínculo.

§

Seus impulsos continuam lentos, e a compleição física ainda me parece a de um exemplar masculino. Porém, os gestos que executou ao se acomodar na faixa sombreada, que alcançou depois de alguns passos, os gestos lentos e repetitivos de uma de suas mãos contra o ar aconchegado pelo outro braço, que acalentava um volume imaginário contra o peito — os gestos suaves e demorados lembravam uma carícia de teor e ênfase femininos. Um exemplar masculino de fêmeo comportamento?

§

Ao seu encontro, com o peito
Aberto vou
Se for macho
A desferir
Meus golpes
De afeto violento
Predisposto a amar
Matar ou ser morto
Se fêmea for,
Me achego
Em redor, derredor
Devorá-la
Vou
Com ela
Minha símia
Meu amor desconhecido
Pelo prazer
Pela perpetuação da espécie
Pronto a amar, matar
A morrer ou ser morto

§

Sempre fui mau poeta. Falo em vão, os versos, para ninguém. A cidadela permanece em silêncio, sem outrem, gente nem bicho, pessoa nem besta, símio ou sílfide à vista.

§

Quando a noite vier, pereceremos os dois. Engolidos pela intempérie e pelo frio do deserto, famélicos. Ele não parece precisar de mim. Ela parece não me querer. Abraçados, separados ou apartados, perdidos. Dois, sozinhos e silenciosos.

§

A tempestade de areia se aproxima, posso sentir o ar se adensando.

Tento galgar a amurada. As paredes, sujas de pó, escorregadias e solidificadas, são refratárias à minha escalada. Penso em percorrê-las até o fim — infinito, reincidente, certo da circularidade da edificação.

Se deparar com o ser simiesco?

§

A luz da tarde derrama-se, corta os muros muito brancos da edificação. O céu azul, os grãos acobreados da areia. Dia abreviado neste entardecer que doura a tudo de luz tépida.

Nestas altas latitudes, dia curto, longe do equinócio dos meus dias.

Não sei dizer, não sei saber sentir, não sei meu afeto.

Apenas vou.

Em direção ao símio, meu símile, meu eu melhor, eu mesmo. Meu futuro, no encontro imprevisto.

§

Bruno Zeni é jornalista, doutor em letras e escritor, autor de Corpo a corpo com o concreto e O fluxo silencioso das máquinas.


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