FICÇÃO

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Faro de fato

ESTEVÃO AZEVEDO | ED. 212 | OUTUBRO 2013

 

O nascimento da tese:

Deixou a mente divagar e concluiu, não sem um pingo de descontentamento, que não era bom em realmente nada, a não ser na ironia. Naquele tipo de frase espirituosa, que precisa ser dita na fração de segundo correta para surtir efeito, com sentido dúbio, e que provoca um sorriso contido, mais com a mente que com os lábios. Foi mais longe. Se o seu único dom era a ironia, a vida (ou Deus, para quem gosta) certamente era muito mais irônica que ele.

Primeira prova:

Pense num jovem cheio de amigos, saudável, inteligente, com namorada, sem traumas familiares, financeiramente estável e suicida. Agora, imagine que, quando ele decide finalmente que é chegada a hora de bater as botas, toma todas as precauções necessárias. Prepara o ambiente, põe a bala no revólver, o açúcar e o veneno no copo, dois nós na corda para evitar desgraças (sair vivo?). Finalmente, escreve a carta em que explica o ato: descreve sua angústia, revela o ódio que escondeu por anos, confessa a mais temível vilania, mostra a impossibilidade de viver num mundo tão injusto, escolhe um bode expiatório qualquer. O que importa é que todo seu ato, sua mise en scène fatal, sua coragem ou covardia baseava-se na leitura da carta por seus surpresos amigos, parentes, chefes ou próximos. Eis que, disparado o tiro, derrubada a cadeira, sorvido o veneno, no último suspiro de consciência, percebe um vento, antes inexistente, entrar por baixo do vão da porta trancada. Assiste-o, já agonizando, erguer lentamente a carta de despedida da mesa, que voa preguiçosamente em direção à janela do apartamento, dá voltas e voltas, ultrapassa o vidro, volta para dentro e, caprichosamente, sai novamente para nunca mais ser lida.

Segunda:

O problema não estava na cegueira. Com isso muitos convivem, uns bem, outros pior, mas convivem. O fato é que, impedido de ver o mundo desde o nascimento, não tinha a menor imaginação para construí-lo dentro de sua cabeça. Óbvio que não sabia disso. Enquanto qualquer de nós consegue enxergar ignorância nos deuses, de nós mesmos não vemos sequer a ponta do nariz, a não ser os muito desenvolvidos (de espírito, não de nariz). A partir dos sons não lhe vinha a forma. A partir dos odores não lhe vinha a beleza. A partir das texturas não lhe vinham as cores. Eram borrões nomeados. Tudo era seu próprio nome. Se lhe diziam que tal pequena era bela, sua mente sem imaginação não concebia a sensação de vê-la como a de enfiar as narinas num monte de roupa recém-lavada ou a de roçar os dedos num pêssego perfeito. Suas feições lhe eram desconhecidas. Tateou-se. Tantas vezes fracassou naquele instante em que uma fagulha de invenção era necessária para unir as arestas do pensamento.

Terceira:

A mão pesada do tempo afastara até mesmo os últimos amigos. Em casa, a companhia da mãe, e entre eles os espaços domésticos, inermes, mobiliados com as diferenças que os separavam. E a idade, é claro. Como de rotina, anunciava-se após o almoço, com um som assustador, que era o som de nada acontecendo, e com alertas de que não haveria perigo algum, eis o verdadeiro perigo, anunciava-se a chegada da tarde, e com ela o marasmo. Tédio que só seria vencido com a vinda da noite e suas obrigações, o jantar, o banho – até a medida do enrugamento da pele – e o alívio do sono. No dia seguinte, no trabalho, o corpo e a mente a favor das causas inúteis e mundanas: cinco dias e lá vinha novamente, surgindo no horizonte, a besta-fera mais tranquila já vista. A tarde, com seus segundos imensos e afiados. E a aflição do solitário, que não era pouca, alargava-se, distorcia os músculos, que do mundo já não recebiam nenhum estímulo. Até o mar parava naquele instante. Nem uma brisa. O céu esforçava-se em cinza. Triste criaturinha. No móvel da sala, cheirando a mofo, em dois volumes, havia pessoas que ele conheceria melhor que a amante que sonhava em ter, não risse dele a natureza por puro capricho, criando em tal figura uma aversão às letras. Como quem constrói um ser pleno, mas faltando-lhe o único necessário. Faca sem lâmina, nariz sem buracos. E o solitário ali, com passos sem rumo nos metros quadrados, indo e vindo como se empurrasse um ponteiro, inconsciente da vida repleta de acontecimentos, bem mais do que a do aventureiro, o mais amado, o mais nobre, e que no móvel velho o esperaria, não estivesse ele privado da única arma que alonga a sua e qualquer existência.

Por se impor, a tese acaba:

Divagava, prestes a descobrir o que todos ou nenhum antes dele descobrira. As pistas sempre estiveram na ponta do nariz: quando a mosca ali pousou e com o dedo ele esmagou a existenciazinha e agora, com a máscara que garantia suas últimas inspirações lhe fazendo cócegas e exigindo dele, no leito, que risse da maior ironia.

Estevão Azevedo é editor e escritor. Publicou O som de nada acontecendo, de contos, pelas Edições K, e Nunca o nome do menino, pela editora Terceiro Nome, romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009.


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