FICÇÃO

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Congresso Internacional do Medo

IVANA ARRUDA LEITE | ED. 216 | FEVEREIRO 2014

 

MEDO_FINALComeça hoje, em São Paulo, o Congresso Internacional do Medo, no teatro da Aliança Francesa. Idealizado pelo filósofo e jornalista Adauto Novaes, o encontro homônimo ao poema de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1940, em Sentimento do mundo, reúne 14 intelectuais estrangeiros e do Brasil para falar da relação entre medo e política.

[Folha de S. Paulo, 24 de agosto de 2004]

É sabido que depois do ataque às torres gêmeas não há quem durma sem remédios, quem festeje o aniversário sem pensar que talvez seja o último, quem ainda queira colocar filhos no mundo. Eu mesma renunciei a esse projeto no dia seguinte ao atentado.

Desde o acontecido, o cheiro da fumaça, os gritos, a lembrança dos corpos saltando, a grossa camada de cinzas nas calçadas intoxicam meu espírito e obnubilam meus pensamentos, que nunca foram dos mais cristalinos.

Hoje de manhã tudo voltou à lembrança ao receber um telefonema do Brasil me convidando para participar do Congresso Internacional do Medo.

O evento será realizado em São Paulo no mês que vem para celebrar o terceiro aniversário da tragédia.

O organizador ficou de me mandar a programação por e-mail.

Prometi pensar sobre o assunto mas fui logo avisando que nunca mais pus os pés num avião nem passei perto de aeroporto. Não posso nem pensar em voar para um lugar tão longe da minha casa.

Outro dia uma sobrinha minha fez aniversário em Elizabethtown, mas cadê coragem pra ir?

Cabe a intelectuais como você apontar caminhos para que possamos sobreviver ao medo e não sermos paralisados por ele, escreveu o organizador no e-mail que me enviou.

Fiquei lisonjeada ao ver meu nome ao lado de pensadores ilustres que, como eu, têm se debruçado sobre o medo como objeto de estudo.

Ah, caro senhor, soubesse eu o caminho para superar o medo e não viveria no estado que tenho vivido.

Deus sabe quanto me custa sair da cama pela manhã, ir à universidade, dar aulas, corrigir provas, fazer reuniões e voltar correndo pra casa antes que escureça, tomar meus remédios e dormir até o dia seguinte, quando o despertador toca e o tormento recomeça.

Ph.D. em Antropologia pela Columbia University, estudo a história do medo há muitos anos. Tenho centenas de artigos publicados sobre o assunto no mundo todo. O medo primitivo do homem primitivo; O medo médio do homem da Idade Média; O medo da morte nos silvícolas da América Central; O medo moderno do homem do século XX; O medo como pauta para o século XXI; O medo do medo é o pior dos medos e por aí vai.

Do primeiro vagido ao último suspiro vivemos sob a égide do medo. Não só ao nível do sujeito, na escala individual, como na escala social, posto que as sociedades civilizadas têm seus pilares fincados no medo.

O medo faz parte constitutiva do ser humano. Eu o chamo de exoesqueleto emocional, já que sem ele não paramos em pé.

O farol do medo ilumina nossos passos desde que pusemos o pé pra fora da caverna. Graças a ele chegamos sãos e salvos até aqui.

Olhando minha produção acadêmica, pode-se ver que sempre tive o medo em grande conta e enalteci-lhe as virtudes.

Mas hoje isso é página virada.

O terrível acidente das torres gêmeas me fez experimentar na carne o lado negro do medo, seu poder paralisante.

O medo na verdade é um poderoso instrumento de tortura da alma humana. É assim que tenho vivido. Torturada pelo medo.

Pra piorar, pelo que vejo na programação, a tendência do tal congresso é culpar-nos (os Estados Unidos e os americanos) pela instauração do medo como modus vivendi do século XXI.

Que loucura!

Como podem acusar-nos de espalhar o medo quando somos os que mais sofrem com ele? Somos vítimas e não algozes. O medo veio do Médio Oriente, senhores. Foi a turma do Bin Laden quem trouxe a notícia que o fim do mundo está próximo. Quem quiser achar que isso é fantasia americana, que ache.

Um importante físico francês, integrante do Comissariado de Pesquisa Atômica, fará uma palestra sobre a ciência como ameaça da humanidade. Hoje somos capazes de construir bombas capazes de exterminar não sei quantos mundos iguais ao nosso.

Mas eu pergunto: seriam os Estados Unidos e a ciência os únicos vilões dessa história?

Não vejo na programação, por exemplo, nenhuma alusão à religião como propagadora mundial do medo. Não são elas que nos assustam desde o berço com demônios e ameaças de fogo eterno? Por que não cobrar explicações dos padres, bispos, rabinos e aiatolás que se regozijam em colocar-nos de joelho frente ao poder terrificante do sagrado?

E as artes, não são elas também culpadas pelo estado de pânico em que vivemos? O que fizeram Picasso, Schoemberg, Stravinsky, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Kerouak, Ginsberg, Burroughs, Buñuel, Fellini, Godard, Kafka se não jogar uma pedra na plácida superfície do cotidiano e revelar-nos uma dimensão assustadora da realidade que desconhecíamos?

E Freud? E Nietzsche?

As artes, a psicanálise e a filosofia se dedicam com afinco à tarefa de deixar-nos num estado de insônia permanente.

Até os esportes têm lá sua parcela de culpa. O que são as Olimpíadas se não um espetáculo de horror a todos os que não conseguem alcançar o ideal da perfeição, do tempo recorde, da superação de obstáculos? Os fracos se apavoram diante de corpos com tamanha competência.

E as babás, senhores, essas almas perversas que nos mitigam o medo quando ainda somos totalmente indefesos, fazendo com que sejamos perseguidos pelo resto da vida por lobos maus, bruxas com caldeirões ferventes, dragões que soltam fogo pelas ventas, velhinhas que trancafiam crianças em jaulas.

Depois disso tudo, um emérito sociólogo português ainda tem coragem de falar que o terror é um “instrumento político do governo dos Estados Unidos”?

Quanta insanidade.

Pensando bem, nem acho que o Brasil seja o lugar ideal para a realização de um congresso desse tipo. Os brasileiros me parecem folgazões em excesso para analisar um tema tão sombrio. Seu destemor beira a inconsequência.

Um povo que consegue chamar de festa um dos espetáculos mais aterrorizantes da face da terra está longe de poder compreender o medo com a seriedade que ele exige.

Durante três dias a multidão entope as ruas das grandes cidades com gritos ensurdecedores e fantasias apavorantes ao som de uma música infernal. Isso sem contar os touros que saem desembestados, pisoteando quantos encontram pelo caminho.

Eles resolvem o problema do medo na base da cachaça. E nós? Que saída temos?

Por fim, leio que o simpósio é aberto a todos os interessados e reconhecido como curso de extensão universitária. Recebem o certificado aqueles que comparecerem a 75% das conferências.

Prometi pensar no assunto, mas é certo que não irei.

Ivana Arruda Leite nasceu em 1951, em Araçatuba; é mestre em sociologia pela Universidade de São Paulo. Publicou os livros de contos Falo de mulher e Ao homem que não me quis e os romances Hotel Novo Mundo e Alameda Santos. Também escreve livros infantis e infantojuvenis.


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