FICÇÃO

Print Friendly

Narcolepsia

THIAGO BARBALHO | ED. 217 | MARÇO 2014

 

Queridos e novíssimos alunos e alunas desta instituição;

Sejam bem-vindos.

Agradeço a presença de todos nesta noite tão importante, apesar de haver tantas noites como esta em nossas vidas. Mas hoje é um grande começo para a maioria de vocês. E como todo começo tem pressa em ser meio e depois fim, peço licença para partir logo ao assunto que

Dada a minha fama, estou certo de que vocês esperam do meu discurso alguma investigação sobre os dilemas políticos atuais. Contudo, vou falar sobre um problema meu, somente meu – e o farei porque, como de costume, vocês gentilmente encontrarão algum sentido para o que eu disser. Conto com isso baseando-me no inegável peso dado a qualquer sentença por mim pronunciada – reconhecimento, permitam-me assumir, mais que merecido após uma vida de persistência na produção de conhecimento dentro dos

Ao contrário de outras enfermidades, eu não escolhi ter narcolepsia. Todas as minhas inflamações e viroses surgiram por decisão fisiológica própria, dentro da lucidez do meu corpo; mas a narcolepsia é um transtorno crônico que vai além da minha deliberação. Com isso, deixo claro que adormecer diante de conversas, durante uma reunião de departamento ou num vernissage jamais me ocorre por desejo de

Aproveito para pedir desculpas públicas aos amigos em cuja presença sofri um de meus ataques. Perdão, Antoniel, pelo dia em que você me contava da sua contratação para professor honoris causa. Perdão, Relião, por ter roncado sobre a mesa do bar na noite em que você se rejubilava com seu troféu de Família Poligâmica de Sucesso. Desculpem-me também os demais que já se sentiram ofendidos diante de meu desfalecimento. Agradeço-lhes a paciência de permanecerem amigos de alguém com

Além disso, agradeço ao reitor por me convidar a inaugurar o semestre desta instituição. Afinal, eu sempre me pergunto sobre as razões de me manterem num cargo tão relevante, sendo eu este homem de defeitos graves de convivência. Se bem que, quando me ocorrem tais questionamentos, é comum eu chegar a um só ponto: é o meu saber esta razão. Não deixa de me despertar o senso cético, contudo, o fato de que a mesma dúvida me retorna: é como se eu não pudesse me convencer de que a minha erudição seja o único porquê de eu ainda estar aqui. Desconfio, senhores, de que as amizades influentes construídas ao longo dos anos neste estabelecimento tenham qualquer influência nesse fenômeno. O que não deve espantar ninguém, já que

Mas voltemos ao tema. O adormecer constante e inesperado me obrigou a encarar bem cedo questionamentos sobre o meu papel no mundo. Ainda bem jovem, eu me atormentava sem aceitar que minhas crises, de consequências por vezes definitivas, partissem de um defeito neurológico tão mínimo que só se deixa ver num exame fotográfico do meu cérebro. Influenciado por opiniões leigas, logo me entendi como um vagabundo que finge sono diante de medo ou tédio. Como sempre tive um ponto de vista fatalista diante dos acontecimentos, pensava que a sonolência excessiva pudesse ser uma reação subconsciente, uma resposta da minha mente ao que acontecia ao meu redor – como se no sono eu revelasse um desejo incontrolável de pausar a própria

No meio desses questionamentos, eu me via incapaz de encontrar um argumento que justificasse minha condição. Às vezes, um ataque parecia uma paixão: era eu me deixando responder aos estímulos mundanos, mormente enfadonhos. Outras vezes, um acesso de sono não fazia sentido, e só podia se justificar através de um diagnóstico profissional. Foi assim que a narcolepsia me trouxe uma dúvida: querer é diferente de necessitar, ou são apenas dois verbos para um mesmo fenômeno? Dito de outro modo: eu adormeço por desejo, por necessidade, ou as duas hipóteses são uma mesma

Na infância, minha mãe me massacrou. Usava um cinto para me acordar das crises, xingando-me com nomes ligados ao mau-caratismo e à vagabundagem. Dizia que meus ataques de sono eram mimos de alguém que quer atenção. Para ela, eu não era um menino doente cujo corpo produzia sintomas de algum processo cerebral dominador. Para ela, eu tentava impor a minha carência levando uma birra ao extremo. Isso me moldou a mente para que eu me considerasse culpado por adormecer sem razão e perder momentos importantes da experiência a que chamamos estar vivo. Culpa, preguiça e arrependimento se misturavam para formar a pasta confusa da minha consciência juvenil. Aos quinze anos, lembro-me de acordar no banheiro, deitado sob o chuveiro aberto, com os berros da minha mãe vindos de fora, perguntando-me que safadeza eu fazia trancado ali havia uma hora. Foi por volta dessa idade que ela parou de me espancar – por certo desistiu de endireitar o filho, encarando-me como um presente divino para testar a sua crença na compaixão. Mas a minha mentalidade já estava formada: eu era um dos homens mais culpados por existir, sem nenhum poder diante do

Foi ainda durante a juventude, ouvindo histórias sobre revoluções sociais, que cheguei à conclusão de que o meu desejo (de escapar de algo e, para isso, adormecer) se igualava à minha necessidade (o corpo em queda urgente). Pensei: a necessidade não passa de uma vontade contundente, pois ambas manifestam uma imposição sobre o sujeito – seja a vontade-necessidade algo como uma ideia, seja um processo notadamente corpóreo. Foi aí que virei fã daquela imagem icônica do sujeito em protesto na Praça da Paz Celestial, diante de uma fileira de tanques de guerra, impedindo-a de avançar: de algum modo aquele indivíduo determinado em conter a repressão do governo chinês se igualava a mim no meu hábito de adormecer diante das arbitrariedades mundanas. Éramos, eu e ele, dois homens incapazes de escapar do grito de nossas

É fundamental, portanto, que todos vocês saibam agir diante de minhas crises. Para tanto, aviso-lhes que se eu, estando de pé em frente à lousa, desabar com a violência de um desmaio, ou se, palestrando no canto da mesa, eu me deitar numa atitude evasiva, o melhor a fazer é esperar pelo meu despertar espontâneo. Conto com a perspicácia de vocês para não me deixarem sozinho em sala. E jamais, jamais me acordem – o meu corpo adormece, senhoras e senhores, e esta é uma imposição além da lógica. Espero que todos entendam a relevância de tratarmos desse tema hoje. Não que os meus problemas sejam maiores e devam ser compreendidos pela humanidade, mas

Thiago Barbalho é potiguar. Escreveu os livros Thiago Barbalho vai para o fundo do poço (Edith, 2012) e Doritos (Vira-Lata, 2013). Também faz a Revista Rosa. Mora em São Paulo, onde trabalha como editor de livros.


Matérias relacionadas

RESENHAS
Cartas provincianas | Silvana Moreli Vicente Dias (org.) | Global Editora |...
RESENHA
Graciliano Ramos e a Cultura Política | Thiago Mio Salla | Edusp
TEORIA LITERÁRIA
Alcance social da obra de Antonio Candido foi além da universidade