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Carta da editora | 215

Trânsitos, tempos, história

Acho fascinante o rosto moreno e sereno da cantora-sacerdotisa egípcia que toma a capa da primeira Pesquisa FAPESP de 2014. Detenho-me nos grandes olhos negros sublinhados talvez a khol, cosmético multimilenar cuja formulação complexa incluía pequenas porções de compostos de chumbo (aparentemente para prevenir infecções), nas sobrancelhas grossas e perfeitamente desenhadas, no nariz de talhe reto, nos belos lábios e na suavidade arredondada do contorno da face e comento en passant que ali está uma linda mulher, certamente no fulgor de sua juventude. Mas Sha-amun-em-su, a dona desse rosto pintado num ataúde que guarda seu corpo mumificado e integra a coleção egípcia do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, não era jovem: morreu com cerca de 50 anos, aproximadamente em 750 a.C., depois de anos a fio a entoar cânticos sagrados em honra ao deus Amon. Sua imagem aqui nesta edição resulta de foto de Eduardo Cesar, profissional que faz parte de nossa equipe há 14 anos.

Fascina-me também, é verdade, a própria história da presença dessa múmia especial numa coleção museológica brasileira e as possibilidades mais recentes de desvendamento de seus velhos segredos por meio de imagens em 3D, vivamente narradas por nosso editor especial Marcos Pivetta. Veja-se: dom Pedro II, durante uma viagem ao Egito entre 1876 e 1877, deu de presente ao soberano do país, o quediva Ismail, um livro sobre o Brasil e recebeu em troca o esquife lacrado da cantora-sacerdotisa. O imperador conservou-o ciosamente em seu gabinete até 1889. A proclamação da República motivou a incorporação do mimo ao acervo do Museu Nacional, que desde 1892 ocupa a antiga residência da família imperial brasileira, pertencente hoje à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O ataúde, ressalte-se, jamais foi aberto, mas nos últimos anos tornou-se uma fonte preciosa de informações sobre hábitos funerários dos egípcios relativamente às suas cantoras-sacerdotisas, graças principalmente aos exames de tomografia computadorizada por raios X que permitem ver em três dimensões as estruturas do corpo preservadas num caixão há 2.800 anos. Vale muito a pena conferir essa narrativa feita com graça e fluência.

Por fim, encanta-me a possibilidade de trazer aos leitores essa reportagem sobre Sha-amun-em-su justamente na passagem de um ano para o outro, período em que de hábito somos convocados a uma reflexão sobre o que fizemos ao longo do último ano e o que nos propomos a fazer neste novo que se nos oferece em branco, sobre o passar do tempo, sobre o trânsito do ser num dado intervalo de tempo. O que fascina aqui é a oposição entre a fugacidade do tempo individual – e nenhum de nós escapa, mais cedo ou mais tarde, dessa angustiante sensação dos dias escorrendo por entre os dedos – e a longa duração do tempo da história. Alguma consolação sempre há na percepção de que há, senão uma eternidade, pelo menos um longuíssimo prazo na história que os seres humanos vêm construindo há milênios.

Brevemente destaco ainda a reportagem de nosso editor de ciência, Ricardo Zorzetto, sobre o que se vai descobrindo a respeito da puberdade precoce e a reportagem de nosso colaborador Igor Zolnerkevic sobre a resistência intrigante que alguns cérebros conseguem opor ao avanço do mal de Alzheimer.

Desejo a nossos leitores bons momentos com esta edição e um Ano Novo inteiro criativo e luminoso.

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