FICÇÃO

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Fora de quadro

RAFAEL GALLO | ED. 218 | ABRIL 2014

 

Conto_fora_de_quadro2“ … quando de antemão se prevê a provável falsidade, olhar se torna possível; basta talvez escolher bem entre o olhar e o olhado”
(Julio Cortázar, As babas do diabo)

Eu passei os últimos anos da minha vida completamente imerso no mundo das estrelas de Hollywood. Não, nunca convivi entre os astros do cinema; esse foi apenas o tema do meu mestrado em comunicação.

Quando o concluí, muitos esperavam que eu “aprofundasse” a mesma pesquisa em um doutorado, mas eu já estava cansado de falar e escrever sobre o mesmo assunto, repetir as mesmas palavras. Com a aposentadoria de meu orientador – um dos entusiastas da manutenção de meus estudos – senti mais liberdade para mudar meu caminho.

Gostaria de poder dizer que dei uma grande guinada em minha vida, mas o fato é que é difícil ultrapassar as cercas que erguemos ao nosso redor. Hoje inicio minhas apresentações nos congressos dizendo que meu doutorado é oposto ao mestrado, mas (todos devem notar isso por trás de seus sorrisos polidos) ele não passa de uma inversão – como o negativo de um filme, que basta certa iluminação para se revelar semelhante. De analisar como a figura de uma celebridade se firmava publicamente passei a investigar como ela podia desaparecer. Meu analista disse que eu estava tentando, na verdade, desconstruir minha própria trajetória. Discordo.

A princípio, pensei naqueles casos tantas vezes repetidos: astros mirins afundados nas drogas, símbolos sexuais datados, “revelações” que escolhem mal seus papéis subsequentes; enfim, as várias maneiras de se perder o fio da própria história. Nada disso me empolgara, até que afinal me deparei com a figura maior do desaparecimento cinematográfico: Shirley Mantle.

Estrela do cinema mudo, celebrada pela imprensa, ela nunca mais atuou após o advento do som. Mas não se trata do simples clichê de astro cuja adaptação aos filmes falados não se deu; Shirley nem mesmo tentou participar desse novo sistema de produção. Mas o fascínio maior em torno de sua figura é pelo fato dela ter desaparecido por completo: não sobrou nenhuma imagem registrada sua. Nada; ninguém sabe como é seu rosto, qual o som de sua voz.

Eu, obviamente, não era o primeiro a me aventurar nessa seara. Vários pesquisadores já haviam sido atraídos pelo canto dessa sereia invisível, caindo no mesmo vazio. Existia muito material arquivado sobre a atriz: reportagens na imprensa, cartazes de filmes, textos de historiadores e objetos pessoais, mas em nenhum deles restara qualquer retrato seu. Era como se Deus – feito mais um de seus ex-amantes enciumados – tivesse apagado qualquer vestígio de sua presença no mundo.

Conheço bem sua memorabilia porque a explorei pessoalmente. Passei uma temporada nos EUA, em um doutorado sanduíche, investigando-a na crença de que comigo seria diferente (sempre acreditamos nisso, não?), que eu conseguiria encontrar algo despercebido por meus precursores. Revirei bibliotecas, museus e todos os lugares em que poderia descobrir algo sobre Shirley. Entrevistei seus descendentes e vi álbuns de família (os parentes já estavam acostumados a visitas desse tipo), mas não encontrei nada. De Shirley, sobreviveram apenas histórias transmitidas oralmente, cujo fim parecia já se anunciar nas bisnetas: pré-adolescentes que mal sabiam dizer (ou se importavam) se a célebre ancestral era sua bisavó ou tia-avó, por parte de pai ou de mãe.

Visitei seu túmulo e quase chorei como se acabasse de perder alguém próximo. Acreditava ser possível encontrar alguma pista no cemitério, mas os registros não traziam nenhuma novidade, e em sua lápide podia-se ler apenas seu nome, os anos de nascimento e morte e um versículo genérico da Bíblia. Acima das palavras jazia o que um dia foi seu retrato, mas, por alguma falha no vidro de proteção, transformara-se em uma espécie de aquário, no qual manchas negras flutuavam como peixes na água sépia.

Se minha vida fosse um filme, Shirley Mantle estaria sempre fora de quadro; impossível de ser vista. Minha sorte pareceu mudar somente quando visitei os estúdios da Paramount, onde a atriz realizou grande parte de seus filmes. Deixei-os por último porque sabia que se não a encontrasse ali estaria perdido. Embora eles tivessem se demonstrado prestativos em nossos contatos por e-mail, senti em suas instalações – mais do que em outros lugares – o olvido no qual Shirley se afundara. O arquivista me pediu para repetir o nome dela três vezes antes de pesquisar no sistema. Enfim ele me conduziu pelos corredores, recolhendo as latas numeradas conforme sua lista. Abertas, revelavam o mesmo destino trágico: rolos quase destruídos, tocados pela maldição que selecionava as películas com Shirley para deteriorar ou despedaçar.

Tomei os fragmentos disponíveis e, com a ajuda do auxiliar, assisti o que pude em uma das salas de projeção. Passei dias repetindo aquelas poucas cenas diante de meus olhos, procurando por alguma aparição de Shirley nunca antes percebida. Mas é bastante complicado procurar algo quando não se pode reconhecê-lo mesmo que o encontre.

Uma cena afinal me deu esperança: na adaptação de Rapunzel, de 1924, o príncipe se aproxima da torre onde a donzela permanece inalcançável. Ele chama pela heroína, pedindo-lhe – conforme escrito nos letreiros – que jogue suas tranças. No plano seguinte, vemos a janela da clausura, de onde a moça arremessa seus cabelos, oculta na penumbra. A escalada do príncipe ocupa os dois próximos planos; o segundo me arrancou da cadeira: uma “subjetiva”, ou seja, a câmera posicionada como se víssemos o príncipe através do olhar de Rapunzel/Shirley. Ela deveria estar refletida nas pupilas dele, e havia de fato um vulto ali.

Muitos diriam que uma filmagem não é como a vida real: a atriz dificilmente estaria à frente dele nessa tomada (ali se posicionaria uma enorme câmera). Se era mesmo a intenção do diretor, haveria outras maneiras de se realizar esse efeito de reflexo. Como ele era pouco perceptível (não escapara aos outros historiadores à toa), dificilmente teria sido criado com artifícios de pós-produção.

Tive minhas dúvidas, por isso mandei imprimir uma cópia de um dos fotogramas. Debrucei-me sobre ele por dias e dias, horas a fio. Mirando o close-up no rosto daquele ator incessantemente, minha vista chegava a nublar-se. No entanto, cada vez mais se firmava naquela pequena nódoa negra em seus olhos, em meus olhos, a silhueta dela: Shirley Mantle.

Rafael Gallo é escritor, compositor, produtor musical e professor universitário. Seu livro Réveillon e outros dias foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011, na categoria Contos, e finalista do Prêmio Jabuti 2012.


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